Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

(sem título ou falsa biblioteca em fogo)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Le sonnet des voyelles

Rimbaud caricaturado por Luque na revista Les Hommes d'aujourd'hui em janeiro de 1888. Imagem tirada da Wikipedia Voyelles (sonnet)CC BY-SA 3.0

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu : voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d'ombreE, candeur des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles ;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes ;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides
Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges
 O l'Oméga, rayon violet de Ses Yeux !

        Arthur Rimbaud, Oeuvres, Paris, Garnier, 1960, p. 110. 

Famoso poema de Rimbaud, que começa com uma sinestesia entre som (as vogais) e côr, e parece oferecer "uma prova de que existe um nexo intrínseco entre os sons e os significados de um poema. O Prof. Étiemble demonstrou a inanidade de tais ilações, pois, já antes de Rimbaud, o dinamarquês Georg Brandes e [o francês] Victor Hugo tinham atribuído cores às vogais e, quando se comparam as equivalências estabelecidas pelos três autores, verifica-se que não apresentam acordo em nenhum ponto. Além disso, o soneto de Rimbaud não revela verdadeiramente um fenómeno [sinestésico] de audição colorida, pois quando pretende produzir uma visão de verde, o poeta acumula objectos verdes: mares víridos, pastagens; quando pretende evocar visões rubras, acumula: púrpuras, sangue escarrado, lábios belos. Como acentua o mencionado crítico, Rimbaud «esquece completamente o primeiro verso do seu poema, que fica no ar, bastante tolamente, e que nada tem a ver com o soneto propriamente dito. O primeiro verso poderia anunciar um exercício de audição colorida. Os restantes treze são o seu desmentido» (217)." 

(217) — Cf. R. Étiemble, Le mythe de Rimbaud. II  Structure du mythe, Paris, Gallimard, 1952. Veja-se também de R. Étiemble, Le sonnet des voyelles. De l'audition colorée, à la vision érotique, Paris, Gallimard, 1968.

In Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, 8.ª edição, Coimbra, Almedina, 2007, pp. 667-668. 

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Heſpaña Libertada, Parte Primera, Canto Primero


5.
Y tu mi patrio reyno Luſitano,                       [ſ = s, o chamado "s longo"]
Que de muchos de Europa eres corona,
Si por eſcreuir eſto en Caſtellano                  [u com valor de v, "escrevir"]
He dexado tu lengua me perdona;
Que es el origen de la hiſtoria Hiſpano,
Y quiero que mi Muſa, pues la entona
Tambien a lo Heſpañol vaya veſtida,
Para ſer mas vulgar, y conocida.

6.
Confieſſo de tu lengua que merece
Mejor lugar deſpues de la Latina,
Con que en muchas palabras ſe parece,
Y es como ella de toda hiſtoria dina.              [dina = digna]
Empero el ſer tan buena la eſcurece;
Y aſsi la eſtraña gente nunca atina
Con ſu pronunciacion, y dulces modos,
Y la Heſpañola es facil para todos.

7.
Por eſſo eſcrivo en ella aqueſta hiſtoria,
Deſſeando que de muchos viſta ſea,
(...)


Dona Bernarda Ferreira de Lacerda (1595-1646), autora portuguesa do poema épico Hespaña Libertada, escrito na língua castelã, mas publicado em Lisboa no ano de 1618. Nestas estrofes 5, 6 e 7 do canto primeiro da primeira parte, a autora desculpa-se e justifica-se por não usar a língua portuguesa!

domingo, 31 de maio de 2020

É preciso saber deixar


É preciso saber deixar
o tumulto
chegar ao coração

apressar o pulso incerto
fazer pulsar a paixão
onde estaria o deserto


Maria Teresa Horta

in Estranhezas, 2018, p. 185, ed. Dom Quixote
em itálico no original

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O Minueto

Ao canto do salão, olhos vagos no espaço,
ele em púrpura e ouro, ela empoada à francesa,
o senhor Cardeal e a senhora Duquesa
assistem, conversando, a um serão do Paço.

Marca Lucas Giovine o solene compasso;
dança o minueto de Haydn a corte e Sua Alteza:
e os dois velhos, lembrando a antiga gentileza
e o tempo em que, amoroso, ele lhe dava o braço,

balbuciam, sorrindo, um tímido segredo,
escondem-se inda mais no biombo, quase a medo,
como fugindo à luz da sala enorme e acesa.

E quando um criado vem servir-lhes os gelados
surpreende a dançar, velhinhos e curvados,
o senhor Cardeal e a senhora Duquesa.

Júlio Dantas (1876-1962)

sábado, 1 de março de 2014

Três de Mário Quintana

Bilhete (Esconderijos do Tempo, 1980)
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

A Arte de Ser Bom (Espelho Mágico, 1951)
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.

Poeminha do Contra (Prosa e Verso, 1978)
Esses todos que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mário Quintana

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Canção Excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projecto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,

é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço,
— do que faço, arrependida.

Cecília Meireles, in Vaga Música, 1942

sábado, 24 de novembro de 2012

A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caída nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crisântemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a adivinharem-lhe o fim. Em roda tombavam-se adormecidos os ídolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, porcelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labirinto que nem os dragões dos deuses em dias de lágrimas. E os seus olhos rasgados, pérolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas.
Ele, num gesto ultimo, fechou-lhe os lábios com as pontas dos dedos, e disse a finar-se: — Chorar não é remédio; só te peço que não me atraiçoes enquanto o meu corpo for quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ela, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Céu para Ele, e a saltitar foi pelos jardins a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ela.
Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.
A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros, in Frisos – Revista Orpheu nº1

domingo, 9 de setembro de 2012

Prece (Mensagem XII)

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silencio hostil,
O mar universal e a saüdade.

Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda ha vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a occultou:
A mão do vento pode erguel-a ainda.

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ancia –,
Com que a chamma do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distancia –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!


Fernando António Nogueira Pessoa
escrito a 1 de Janeiro de 1922
publicado in Mensagem (1934)
versão da 3.ª edição (1945)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Puck

If we shadows have offended,
Think but this, and all is mended,
That you have but slumber'd here
While these visions did appear.
And this weak and idle theme,
No more yielding but a dream,
Gentles, do not reprehend:
if you pardon, we will mend:
And, as I am an honest Puck,
If we have unearned luck
Now to 'scape the serpent's tongue,
We will make amends ere long;
Else the Puck a liar call;
So, good night unto you all.
Give me your hands, if we be friends,
And Robin shall restore amends.

William Shakespeare
after "A Midsommer night's dreame"
Act V, Scene 1 (1600)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pois bem!

Se um Inglês ao passar me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
fui eu que tas cedi num dote de princesa.
E para te ensinar a ser correcto já,
coloquei-te na mão a xícara de chá...

E se for um Francês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
de ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei.
Antes de Montgolfier, um século!, voei.
E do teu Imperador as águias vitoriosas,
fui eu que as depenei primeiro, e às gloriosas
o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
por essa Espanha acima, até casa a coxear.

E se um Yankee for que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Quando um dia arribei à orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa;
olhava para mim o vermelho doutor
— eu era então o João Fernandes Lavrador...
E o rumo que seguiste a caminho da guerra,
fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.

Se for um Alemão que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói afinal é um tenor;
Siguefredo hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.

Se for um Japonês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa à tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes, Zeimoto e outros da minha guarda
foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.

Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
vejo no firmamento as estrelas de Deus,
e penso que não são oceanos, continentes,
as pérolas em monte e os diamantes ardentes,
que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
— são estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
extasiado fixou pela primeira vez...
Estrelas coroai meu sonho Português!

P.S. A um Espanhol, claro está, nunca direi: — Pois bem!
Não concebo sequer que me olhe com desdém.

Afonso Lopes Vieira
(1878-1946)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Tu que tens, ó D. Fernando




— Tu que tens, ó D. Fernando,
que andas tão triste na guerra?,
ou te morreu pai ou mãe
ou gente da tua terra.

— Não me morreu pai nem mãe,
nem gente da minha terra:
vou triste por minha amada,
deixei-a e vim para a guerra.

— Aparelha o teu cavalo,
sete anos ao pé dela.

Ao cabo de sete anos
soldado volta da guerra:

— Tua amada já é morta,
é morta, eu bem a vi.
— Dá-me os sinais que levava
para me eu fintar em ti.

— Levava saia de seda
e blusa de carmesim;
o cinto que a apertava
era de ouro e marfim.


— Eu vendia o meu cavalo,
também me vendia a mim,
para mandar dizer missas,
tudo por alma de ti!

— Não vendas o teu cavalo,
nem te vendas tu a ti:
quanto mais bem me fizeres
mais pena se mete em mim;

as três filhas que lá temos
leva-as para ao pé de ti:
que se não percam por homens
como eu me perdi por ti...

De te ver fiquei repeso


De te ver fiquei repeso,
em vez de ganhar, perdi;
quis prender-te, fiquei preso,
e não sei se te prendi.

domingo, 22 de agosto de 2010

Brinquedo

Foi um sonho que tive:
era uma grande estrela de papel,
um cordel
e um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
com ar de quem semeia uma ilusão;
e a estrela ia subindo, azul e amarela,
presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu,
que deixou de ser estrela de papel.

E o menino, ao vê-la assim, sorriu
e cortou-lhe o cordel.

domingo, 25 de abril de 2010

Era il giorno ch'al sol sì scoloraro...

Era il giorno ch'al sol sì scoloraro
per la pietà del suo factore i rai,
quando ì fui preso, et non me ne guardai,
chè i bè vostr'occhi, donna, mi legaro.

Tempo non mi parea da dar riparo
contra colpi d'Amor: però m'andai
secur, senza sospetto; onde i miei guai
nel commune dolor s'incominciaro.

Trovommi Amor del tutto disarmato
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco:

Però al mio parer non li fu honore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l'arco.

sábado, 17 de outubro de 2009

Due poesie da due opere...


Rinaldo:
Cara sposa, amante cara,
Dove sei?
Deh! Ritorna a' pianti miei!

Del vostro Erebo sull' ara,
Colla face dello sdegno
Lo vi sfido, o spiriti rei!

(Rinaldo, da George Friderick Handel)

-----------------------------------------------

Serpina:
Il martellin d' amore
Che mi percuote ognor.

Uberto:
Mi sta per te nel core
Con un tamburo amore
Che batte forte ognor.

Serpina:
Deh! senti il "tipiti"?

Uberto:
Lo sento, è vero, si!
Tu senti il "tapata"?

Serpina:
E vero, il sento già!

(a due):
Ma questo ch' esser puo???

(La serva padrona, da Giovanni Battista Pergolesi)

domingo, 11 de outubro de 2009

As Sem-razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Busque Amor novas artes...

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luiz Vaz de Camoens

sábado, 4 de abril de 2009

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

Maria Teresa Horta