sábado, 25 de junho de 2022

Citações scientíficas

"As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento."
― John Stuart Mill, Sobre a liberdade (1859), in Almeida & Murcho (2014), Janelas para a filosofia, p. 49.

"Na maior parte dos casos, o raciocínio não nos fornece uma demonstração, mas apenas razões para acreditar numa conclusão plausível, ou para preferi-la ligeiramente às alternativas."
― Thomas Nagel, A última palavra (1997), in Almeida & Murcho (2014), Janelas para a filosofia.


"A razão é a descoberta da verdade ou da falsidade. A verdade ou a falsidade consistem na concordância ou discordância seja com a relação real de ideias, seja com a existência real e a questão de facto. Logo, o que não for susceptível desta concordância ou discordância é incapaz de ser verdadeiro ou falso."
― David Hume, A treatise on human nature (1738), in Almeida & Murcho (2014), Janelas para a filosofia.

"[AK] A facilidade e a responsabilidade que nós (na Ciência) temos em mudar de paradigma, de ideia. Basta uma teoria melhor, basta evidências melhores, e a gente muda.
[ML] Museus como agentes de validação, mas de uma validação da informação que não é dogmática, quer dizer: se aparecerem evidências, em resultado da pesquisa, em resultado da razão e da análise, do pensamento, etc., nós (museus) temos obrigação de ser os primeiros a dizer «não, não é assim».
[AK] Passar essa tranqüilidade para a população, e quando nós (a Ciência, numa forma geral) não estivermos corretos, mudamos! Sem trauma, sem muito problema. Então a gente não se agarra às nossas ideias; a gente as tem em função das evidências que nós temos. Se as evidências mudam, a gente muda as ideias para transmitir o melhor conhecimento para a sociedade. E finalmente a Ciência tem de existir ― como os museus ― para o benefício das nossas sociedades. (...) Maravilhar o visitante, mas também criar nele a visão crítica de tudo o que o cerca."
― Alexandre Kellner (MN-UFRJ), numa sessão de Museus em Diálogo de Marta Lourenço (MuHNaC), no FB 26/06/2020.

"(...) na ciência, o objecto da investigação não é a natureza em si, mas a natureza subordinada à nossa maneira de colocar o problema. (...) A ciência já não é um espectador colorado em frente da natureza."
― Werner Heisenberg, A Imagem da Natureza na Física Moderna (1955), in Almeida & Murcho (2014), Janelas para a filosofia, p. 136.
Ou seja: uma questão de aproximação matemática... A implicação é que só os físicos é que podem entender a natureza em si ― até porque não podem observar directamente o objecto natural que estudam. Logo, não concebem a ciência como inductiva, mas deductiva a priori, observacional a posteriori, e é assim que Popper constrói a sua filosofia. Quanto a mim, a «natureza subordinada» de Heisenberg não pode ser generalizada e só pode ser entendida como aquilo que eu digo sempre: as minhas assunções só são válidas dentro e para os fins experimentais de um só artigo (ou tese); mas as interpretações de resultados continuam a ser inductivas. MP, 30 Jul 2020.

"(...) o conhecimento humano é sempre uma questão de sorte epistémica: quando usamos as nossas faculdades cognitivas com cuidado, produzimos muitas vezes conhecimento, mas produzimos também muitas vezes ilusão de conhecimento, e nada que possamos fazer poderá eliminar este último caso. Deste ponto de vista, o termo «conhecimento» limita-se a assinalar a nossa confiança relativa de que sabemos algo; contudo não é possível especificar de antemão os critérios que distinguem o conhecimento da ilusão de conhecimento porque é no próprio seio da nossa actividade cognitiva que vamos descobrindo as muitas maneiras como podemos estar enganados, e as muitas maneiras como tentamos tornar mais improvável que estejamos enganados. Assim, o que realmente conta é saber se uma crença é verdadeira e se as nossas justificações são suficientemente robustas, sendo aceitável que não garantam o conhecimento, desde que tornem muitíssimo improvável a ilusão."
― Aires Almeida & Desidério Murcho, Janelas para a filosofia (2014), p. 111.

"Since the study of philosophy involves working with concepts rather than facts, the activity of philosophy seeks understanding rather than knowledge. In other words, emphasis in this course of study is placed on the reasoning process. Memorizing the subject matter of philosophy is less likely to give insight into the discipline than is engaging actively in the process of doing philosophy."
― Lee Archie & John G. Archie, Reading for Philosophical Inquiry (2004), p. 4.

"More than ever ideals of reason, science, humanism, and progress need a whole hearted defense. We take its gifts for granted: new borns who will live more than eight decades, markets overflowing with food, clean water that appears with a flick of a finger and waste that disappears with another, pills that erase a painful infection, sons who are not sent off to war, daughters  who can walk the streets in safety, critics of the powerful who are not jailed or shot, the world's knowledge and culture available in a shirt pocket. But these are human accomplishements, not cosmic birthrights. In the memories of many readers of this book—and in the experience of those in less fortunate parts of the world—war, scarcity, disease, ignorance, and lethal menace are a natural part of existence. We know that countries can slide back into these primitive conditions, and so we ignore the achievements of the Enlightenment at our peril. (...) The ideals of the Enlightenment are a product of human reason, but they always struggle with other strands of human nature: loyalty to tribe, deference to authority, magical thinking, the blaming of misfortune on evildoers."
― Steven Pinker, Enlightenment Now: The Case for Reason, Science, Humanism, and Progress (2018), pp. 19-20.

Five elements of Public Speaking:
1 communicator
2 message
3 medium
4 audience
5 effect
The speaker should be answering the question: "who says what in which channel to whom with this effect."

Dialoguing 101 (Doha Debates):
1 set goals
2 actively listen (talk less than listen; pay attention)
3 ask questions
4 focus on interests (find common interests)

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Paula Rego (1935-2022)

terça-feira, 10 de maio de 2022

Primeiros filmes do cinema em Portugal

Nos primeiros 50 anos de filmagens em Portugal. 

1894/1895 ― La Sortie de l'usine Lumière à Lyon (1.º filme de sempre)

1896 ― Caricaturas por Pina Vaz
1896 ― Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança (1.º filme feito em Portugal)
 
[1897, Jan. ― Filmagens da avenida Rio Novo (Rio Branco?), no Rio de Janeiro, por Aurélio Paz dos Reis? Se existirem, são as 1.ªs no Brasil]
1897 ― Ancoradouro de Pescadores na Baía de Guanabara
1897 ― Bailado de Crianças no Colégio, no Andaraí
1897 ― Chegada do trem em Petrópolis
1897 ― Uma artista trabalhando no trapézio do Politeama (1.ºs filmes feitos no Brasil)
1897 ― O Comboio de Recreio e Sintra

1900 ― Um Passeio de D. Carlos

1901 ― Regresso dos Soberanos da sua Viagem aos Açores

1902 ― Visita do Rei Eduardo VII de Inglaterra

1903 ― A Família Real
1903 ― Visita do Rei Afonso XIII de Espanha

1905 ― Visita do Imperador Guilherme II da Alemanha

1906 ― Os Lusíadas

1907 ― Batalha de Flores no Campo Grande
1907 ― O Rapto de uma Actriz

1908 ― Grisette (1.ª tentativa de filme sonoro em Portugal)

1909 ― A Cultura do Cacau (1.º filme em São Tomé e Príncipe)
1909 ― D. Manuel nas Festas do Centenário da Guerra Peninsular
1909 ― Os Crimes de Diogo Alves (filme inacabado)

1910 ― A Grande Corrida de Automóveis no D. Amélia
1910 ― Chantecler Atraiçoado
1910 ― Rainha Depois de Morta

1911 ― Os Crimes de Diogo Alves (o mais antigo filme de ficção portuguesa conservado)

1916 ― O Quim e o Manecas
1916 ― Uma Conquista de Cardo as Charlot no Jardim Zoológico de Lisboa

1917 ― A Rosa que se Desfolha (filme luso-brasileiro)
1917 ― Pratas, o Conquistador

1918 ― Frei Bonifácio
1918 ― Mal de Espanha
1918 ― Malmequer
1918 ― O Homem dos Olhos Tortos

1919 ― A Rosa do Adro
1919 ― Nascimento, Músico
1919 ― Nascimento, Sapateiro
1919 ― O Comissário de Polícia
1919 ― O Mais Forte

1920 ― A Visita do Rei dos Belgas a Lisboa ou Romão Gonçalves, Cantor e Nadador
1920 ― Barbanegra
1920 ― O Amor Fatal
1920 ― O Condenado
1920 ― Os Fidalgos da Casa Mourisca
1920 ― Romão Gonçalves, Boxeur e Atleta
1920 ― Romão, Chauffeur e Mártir

1921 ― Amor de Perdição
1921 ― Quando o Amor Fala...
1921 ― Velha Gaiteira

1922 ― A Sereia de Pedra
1922 ― As Mulheres da Beira
1922 ― O Centenário
1922 ― O Destino
1922 ― Os Faroleiros

1923 ― A Estrela de Brilhantes
1923 ― A Morgadinha de Val-Flor
1923 ― As Pupilas do Senhor Reitor
1923 ― Aventuras de Agapito
1923 ― Cláudia
1923 ― Lucros... Ilícitos
1923 ― O Castelo de Chocolate
1923 ― O Fado
1923 ― O Groom do Ritz
1923 ― O Primo Basílio
1923 ― O Suicida da Boca do Inferno
1923 ― Os Lobos
1923 ― Os Olhos da Alma
1923 ― Tempestades da Vida
1923 ― Tragédia de Amor

1924 ― A Tormenta
1924 ― Tinoco em Bolandas

1925 ― Charlotin e Clarinha

1926 ― A Calúnia
1926 ― O Bicho da Serra de Sintra
1926 ― O Desconhecido
1926 ― O Fauno das Montanhas

1927 ― O Táxi Nº 9297
1927 ― Rita ou Rito?...

1928 ― Bailando ao Sol
1928 ― Fátima Milagrosa
1928 ― O Afilhado de Santo António
1928 ― O Diabo em Lisboa

1929 ― Acabaram-se os otários (1.º filme sonoro no Brasil)
1929 ― A Dança dos Paroxismos
1929 ― José do Telhado
1929 ― Nazaré, Praia de Pescadores
1929 ― Um Passeio Auspicioso

1930 ― A Castelã das Berlengas
1930 ― Lisboa, Crónica Anedótica
1930 ― Maria do Mar
1930 ― Ver e Amar

1931 ― A Portuguesa de Nápoles (filme mudo)
1931 ― A Severa (1.º filme sonoro de Portugal)
1931 ― Douro, Faina Fluvial (filme mudo)
1931 ― Nua (filme mudo)

1932 ― Campinos do Ribatejo (filme mudo)
1932 ― Hulha Branca (filme mudo)

1933 ― A Canção de Lisboa (2.º filme sonoro e 1.ª longa-metragem inteiramente produzida em Portugal)

1934 ― A Obra da Junta Autónoma de Estradas (último filme mudo)
1934 ― Gado Bravo (filme sonoro)
1934 ― O Lançamento do Contra-torpedeiro DÃO (filme sonoro)
1934 ― Porto de Lisboa (filme sonoro)

1935 ― As Pupilas do Sr. Reitor

1936 ― Bocage
1936 ― Caramulo
1936 ― O Trevo de Quatro Folhas

1937 ― A Revolução de Maio
1937 ― Maria Papoila

1938 ― A Canção da Terra
1938 ― A Extraordinária Aventura do Zéca
1938 ― A Rosa do Adro
1938 ― Aldeia da Roupa Branca
1938 ― Arquipélago dos Açores
1938 ― Os Fidalgos da Casa Mourisca
1938 ― Sorte Grande
1938 ― Um Passeio na Beira-Baixa

1939 ― A Segunda Viagem Triunfal
1939 ― Varanda dos Rouxinóis
1939 ― Viagem do Chefe do Estado às Colónias de Angola e S. Tomé e Príncipe

1940 ― As Festas do Duplo Centenário
1940 ― Famalicão
1940 ― Feitiço do Império
1940 ― João Ratão
1940 ― Pão Nosso...
1940 ― Porto de Abrigo

1941 ― A Exposição do Mundo Português
1941 ― Moçambique
1941 ― O Pai Tirano
1941 ― O Pátio das Cantigas

1942 ― Ala-Arriba!
1942 ― Aniki Bóbó
1942 ― Férias à Beira-mar
1942 ― Lobos da Serra

1943 ― Amor de Perdição
1943 ― Ave de Arribação
1943 ― Fátima Terra de Fé!

1944 ― A Menina da Rádio
1944 ― Gentes que Nós Civilizámos (Apontamentos Etnográficos de Angola)
1944 ― Inês de Castro
1944 ― O Violino de João
1944 ― Um Homem às Direitas

1945 ― A Noiva do Brasil
1945 ― A Vizinha do Lado
1945 ― Caldas de Aregos
1945 ― Cinco Lobitos
1945 ― É Perigoso Debruçar-se
1945 ― José do Telhado
1945 ― Madalena... Zero em Comportamento
1945 ― O Diabo São Elas...
1945 ― Sonho de Amor

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Citações sobre a narrativa

"Para Lobato, o conto é mesmo a narrativa de “causos” e deve se desenrolar levando com ele o leitor atento à sucessão dos fatos. (...) sua teoria do conto, a partir de seus modelos, Maupassant e Kipling: «Quero conto que conte coisas; conto donde eu saia podendo contar a um amigo o que aconteceu, como fulano morreu, se a menina casou, se o mau foi enforcado ou não.» (...) A origem dessas narrativas curtas está nas histórias que ouve, nos relatos que se espalham, em recriações de fábulas ou mitos tradicionais que vão se transformando nas ficções que se sucedem (...); é também sabendo ouvir de maneira toda especial a gente do interior e seus “causos”, incorporando e recriando sua linguagem (...): «Contos andam aí aos pontapés, a questão é saber apanhá-los. Não há sujeito que não tenha na memória uma dúzia de arcabouços magníficos, aos quais para virarem obra de arte, só falta o vestuário da forma, bem cortado, bem cosido, com pronomes bem colocadinhos». (...) não falta sequer o recurso ao fantástico, ao incrível fantasioso que dá aquele sal que considera imprescindível ao conto na construção do enredo que vai do amor romântico à história de terror." [«Grandes folhetinistas andam por este mundo de Deus perdidos na gente do campo, ingramaticalíssima, porém pitoresca no dizer como ninguém.» Monteiro Lobato no conto O mata-pau, in Contos Completos, p. 120]
― Beatriz Resende, na apresentação aos Contos Completos de Monteiro Lobato, pp. 10s.

"(...) texto fortemente entretecido de cortes, elipses, interrogações, dúvidas, anacolutos, litotes, com mudanças bruscas de interlocutor mesmo no meio da frase. E assim por diante, num discurso que habilmente desnorteia o leitor, ao mesmo tempo cativado e manipulado pela enganosa facilidade da leitura. (...) [A narradora] elege o microcosmo, examinando comportamentos e padrões de conduta, sem esquecer a lubrificação conferida pela hipocrisia (...). A narradora é instrumento aperfeiçoado, afinado e afiado, talvez a maior perícia da escritora. A elegância de uma escrita quase minimalista desposa a elegância das soluções de enredo. (...) duas categorias de contos ou grupo de contos: uma dos mais estruturados e uma dos menos estruturados, que já resvala para o fluxo da consciência."
― Walnice Nogueira Galvão, no posfácio da edição d'Os Contos de Lygia Fagundes Telles.


"(...) her economy, the boldness of her comic gift, her speed, her dramatic changes of the point of interest, her power to dissolve and reassemble a character and situation by a few lines (...)"
― V. S. Pritchett, on Katherine Mansfield, 1946 (v. Guardian bookblog).

"(...) what we usually mean by the [short story] genre is that concentrated form of writing that, breaking away from the classic short tale, became, as it were, the lyric poem of modern fictional prose. The great precursors were Chekhov, Henry James, Katherine Mansfield, James Joyce, and Sherwood Anderson. It took on a strong modernist evolution in the work of Hemingway, Faulkner, Babel and Kafka which, in the period after 1940, was followed by a new wave of experiment led by Beckett and Borges (...). The modern short story has therefore been distinguished by its break away from anecdote, tale-telling and simple narrative, and for its linguistic and stylistic concentration, its imagistic methods, its symbolic potential. (...) the story as an art of figures rather than adventures, (...) committed to the single occasion or the single concentrated image (...)."
― Malcolm Bradbury, from the introduction to The Penguin Book of Modern British Short Stories (1987).

"(...) the short story—in its earliest manifestations, the short tale or romance—as a form ideally suited to the expression of the imagination. (...) lends itself to experimentation and idiosyncratic voices. (...) it represents a concentration of imagination, and not an expansion; (...) and, no matter its mysteries or experimental properties, it achieves closure—meaning that, when it ends, the attentive reader understand why. (...) not a mere concatenation of events, as in a news account or an anecdote, but an intensification of meaning by way of events. Its "plot" may be wholly interior, seemingly static, a matter of the progression of a character's thought. Its resolution need not be a formally articulated statement (...), but it signals a tangible change of some sort."
"In addition to these qualities, most short stories (but hardly all) are restricted in time and place; concentrate upon a very small number of characters; and move toward a single ascending dramatic scene or revelation. And all are generated by conflict. The artist is the focal point of conflict. Lovers of pristine harmony, those who dislike being upset, shocked, made to think and to feel, are not naturally suited to appreciate art, at least not serious art; which, unlike television dramas and situation comedies, for instance, does not evoke conflict merely to solve it within a brief space of time. Rather, conflict is the implicit subject, itself; as conflict, the establishment of disequilibrium, is the impetus for the evolution of life, so is conflict the genesis, the prime mover, the secret heart of all art."
― Joyce Carol Oates, from the introduction to The Oxford Book of American Short Stories (1992), pp. 10s.

domingo, 3 de abril de 2022

Lygia Fagundes Telles (1918-2022)

"Lygia pertence a uma linhagem em nossa literatura que vem de Machado de Assis — crítica, velada, expressa no bom português de quem sabe escrever e toma a literatura a sério. Nunca facilitou e nunca se mostrou sujeita a modas ou tendências."

― Walnice Nogueira Galvão, no posfácio da edição d'Os Contos de Lygia Fagundes Telles.

terça-feira, 29 de março de 2022

A Narrativa de Ficção ― SUMÁRIO

NARRATIVA = história + discurso + narração

INTRODUÇÃO (a narrativa)
1. Narrativa = história + discurso + narração
2. História = diegese, ficção (conteúdo da narrativa)
3. Discurso = enunciado, texto (expressão da história)
4. Narração = enunciação, relato (produção do discurso)
5. Composição (recitação, redacção)
6. Bibliografia

HISTÓRIA = diegese, ficção (conteúdo da narrativa)
0. O tema
1. As personagens
2. As circunstâncias

DISCURSO = enunciado, texto (expressão da história)
1. Tempo do discurso: Ordem (anacronias)
2. Tempo do discurso: Velocidade (anisocronias)
3. Tempo do discurso: Freqüência (repetições)
5. Modo do discurso: Perspectiva (focalizações)
6. Modo do discurso: Alterações

NARRAÇÃO = enunciação, relato (produção do discurso)
1. Narrador: Nível
2. Narrador: «Pessoa»
3. Narrador: Tempo da narração
4. Narratário

COMPOSIÇÃO (recitação, redacção)
1. Géneros narrativos
2. Gramática da língua
3. Valorização estilística
5. Estratégias textuais
6. Notas e recomendações artísticas

1. Teoria e análise
2. Prática da escrita
3. Livros escolares
4. Corpus essencial da narrativa de ficção
5. Clássicos da narrativa de ficção na língua portuguesa

Este texto pertence a uma série de 10 postagens sobre a narrativa de ficção que inclui Sumário, Introdução, História I, História II, Discurso I, Discurso II, NarraçãoComposição I, Composição IIBibliografia.

sexta-feira, 25 de março de 2022

A Narrativa de Ficção ― INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO (a narrativa)

1. Narrativa = história + discurso + narração

• História
• Discurso
• Narração
[• Composição]

A narrativa é uma tipologia literária com definições várias consoante quem a estude (v. bons resumos em Aguiar e Silva pp. 385s, Reis & Lopes 1987 e Reis 2018, Alves 2009; Bourneuf & Ouellet 1978, a subsecção “Uma história de marinheiro” pp. 36-42 é um excelente resumo do que seja a narrativa). 

Mas, em todas as definições (incluindo as que vêm nos dicionários da língua portuguesa, por exemplo na Infopédia [= Porto Editora], no Aulete e no Priberam [= Lello]), a narrativa implica uma história que seja contada, uma sucessão de acontecimentos experienciados por personagens (Aguiar e Silva p. 711); uma narrativa de ficção seria, então, a narração de uma sucessão de acontecimentos ficcionais (Rimmon 2002, p. 2). 

[A distinção entre realidade e ficção, porém, esbate-se: Mircéa Eliade mostrou que a literatura oral se confundia com a religião, veìculando mitos como se fossem «histórias verdadeiras» contando tanto acontecimentos reais, como aventuras heróicas ou a criação do mundo (in Bourneuf & Ouellet 1978, p. 18); e já o poeta gaúcho Mario Quintana dizia “para mim, tudo é verdade mesmo” (no Caderno H, 1973).] 

Alguns críticos dividem a narrativa em dois planos de linguagem, o das personagens e o do narrador, isto é, o que se narra (a história) e como se narra (o discurso) (Mesquita 1987, p. 21; Reis & Lopes 1988, p. 277; Gancho 2006, p. 37). 

No entanto, para o teórico francês Gérard Genette (Discours du récit, em Figures III, 1972 [daqui para diante DR] e Nouveau discours du récit, 1983 [daqui para diante NDR]) a narrativa tem três ― e não dois ― planos, òbviamente relacionados, mas distintos: uma história, ou seja, o conteúdo de um enunciado, a sucessão de acontecimentos reais ou fictícios; um enunciado narrativo, isto é, o discurso (oral ou escrito) que corresponde ao relato de uma série de acontecimentos; e a narração, o acto de narrar em si mesmo, isto é, “um acontecimento: não aquele que se conta, mas aquele que consiste em que alguém conte alguma coisa” (DR pp. 71-72). Como tal, e para efeitos de estudo, atribui a cada um destes planos um termo técnico preciso em francês: histoire récit narration, respectivamente. Shlomith Rimmon-Kenan (2002, p. 3) segue a divisão de Genette e chama-lhes, em inglês: story text narration. Eu aqui, nesta série de postagens, vou seguir de muito perto o sistema de Genette e fazer uso dos termos em português: história discurso narração.

[Atenção que a palavra «récit» se costuma traduzir para português por «narrativa», mas Genette é muito claro p. 72: no sistema dele, «récit» significa sempre «discurso», “Je propose (...) de nommer (...) récit proprement dit le signifiant, énoncé, discours ou texte narratif lui-même” (excepto no título da obra, «discours du récit», claramente «discurso da narrativa», provàvelmente de propósito).]

Dos três planos da narrativa, o discurso é o único que se presta directamente à análise textual, o único que está disponível ao leitor ou ouvinte: é pelo discurso (expressão) que se tem acesso à história (conteúdo) através da narração (produção) (DR p. 73; Rimmon 2002, p. 4). Não há narrativa a não ser que se conte uma história de uma certa maneira. A narrativa é, portanto:

• a narração do discurso da história.

• a enunciação do enunciado da diegese.

• a produção da expressão do conteúdo.

• o relato do texto da ficção

quem conta e como é contado o que há para contar.

Eu acrescento um «quarto plano»: o da composição da narrativa, que equivale à sua redacção (se for escrita) ou à sua recitação (se for verbal, contada oralmente). Penso que muitos aspirantes a escritor (incluindo eu próprio!) confundem o desejo de pôr palavras e frases no papel com o de criar uma narrativa. Foi só depois de estudar os meandros da história, do discurso e da narração, que compreendi que a redacção do texto pouco tem a ver com a narrativa em si, e que é uma actividade que vem apenas depois de se ter construído uma narrativa lógica e original. É depois (e só depois) que entram a escolha do género narrativo, a boa gramática, as escolhas estilísticas, a estrutura dos parágrafos e da mancha tipográfica, etc.


2. História = diegese, ficção (conteúdo da narrativa)

• Personagens
• Circunstâncias: espaços, tempo da história, etc.
• Enredo

No plano da história ou diegese ou ficção ― o conteúdo da narrativa — parece ser consensual que toda e qualquer narrativa de ficção é alicerçada em pelo menos quatro elementos (ou categorias): as personagens, as circunstâncias (muitas vezes divididas apenas em tempo e espaço), o enredo (acções e acontecimentos) e o narrador (Gancho 2006, pp. 6 e 11). São os conteúdos reconhecíveis da ficção (Reuter 1997, p. 21). Por vezes o tema de uma narrativa é também considerado um elemento. 

“Um texto narrativo é aquele onde um narrador conta uma «história» em que entram personagens que se envolvem num enredo situado numa determinada circunstância (espaço, tempo, etc.)” (Teixeira & Bettencourt 1997, p. 105, adaptado).

“Num inquérito feito em 1965 para uma revista [francesa], umas dezenas de leitores adultos (...) definiam a sua conceição do verdadeiro romance: 
• pintar caracteres, criar heróis e tipos, ser a «odisseia de um destino»;
• contar uma história, conter acção, apresentar situações variadas.” (Bourneuf & Ouellet 1972, p. 20)

“(...) para o leitor vulgar, o romance [a narrativa] é, em primeiro lugar, uma história complexa e inverosímil, encontros miraculosos, heróis demasiado perfeitos e heroínas demasiado belas para serem verdadeiros. «Fiction», dizem os anglo-americanos, «ilusão», poderíamos traduzir [para francês, mas também dá em português] sem grande infidelidade.” (Bourneuf & Ouellet 1972, pp. 5-6)

São, portanto, as personagens (com a sua caracterização e atributos, motivação e objectivo) e o enredo (com conflito e tensão, verosimilhança e causalidade, e uma estrutura) que conduzem a história (categorias fundamentais da narrativa, dizem Reis & Lopes 1987, p. 215), enquanto que as circunstâncias existem inevitàvelmente se aquelas existem, ainda que se possa dizer que um espaço (a cidade de Lisboa nas narrativas de Eça de Queirós, por exemplo) também possa, em certos casos, ser considerado uma personagem. “A diegese (ficção, história), como sucessão de eventos (...), é inconcebível fora do fluxo do tempo” (Aguiar e Silva, pp. 745s) e é a este que se chama tempo da história, não se confundindo nem com o tempo do discurso, nem com o tempo da narração; e corresponde ao tempo necessàriamente cronológico do universo ficcional onde as personagens e as acções acontecem (tempo que depois vai ser tratado ou elaborado não-cronològicamente, resultando no tempo do discurso). 

Não havendo acção ou acontecimentos decorridos ao longo do tempo, não há história (nem narrativa). Por exemplo, as quatro proposições em «Roses are red/ Violets are blue/ Sugar is sweet/ And so are you» são verdadeiras ao mesmo tempo, não há uma sucessão temporal de umas para as outras no mundo ficcional representado por estas frases e, portanto, não há história (Prince 1980, p. 49, in Rimmon 2002, p. 16). É a presença de uma história que distingue um texto narrativo de um texto não narrativo (Rimmon 2002, p. 16). “A experiência do tempo estrutura-se em acções desenvolvidas numa intriga coesa” (Reis & Lopes 1987, p. 76).

Como se viu antes, no sistema de Gérard Genette a narração é um plano diferente da história e, como tal, o narrador será tratado como voz da narração e não como elemento da história.


3. Discurso = enunciado, texto (expressão da história)

• Tempo do discurso: ordem, velocidade, freqüência
• Modo do discurso: distância, perspectiva, alterações

O plano do discurso ou enunciado ou texto ― a expressão (escrita, oral ou audiovisual) da história — é o resultado do acto de enunciação de um narrador. É construído através de procedimentos de elaboração técnico-narrativa (Reis & Lopes 1987, p. 141) que são, à partida, independentes do conteúdo da narrativa. Aparenta resultar do labor do narrador, porque é este que vai organizar e mediar toda a expressão do conteúdo da narrativa, mas na prática o discurso depende das diferentes escolhas técnicas e criativas (Reuter 1997, p. 21) que a autora tem de fazer para construir/estruturar os elementos narrativos coerentemente e para causar os efeitos desejados nos leitores. 

“O romancista opera nos feitos que quer narrar um corte e uma escolha, muitas vezes de ordem cronológica (...) privilegiar certos factos e deixar outros na sombra. Compõe a história [o discurso] para produzir um certo efeito no leitor, para reter a sua atenção, comovê-lo, provocar reflexão. Organiza a matéria-prima da sua história para lhe dar uma forma artística.” (Bourneuf & Ouellet 1978, p. 31)

Gérard Genette inspira-se nas categorias da gramática do verbo para as designações das categorias do discurso da narrativa («discours du récit»): modo e tempo (e voz para a narração: a voz do narrador, DR pp. 75-76).

O tempo do discurso é uma sucessão de enunciados (frases, períodos, parágrafos) e resulta do tratamento ou elaboração do tempo da história; só é igual ao tempo da história se essa sucessão de enunciados corresponder cronològicamente à sucessão dos acontecimentos. “O tempo do discurso é o arranjo textual dos acontecimentos da história; é unidireccional e irreversível, mas também é repetição e mudança” (Rimmon 2002, pp. 45-46). “O tempo do discurso é o resultado de uma estratégia textual que interage com a resposta dos leitores e lhes impõe um tempo de leitura” (Umberto Eco, Seis passeios, 3.º passeio p. 53). “O romance [a narrativa] é (...) uma arte temporal (...), é discurso, quer dizer, implica sucessão e movimento” (Bourneuf & Ouellet p. 169).

As relações entre o tempo da história e o tempo do discurso são de ordem, de velocidade (Genette inicialmente diz «duração») e de freqüência (DR p. 77). Isto é:
• relação entre a ordem temporal da sucessão dos acontecimentos na história e a ordem (pseudo-)temporal da disposição desses acontecimentos no discurso;
• relação entre a velocidade variável dos acontecimentos na (ou segmentos da) história e a (pseudo-)velocidade desses acontecimentos no discurso [= comprimento ou longura ou extensão ou demora ou delonga do texto, medida em linhas, parágrafos e páginas, NDR p. 23];
• relação entre as capacidades de repetição da história e as do discurso.

Genette decidiu designar tècnicamente como modos do discurso aquilo a que na mesma frase chama “modalidades (formas e graus) da «representação» narrativa” [“modalités (formes et degrés) de la «représentation» narrative”, DR p. 75]. Os modos do discurso são apenas dois, a distância e a perspectiva (incluindo as alterações à perspectiva), palavras que são metáforas para designar os modos de regulação da informação veiculada pelo discurso (DR p. 203) por selecção quantitativa e qualitativa do que é narrado. Genette distingue o modo do discurso (qual é a personagem cujo ponto de vista orienta a perspectiva narrativa? quem vê?) da voz do narrador (quem é o narrador? quem fala?).

A distância corresponde, grosso modo, à oposição anglo-saxónica entre to show (mostrar, mimesis) e to tell (contar, diegesis), que Genette, como veremos, considera não uma oposição, mas uma gradação de telling criando maior ou menor ilusão mimética. A perspectiva (e suas alterações) são as «focalizações», neologismo criado por Genette para estruturar com reduzida ambigüidade velhos termos como «ponto de vista», «visão», «foco narrativo», «aspecto», «restrição de campo», etc.

Resumindo, o discurso pode apresentar as acções e os acontecimentos da história (Veríssimo et al. 1998, p. 28, adaptado):
a. por ordem cronológica, igual, portanto, à da história;
b. com alteração da ordem cronológica (anacronia), recorrendo a analepse (recuo a acontecimentos passados) ou prolepse (antecipação de acontecimentos futuros);
c. à mesma velocidade dos acontecimentos na história (isocronia), por exemplo, na cena dialogada;
d. a uma velocidade diferente (anisocronia), recorrendo ao resumo (condensação dos acontecimentos), à elipse (omissão de acontecimentos) e à pausa (interrupção da história para dar lugar a descrições ou digressões);
e. a uma maior ou menor distância da história;
f. a esta ou àquela perspectiva da história.


4. Narração = enunciação, relato (produção do discurso)

• Narrador: nível, «pessoa», tempo da narração
• Narratário

Plano da narração ou enunciação ou relato ― a produção do discurso — é o acto de enunciação de um narrador e dirige-se, explícita ou implìcitamente, a um narratário (Reis 2001). Genette observa três categorias da «voz do narrador»: o nível do narrador, a «pessoa» do narrador e o tempo da narração; enquanto que o narratário merece tratamento à parte. 

No sistema de Genette, a «voz» designa as relações tanto entre a narração e o discurso, como entre a narração e a história, na mesma medida em que o tempo e o modo do discurso se referem às relações entre o discurso e a história (DR pp. 75-76). Daqui se vê como esta planificação triangular funciona bem num sistema teórico, mas também na prática: 
      Narração
     (voz) / \  (voz)
História    — Discurso
      (tempo e modo)

Faço aqui uma nota àcerca dos vários tipos de tempo na narrativa. Já se viu atrás que tempo da história, tempo do discurso e tempo da narração são coisas diferentes. Umberto Eco considera que há ainda um tempo de leitura, isto é, o tempo que quem lê demora a ler uma narrativa (Eco, Seis passeios, 3.º passeio pp. 50s), que Aguiar e Silva subsome no tempo do discurso. Bourneuf & Ouellet separam o tempo da aventura (equivalendo, mais ou menos, ao tempo da história + o tempo do discurso de Genette), o tempo da escrita (talvez semelhante ao tempo da narração de Genette, ou então o tempo que uma narrativa demora a ser redigida, incluindo, quiçá, todo o tempo de revisão e edição) e o tempo de leitura (similar, presumìvelmente, ao de Eco). Luiz Antonio de Assis Brasil (2019, pp. 328s) mostra um complicado esquema que inclui tempo da escrita, tempo da narrativa (= ao tempo do discurso de Genette), tempo como percebido por uma personagem (parte do tempo da história que inclui os tempos psicológicos de todas as personagens) e tempo de leitura [ficando a faltar o tempo da narração e o tempo cronológico = tempo real da história]. 

Estas questões teóricas dos tempos podem ser lidas nos dicionários literários (Reis & Lopes 1987; Reis 2018; Ceia 2018) e noutras obras especializadas (Aguiar e Silva pp. 745s; Bourneuf & Ouellet 1972, pp. 169s; Rimmon pp. 45s; e em Genette, evidentemente); eu aqui vou cingir-me aos três tempos técnicos de Genette, que são aqueles de verdadeira importância para a narrativa.


5. Composição (recitação, redacção)

• Géneros narrativos
• Gramática da língua
• Valorização estilística
• Modos de apresentação do discurso
• Estratégias textuais
• Recomendações artísticas

O meu quarto plano, o da composição — recitação ou redacção da narração — vem depois de se ter construído uma narrativa lógica e original. Não basta ter uma ideia e saber redigir correctamente: a elaboração de uma narrativa requer o conhecimento e a prática de certos recursos técnicos que permitam construir a ideia que uma autora tem em mente (Sabarich & Dintel 2001).

É depois de se ter construído essa narrativa lógica e original que começa a composição de um texto literário consistente e de qualidade. Para compôr uma narrativa (o que Reuter chama la mise en texte, que se pode traduzir por montagem de texto ou produção/criação do texto, isto é, a redacção de facto da narrativa), um escritor socorre-se de recursos múltiplos que implicam escolhas formais, lexicais e sintácticas, retóricas e estilísticas, textuais, etc. (Reuter 1997, p. 22). “A composição estrutura esses elementos num todo harmonioso nas justas proporções, respondendo a uma preocupação estética” (E. M. Forster, in Bourneuf & Ouellet 1972, p. 43).


6. Bibliografia

• Teoria e análise
• Prática da escrita
• Livros escolares
Corpus essencial 
• Clássicos na língua portuguesa

Tentei estudar sobretudo a bibliografia em língua portuguesa, mas tornou-se inevitável recorrer a fontes noutras línguas, principalmente Genette, que eu estava em condições de ler no original. Comecei por recorrer aos meus velhos livros escolares, que ainda são os melhores para aprender muitas destas coisas, ou ao menos para atingir um conhecimento inicial que depois aprofundei. As outras obras, separei-as em «teoria» e «prática», que me pareceu uma separação evidente porque o meu interesse sempre foi chegar às boas práticas da escrita da narrativa, mas com um mínimo (um máximo?) do conhecimento teórico produzido por tantos estudiosos e tantas estudiosas por esse mundo académico fora. Finalmente, breves listas de obras-mores da narrativa literária.

Este texto pertence a uma série de 10 postagens sobre a narrativa de ficção que inclui Sumário, Introdução, História I, História II, Discurso I, Discurso II, NarraçãoComposição I, Composição IIBibliografia.