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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Cinco antigos momentos de ficção

1.
        O ventrículo esquerdo recusava-se a funcionar. Mas ela agarrava-se à vida sem saber bem porquê. Já tinha passado tanto tempo desde que tinha saído da barriga da mãe... Ela nem se lembrava de quanto tempo tinha passado! E o ventrículo esquerdo mantinha-se inconstante. Deixou de sentir as pernas. Também para quê agarrar-se à vida? Ela nem tinha gostado muito dela. Crescera, namorara, casara, tivera filhos e netos... e depois? O marido tinha sido um pândego, um imbecil cobarde que lhe fazia coisas quando chegava a casa bêbado, coisas em que ela não queria pensar... Já não sentia nada da barriga para baixo, as mãos estavam dormentes. Os filhos tinham sido trabalhos e preocupações, e no fim — porque houve um fim, muito antes deste que agora aí vem — no fim, os filhos abandonaram-na, foram viver longe, tornaram-se inalcançáveis por vontade própria... 
        O ventrículo ficou imóvel. O coração parou. Ouviu o aparelhómetro ali do hospital a dar um sinal e viu as enfermeiras a correr para ela, nem percebeu muito bem porquê. Os netos, ela nem os conhecia bem... Vinham visitá-la nas férias, alguns fins-de-semana por ano, mas depressa se aborreciam e escondiam-se por detrás dos jogos de vídeo e computadores e parafrenálias afins, para não ter de estar com ela nem sequer aqueles poucos dias. Deixou de sentir os braços, o pescoço. As enfermeiras mexiam nela, chamavam o nome dela; um médico apontava-lhe uma luz aos olhos. Os netos não estavam ali, ela sabia que não estavam. Nem os filhos. Deixou de sentir a nuca, depois os lábios, as pálpebras, a testa. Deixou de sentir-se. O esmorecido ventrículo levou a melhor. (A última coisa que ouviu foi um telemóvel.) 

        Lisboa, 14 de Julho de 2008 


2.
        Já era o segundo bolo que a Teolinda fazia naquela tarde. O primeiro saiu muito, muito mal (pelo menos é o que ela diz). Eu tinha chegado a casa com os pés encharcados da enxurrada que passava na estrada. Não que chovesse, não: era um cano roto que explodiu pela terceira vez esta semana. Fora isso, estava um calor insuportável na rua e eu cheguei corado, a transpirar, cansado.
— Deixa lá isso, para que é outro bolo? — disse eu. — Esse forno só está a deixar a cozinha mais quente do que já está!
A Teolinda sussurrou-me "é uma surpresa", mas não explicou mais nada e eu não perguntei mais nada — assumi que não era para mim e desinteressei-me da questão.
Bebi um meio copo de água e despejei o resto no vaso com uma dicotiledónea que estava sobre o peitoral da janela. Estava tão seca que parecia que alguém a tinha andado a regar com ácido... 
        Ali de cima via os paralelepípedos desarrumados do chão da praça e as pessoas tristes que passavam. Uma discussão entre marido e mulher, alheios a tudo, sozinhos no mundo deles, que devia estar cheio de arame farpado. O calceteiro fazia ronha, fumando encostado a um prédio decadente, quiçá a impedir que caísse... Mais ao longe, a ribeira do cano roto. Dei à planta mais um copo de água. E tudo isto via eu da janela, enquanto ouvia o ruído incessante do aparelho de ar condicionado mesmo por baixo dela. 
        — Já está — disse a Teolinda.
         O bolo? Que rápido.

        Lisboa, 14 de Julho de 2008


3.
        Está em frente ao roupeiro, olhando para a amálgama que lá está. Ele nunca percebeu nada daquilo de roupa, ela é que tratava disso. Só que ela já tinha saído... Ele tirou umas calças que supôs não seriam dela, uma camisa que ele desejava que não fosse dela (os botões são à esquerda ou à direita?) e uma camisola de malha que ele tinha a certeza que não era dela porque ela não usava camisolas de malha. Vestiu-se e olhou para um espelho da porta. Não viu nada de errado — nunca via, apesar de ela criticar tudo! Tirou da gaveta do fundo o Patek Philippe — esforçada prenda do pai que estava ao lado do velhinho Casio que foi o seu primeiro relógio, e uma nota de 10 euros do maço de reserva. Estava a chover e ele pensou que era boa ideia usar o guarda-chuva novo que a tia Eduarda lhe tinha dado no Natal, mas não valia a pena, o seu velho e torto guarda-chuva ainda havia de durar muito, não valia a pena estar a estragar outro.
Fechou as portas do roupeiro e ao fechar a última viu uma nesga do cofre antigo que ele nunca tinha conseguido abrir — e aquilo sempre o intrigou. O que estaria lá dentro? Mas fechou a porta totalmente e suspirou: já estava atrasado para o trabalho...

        Lisboa, 29 de Julho de 2008


4.
        Andy McTheach fazia-se passar por um turista como outro qualquer. Obrigava-se todos os dias a cumprimentar com a sua melhor Received Pronunciation, como um antigo locutor da BBC, o casal de australianos que estava hospedado naquele hotel. E como reparou que a maior parte dos turistas carregavam pequenos romances de bolso, deslocou-se à banca, retirou um livro ao calhas, olhou o preço sem piscar e depois de pagar foi sentar-se no lobby à espera do seu contacto português.
Folheou o livro. Não gostava nada de ler. Tinha-o feito para contentar a 1.ª mulher, Hannah, mas depois do divórcio depressa se deixou disso. A 2.ª mulher, Carlotta, também não gostara de ler, o que tinha sido um alívio. Ele só esperava que a sua noiva de agora também não gostasse. 
Mas fez um esforço, tinha de manter as aparências. Cruzou as pernas, acomodou-se no cadeirão de verga, tirou o chapéu Homburg e abriu o livro ao calhas. Leu o seguinte:
Chegou-se a ela, um centímetro de cada vez. Falava, mas não dizia nada. Ela estava calada, à espera. Quando as pontas dos narizes se tocaram ele parou de falar, chegou-se mais a ela e os lábios tocaram-se. Devagar, sentiu os lábios dela e deixou que ela sentisse os seus. O que aconteceu a seguir foi pura música.
Que ridículo! Estava ele a ler aquilo! Franziu os lábios com desdém. Apeteceu-lhe atirar o livro para longe. Os beijos não eram assim, ele nunca tinha demorado tanto tempo a beijar uma mulher. "Chegou-se a ela centímetro a centímetro". Pfui! Ele, Andrew Cuthbert McTheach, nunca esperava para sentir os lábios de uma  mulher, partia logo para a língua, abocanhava e chupava... Era assim que se beijava. "E o que aconteceu a seguir foi pura música". Ele nunca se preocupava com a música, quer estivesse a tocar ou não; eram só as carnes, o roçar, o esfregar, o apalpar, sexo duro e mais nada, não havia cá sentimentalismos! Ele, às suas companheiras (e eram muitas, mesmo depois de casado), nunca fizera nada mais do que sexo. Não se lembra de ter tocado ou beijado Hannah. Não se lembrava nem da textura da pele dela porque nunca esperou para a sentir...
Ouviu passos. Dirigiam-se para ele. O seu instinto pô-lo alerta. Era o seu contacto português, que lhe disse baixo:
— Do we have a deal?

        Lisboa, 31 de Julho de 2008


5.
        Josefina Ana, mulher dos seus sessenta e muitos, mal tratada pela vida mas desenvolta, tropeçou numa trouxa de roupa que trazia para lavar e foi de rebolão pelos degraus das Escadinhas de São Bernardo. Resultado: um ílio lascado, uma ulna partida, uma rótula deslocada e enésimos hematomas. Mas Josefina Ana não se apercebeu dos traumatismos. Não tinha vida para traumatismos. Levantou-se sem gemer, recolheu a roupa na trouxa, foi até aos tanques públicos e, apesar da anca inchada, do braço partido e da perna torta, lavou a roupa toda.
Na volta para casa, com as dores, desmaiou. A roupa lavada, que trazia à cabeça, espalhou-se pelo passeio sujo. Uns transeuntes ligaram para o 112 e lá foi Josefina Ana para o São José, onde o Doutor Miranda, grande clínico e muito perspicaz, fez o diagnóstico: um ílio lascado, uma ulna partida, uma rótula deslocada e enésimos hematomas. Mas Josefina Ana não compreendia: “Mas, ó Senhor Doutor... eu só caí das escadas!”

        Lisboa, 30 de Junho de 2009

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Não-conto...

sem título

Era uma vez um vendedor estático. Quando lhe perguntavam o que fazia na vida ele respondia:
— Sou vendedor estático.
Eles bem-intencionadamente corrigiam:
— Ambulante, quer o Sr. dizer.
Ao que ele replicava imediatamente:
— Não, não: vendedor estático.
— E o que faz um vendedor estático?
— Vende coisas estàticamente.
Ao olhar silencioso, interrogativo e incrédulo dos interlocutores após esta lauta explicação, ele expandia:
— O que eu faço é ficar na rua muito quieto enquanto as pessoas tentam comprar-me coisas.
— Ah... E conseguem?
— Não, porque eu fico estático!
Seguia-se sempre um breve silêncio porque os seus interlocutores procuravam a pergunta seguinte, que invariàvelmente era esta:
— E o que querem eles comprar de si?
— Paciência.
— Paciência?
— Sim, paciência. Tenho muita para vender.
— E os seus clientes precisam dela?
— Oh se precisam! Nenhum a tem, daí que tantos a queiram comprar.
— E porque não deixa de ficar estático e a vende?
— Se o fizesse gastaria logo toda a paciência que teria para vender!...
E aqui o vendedor estático fazia sempre uma pausa dramática.
— Houve, porém, uma vez em que consegui, de facto, vender paciência... A uma cliente que, no entanto, a tinha em abundância. Foi a única que esperou pacientemente.
— E quanto lhe cobrou?
— Nada, a paciência vende-se de graça.

Escrito em Angers, a 19 de Agosto de MMXIV

domingo, 14 de setembro de 2014

Infusões Simples 2

As primeiras Infusões Simples podem ser lidas aqui.


1
Nem queria acreditar no que se passava no bar! A gente tem uma percepção muito diferente das coisas quando está no quarto de trás. Os gritos que se ouviam, meu Deus! O cliente não ajudava nada e ainda era preciso trabalhar um bocado. Quando finalmente saí para o bar e vi os tremoços no chão é que percebi o que se passava: era o futebol. Tinha-me esquecido...

2
Em trinta e quatro horas, Ludovico Bórgia de Lençóis tinha conseguido chatear toda a gente num raio de 3 metros à sua volta. Como é que ele o conseguiu? Muito fácil: bastou-lhe demorar esse tempo todo a falecer.

3
Não era nada daquilo, mas ela teimava que era. Acabou por conseguir, mas não era nada daquilo. Quando se começa a fazer uma coisa, dizia ela, há que acabá-la, mesmo que não se acabe o que se começou. Ela lá saberia...

4
Era uma vez um gato maltês que falava piano e tocava francês. Mas o francês não gostava muito que lhe tocassem e zangava-se. O gato maltês teve de deixar de lhe tocar. Acabou por se mudar para Toulon, já que na Valetta não havia outros franceses que ele pudesse tocar.

5
Afastado do seu posto por razões técnicas, Patrício Vaz Hotte começou finalmente a trabalhar. O que ele fazia no posto era o que estava no contrato de trabalho; o que ele fez depois disso foi tudo o resto. 

6
Carlota da Maia não tinha nada a ver com a famosa família queiroziana. Porém, dizia a toda a gente que sim. As pessoas, então, esqueciam-se de que a tal família era ficcional e ofereciam-lhe as condolências. Ela aceitava e chamava-lhes estúpidos a meia voz. Este era o seu desporto favorito!

7
Jonas Sempiterno e Bonifácio Bonnemine, inseparáveis companheiros de cavalgada, encontravam-se raramente, nunca mais de duas vezes por ano, em média, e sempre por acaso. Na verdade, nem se conheciam. Porém, nós, que somos o narrador omnisciente, sabemos que todos os dias, nos últimos 20 anos, tomavam o mesmo metro para o trabalho. Nunca falharam, mesmo em carruagens separadas, era sempre a mesma composição, à mesma hora. Sempre a mesma cavalgada, sempre companheiros inseparáveis.

8
Era uma vez um QTL. Não era um QTL qualquer, pois designava uma base genética mendeliana. Então ninguém queria saber dele e preferia fazer cruzamentos para obter dados. Certo dia, o QTL fartou-se e fez as malas. Ficou em seu lugar uma mutação, um SNP, que alterou completamente o jogo. Passou-se a jogar xadrez em vez de damas.

9
Ricardo della Genga não fazia senão chorar. Todos os choros que ele chorava tinham uma origem ridícula e uma consequência previsível: chorava quando via o chão e depois alagava tudo para não ver o chão. O choro de della Genga era, no fundo, um mecanismo.

10
Todos os dias Claudiana e Sampaio iam às compras às 8h. Nunca compravam nada, evidentemente, mas sabia-lhes bem aquela vida de desconsumistas. Já os comerciantes os conheciam e perguntavam "Então não querem descomprar nada?", ao que eles respondiam "Queremos pois! O que é que tem hoje para desvender?" E voltavam todos os dias para casa descarregados de coisas que tinham descomprado. Eram indesfelizes assim.

11
Quatro mossas tinha o carro do Pascoal Tromet. O objectivo dele era chegar às doze, mas a mulher, uma robusta e headstrong Mrs Tromet, insistia para que ele levasse o carro ao bate-chapas. Ele bem tentava esconder as mossas, ou fazê-las onde não se vissem bem, mas ela acabava sempre por dar com elas. O máximo a que ele chegou foi sete mossas. Esperemos que algum dia ele consiga o seu objectivo.

12
Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz foi reconhecido como o maior cavaleiro sem cavalo da história de Alcambra de Cima. A junta de Alcambra de Baixo tinha-lhe recusado o mesmo título porque Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz era casado com uma senhora do Porto e o presidente da junta era benfiquista.

13
Cinco e meia da tarde e nem se ouvia fazer ruído. Podia-se pensar que era natural, mas não: era contestatário. Daí que toda a gente se tivésse posto a gritar em silêncio. Os protestos inaudíveis continuaram sem ser ouvidos pelo patronato, portanto tanto fazia gritar com som ou sem ele.

14
Paio d'Almendra comia paio de Almendra todos os dias ao jantar. Era para fazer publicidade a si próprio. Era pena que a audiência, o público alvo, fosse só ele próprio.

15
"Traste disfuncional" era o subtítulo de uma obra de Rui Pacheco Rui Paz, o conhecido artista plástico. Consistia numa velha chaleira de metal com um smartphone lá dentro (que não se via, então ninguém sabia que lá estava). Foi arrematada por meio milhão de libras na Christie's. O comprador, porém, acusou Rui Pacheco Rui Paz de fraude: o smartphone ainda funcionava (e, bem vistas as coisas, a chaleira também).

16
Henriquette du Belay-Farcie criava gatos. E vendia recheio para fora.

17
Agathe, Bernarda, Bernadette e Maria Carla eram as auto-proclamadas ABBA. OK, não era para ser a Maria Carla, mas a Ambrósia achou melhor ser comida de deuses olímpicos em vez de se prestar a chachadas.

18 Cinqüenta e duas vezes gritou "Ah e tal" e nada, ninguém o ouviu. No metro em hora de ponta as pessoas são realmente antissociais...

Tisanas Hatherlyanas 2

As primeiras Tisanas Hatherlyanas podem ser lidas aqui.


1
Olha ali! Não sabes para onde olhar, não é? Mas olha na mesma, que algo hás de ver que seja meritório de um "olha ali!" Nem tudo o que merece ser visto tem a boa sorte de ter quem diga "olha ali!" Nem estes "olha ali!" implicam que se olhe puramente com o olhar: o ouvido, o cheiro, o tocar também podem estar dentro de um "olha ali!" É preciso não simplificar. Olha ali agora! Mas olha ali!!!

2
Toque-toque-toque, lá ia ela. Tico-tico-tico, vinha de volta. Era um vai-e-vem de onomatopeias, aquela miúda!

3
Os famosos famélicos azafamados açambarcaram as açafatas com acessos de assédio sadio: sandes e açouguices sem sensaborias, se fazem favor! Azafamaram-se as açafatas assando salsichas e chouriços (num fogareiro churrasqueiro chamuscado de fuligem fulva) e ensanduichavam sandes com quantas carnes cabiam nas carcaças de côdea crespa que seguiriam sempre sucintas das açafatas açambarcadas para os já familiares famosos famélicos azafamados.

4
Quomodo vales? Pergunta fortemente romana, mas que de pouco serve hoje em dia porque pouca gente fala romano, quero dizer, latim.

5
Era uma vez um senhor de nome Barnabé Bastos do Bom Sucesso. Nada mais a dizer, esse senhor foi uma vez e pronto.

6
Listagem de coisas: uma torre de Londres em miniatura; um carro telecomandado velho e sem pilhas; um teclado cinzento dos anos 90; quatro pares de meias pretas; duas canecas partidas; uma cadeira e um banco; e o proverbial elefante do Mário-Henrique.

7
Três personagens inócuos:
Um. Waldeck Paulo-Pais dormia a sono solto quando acordou. Òbviamente: não podia estar a fazer outra coisa antes de acordar.
Dois. Godofredo Pasmo descascava cebolas como se disso dependesse a sua próxima refeição. E dependia mesmo...
Três. Almeida Simplesmente era um sujeito pacato. Porém, quando lhe subia a mostarda ao nariz ficava pior que uma noz moscada.

8
Copos de vidro serviam para estilhaçar, mas os de plástico para amachucar. Nem que se quisesse, nunca ninguém conseguiu estilhaçar um copo de plástico, nem amachucar um copo de vidro.

9
Não havia quem dissesse que ela não era uma senhora de bem. Não, não havia. O que havia era quem dissesse que ela era uma senhora de bem, ponto. A grande chatice é que ela era uma pessoa insuportável e ninguém parecia notar!

10
Nem João Tão sabia o que havia naquele livro, nem Carlota Tanta lhe podia desvendar que naquele livro não havia nada.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Valsa a dois


"Waltz in the Sun," by Jane Jones

Era uma vez um Pas-de-deux que queria ser uma Valsa. Mas, coitado, não conseguia, faltava-lhe um tempo, só tinha dois. E a Valsa, com os seus três tempos, estava acima das suas possibilidades.

Um dia, o Pas-de-deux saiu à rua. Tinha andado a poupar: ia comprar um tempo. Finalmente ia ter três tempos como uma Valsa! Apenas o curto percurso até à loja, para o qual os seus dois tempos bastavam, o separavam de ser uma Valsa. Mas nesse curto percurso encontrou uma bela Bossa Nova, daquelas que fazem os corações palpitar mais forte. Que linda que era! E como sincopava, rebolando.

O Pas-de-deux esqueceu-se do tempo que lhe faltava, esqueceu-se dos seus dois tempos. Foi atrás dela. Era difícil acompanhar o dançar sincopado da Bossa Nova, com aquele quarto tempo maroto que desliza mais além e faz deslizar outras vontades... Tentou acompanhá-la, tentou mesmo. Mas não conseguia e ela afastava-se cada vez mais.

Esteva quase a desistir. Ela parecia indiferente, concentrada nas suas síncopas. Mas então — e naquele instante o Pas-de-deux sentiu-se flutuar no ar! — a bela Bossa Nova virou a cabeça, olhou para ele, sorriu-lhe... e sincopou até ele. O Pas-de-deux estava parado, bloqueado. Sentia-se como num sonho, vendo-a chegar.

E chegando a ele, a Bossa Nova agarrou-o pela cintura e... começou a valsar. Um, dois, três; um, dois, três. Devagar, primeiro, depois mais rápido. Um, dois, três; um, dois, três. E sem perceber como, o Pas-de-deux conseguiu, com o sincopado da Bossa Nova, o seu terceiro tempo. Nunca teria sido preciso ir comprá-lo, sozinho nunca seria capaz de se tornar uma Valsa. Só uma parceira lhe podia dar o tempo que lhe faltava.

E os dois, agora fundidos numa eterna Valsa, dançaram até ao pôr-do-sol.

FIM

Escrito em York, a 17 de Junho de MMX.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Story in progress...

VI

E lá foi ele para a cantina. Achava aquilo tão estranho mas ao menos alguma coisa esperava ele encontrar... Não esperava encontrar ninguém, a cantina estava fechada e não havia quase pessoas no instituto.
Passou a porta e dali viu o bar vazio e com as grades abaixadas.
— Ói! Está cá alguém?
Ninguém respondeu. Ele deu mais um passo, virou um canto da parede e foi então...
— SURPRESA!!! — gritou em coro uma multidão de gente. — PARABÉNS MÁRIO!!!!!!!!
Era o dia de anos dele! Ele sabia bem, tinha-se lembrado ontem à noite. Mas hoje de manhã, ensonado e com tanto para fazer, o facto simplesmente escapou-se-lhe da memória. Era por isso que a sua data de nascimento lhe fazia sentido!...
— Então era isso! Vocês, vocês...
E lá estava a Yvonne, toda sorridente. Tudo tinha sido ideia dela, o código e tudo, que um colega tinha ido escrever no computador de Mário. Abraçou-o e deu-lhe um beijo — na face. Mas ficou agarrada a ele. Ele, os olhos a brilhar, sorria enormemente e começou a cumprimentar toda a gente, um por um, que lhe queria dar os parabéns.
— Mas afinal, what did the code say?
Yvonne deu uma gargalhadinha e respondeu:
— It said: "PARABENS MARIO HAPPY BIRTHDAY"! Each number replaces a single letter, like the riddle said.
— But there was a mobile number, wasn't there?
O grande sorriso dela ficou ainda maior. Ele arriscou:
— Is it... is it yours?
— Sim! — respondeu ela.
E beijou-o outra vez, mas desta vez não na face...

THE END


N. do A. Devo dizer (mais como nota para mim mesmo do que para os leitores) que não gosto nada desta Story in progress... Nunca a devia ter escrito. Foi uma experiência, tudo bem, para ver se eu conseguia escrever capítulo a capítulo um texto coerente. Falhou. Não consigo. Para escrever sem ter já em mente o fim tem de ser texto corrido, escrito de rajada, com curiosidade para saber como acaba, nada de capítulos separados por semanas e meses. Logo no segundo capítulo tive que imaginar todo o resto da estória senão não conseguia avançar! E depois demorei mais de seis meses para escrever o que já tinha na cabeça. Absurdo. E o texto e o enredo estão um nojo. Uma experiência a não repetir.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Story in progress...

V

O melhor era tentar decifrar o código.
— Ora vamos lá ver...
Tentou racionalizar. Havia números e letras; tinha mais números que letras; aquilo parecia não fazer sentido gramaticalmente, portanto não seria uma frase. Tentou trocar os números por letras e as letras por números. As letras "FINDAWAY" parecia mesmo uma data, com o ano primeiro e o A = 0. Parecia mesmo 1984/07/02, a sua data de nascimento. Tinha a sensação, não se lembrava porquê, que aquilo estava certo. Depois, "SOLVETHEMYSTERY" podia ser um número de telefone, tipo, 0035195243129. Já os números... bom, podiam ser so para baralhar, noise para esconder a data e o telefone (mas de quem seria este número de telefone e porque estava associado à minha data de nascimento?). Tentou o alfabeto corrido, fazia sentido.
Escreveu, então, a seguir a "Type the answer:"

ABCDEFGH19840702IJKLM00351952431290NOPQRSTUVWXYZ
E apareceu a seguinte mensagem:

Wrong answer. Try again
— Eh pá, deixa-te de coisas e escreve qualquer coisa — disse, falando para si mesmo.
E escreveu mesmo qualquer coisa, umas teclas ao calhas. Apareceu isto:

Wrong answer.
OK, here's a clue: To each number there is a letter To each letter there is no matter But there is a snag The none is the gag

— O quê??? Each number there's a letter, but the letters don't matter? Mas que raio de coisa é esta?
Estava confuso e demasiado curioso para conseguir pensar. E o que queria dizer snag, anyway? Era melhor mas era escrever mais qualquer coisa a ver se aparecia mais uma pista.
Digitou oura vez ao calhas e apareceu a seguinte mensagem, em bom português:

Es um triste, pah. Nem uma codigozeco consegues decifrar... Vai ter ah cantina jah!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Um conto...

sem título

Apetecia-lhe um chá. Era tarde, era quente, era triste, o dia, mas a ela, não sabia explicar porquê, apetecia-lhe um chá. Pôs a chaleira ao lume, no velho fogão a gás, com a chama pouco azul, queimando mal. Ela tinha uma caixa de chás, uma linda caixa de madeira polida, fechada com trinco, que tinha por dentro pequenos compartimentos onde cabia o chá, em sacos ou em folha. Escolheu oolong. Bebia sempre oolong, mas mantinha outros chás não sabia bem porquê. Um saquinho de oolong basta. Tirou o bule do armário, depositou o saquinho.

A água demorava a ferver... Chamou o saci, que veio num turbilhão de vento e apagou o lume! Ela reacendeu-o e o saci riu, e rodou mais e o lume apagou-se outra vez. She frowned, mas não disse nada. Acendeu outra vez o lume, a água estava quase a ferver. O saci interessou-se por outra coisa: a bela caixa de chás. Abriu o trinco sem barulho, espreitou para dentro e os seus olhinhos travessos brilharam. Ela tirou duas chávenas e dois pires do armário, colocou duas colheres na mesa e o açucareiro vienês.

A água ferveu enfim. O saci parecia desinteressado. Ela, com um pano, pegou na chaleira e despejou a água para o bule — que já tinha o saco de chá. Repôs a chaleira ao lume, cheirou o cheiro do oolong, que já subia no ar. Nisto, quase sem ela se aperceber, o saci, rindo, abre a caixa de chás e vira-a ao contrário por cima do bule fumengante; despeja tantos chás quanto pode para dentro do bule! Ela berra, tenta agarrá-lo, a bela caixa cai no chão. Rindo sempre, o saci escapa-se, rodopia e desaparece noutro turbilhão de vento, fazendo folhas de chá voarem no ar e derrubando o bule de chá, que se parte.

E todo o chão ficou coberto com um morno mar de chá... Ela sentou-se na bancada com os pés a balouçar olhando o mar com olhinhos brilhantes. Apetecia-lhe mesmo um chá!

Escrito em Abrantes, a 26 de Dezembro de MMIX

sábado, 17 de outubro de 2009

Story in progress...

IV

Esta agora! Mas isto não deve querer dizer nada. Ou será que sim?
Não se coibiu de ir à porta ver se estava lá alguém e à janela a ver se alguém o estava a observar. Não esperava ver ninguém, mas alguém ali tinha ido e plantado aquele enigma, bolas! E teve de ser alguma coisa premeditava, porque ninguém inventa um enigma e escreve um código em 10 minutos...
Lembrou-se de ir mostrar à Yvonne. Copiou a estranha mensagem para um e-mail e enviou-o. Depois subiu.
— Yvonne, regard ça!
Raramente falava francês, até porque tinha consciência de que falava mal, mas aquilo saiu-lhe. E a resposta foi silêncio: a Yvonne não estava na sala. Lá estava a torre de computador escavacada e o laptop, mas desligado e fechado. Também ali estava a mochila dela...
— Onde é que ela se meteu?
Talvez na casa de banho, mas se tivesse saído por pouco tempo não teria desligado o laptop que demora tanto a reiniciar. E não foi para casa porque teria levado a mochila — e teria ido lá abaixo despedir-se dele...
Nisto ouviu um barulho na escada. Afinal sempre lá estava mais alguém, fosse Yvonne ou não. Correu para a escada, espreitou por cima do corrimão para o vão. Não viu ninguém.
Teve a fantasia de ir espreitar a casa de banho das senhoras, mas reprimiu o pensamento.
— Devem estar a gozar comigo...
Assomou ainda à sala de Yvonne mas decidiu voltar para baixo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Story in progress...

III

Sorriu involuntariamente. Apetecia-lhe rir... Depois de tantas horas de monotonia, qualquer coisa que interrompa é um pretexto para ser feliz.
Voltou à sua sala e sentou-se no seu lugar olhando para as folhas dispersas. Cruzou as mãos por detrás da nuca enquanto apoiava os cotovelos na mesa.
— Uffff... — suspirou. — Vamos lá!
Levantou a cabeça decidido a atacar o ficheiro em branco. Oh, em branco? Mas agora não estava em branco! Ai, ele bem se lembrava que tinha deixado aquilo tudo em branco, que tinha passado a tarde toda sem escrever uma linha de código! Mas o que era aquilo? Alguém se tinha esgueirado ali e teclado todo um programa em, quê, 10 minutos? Menos!
— Ai, queres ver...
Pensou, esperançada mas no fundo sabia que ingenuamente, que podia ser o código para o programa que ele precisava e estivera a tentar escrever. Olhou para o que estava escrito e tentou compreender. Leva sempre algum tempo a perceber o código de outra pessoa. Não, não era, claro, o que ele queria. Claro. Claro e evidentemente.
Parecia estar completo, debuged. Podia passar horas a tentar compreendê-lo, mas, bah, o melhor é corrê-lo e ver o que dá.
Correu-o.
Ao fim de segundos a mensagem que se apresentava no command line era esta:

Solve the Riddle or you shall be sorry!71912551FINDAWAY41996SOLVETHEMYSTERY81777029928417Type the answer:

domingo, 12 de julho de 2009

Story in progress...

II

Lá em cima, numa sala em tudo semelhante à de baixo, foi encontrar o seguinte espectáculo: uma figura franzina, em pé, debruçava-se sobre a torre de um computador, agarrava nela com as duas mãos e puxando a si todas as forças que parecia não possuir, soltou um guincho e levantou a dita torre o suficiente para ela depois cair no chão com uma pancada seca. Era a quarta que ele ouvia e a última que a torre pareceu aguentar: várias placas de metal e plástico lhe saltaram para fora, espalhando-se no chão.
— Yvonne, what are you doing?!
A pergunta era retórica. Ele sabia muito bem o que ela fazia, bem lhe apetecia a ele fazer isso tantas vezes!
— Je peux pas plus! Je ne peux pas plus!... — disse ela, ofegante e ainda debruçada, com os braços estendidos e as mãos apoiadas na torre vitimizada. Os cabelos compridos não lhe deixavam ver a cara.
Ele agarrou-a levemente pelos ombros e fê-la sentar numa cadeira. Ela levou as mãos à cara e suspirou. Não se percebia se chorava ou não, nem ela o saberia dizer. Ele passou um braço por trás dela mas não apertou muito. Ficou assim, num semi-abraço. Eram inúteis, palavras; ele sabia bem o que ela tinha: após horas e horas de revisão, o programa dela continuava sem funcionar... E lá estava o ficheiro de código no seu laptop, e o command line aberto e cuja última mensagem era de erro.
— Vá, come on, take a break. You can do it, but you need a break — disse-lhe ele.
Ela tirou as mãos da cara:
— Thanks... — suspirou. — I'll be fine.
Ele disse que estava lá em baixo e provavelmente havia de ficar pela noite fora. Ela agradeceu outra vez e ele saiu para as escadas. E foi a pensar como ela tinha sido judiciosa: em vez de atirar com o seu laptop (onde tinha o programa a correr), canalizou a fúria para um dos desktops do instituto! O bode expiatório, artifício tantas vezes usado para lançar a frustração...

sábado, 27 de junho de 2009

Story in progress...

I

O ficheiro de código continuava em branco e parecia que havia de continuar em branco durante muito tempo.
— Caraças...
Levou pela enésima vez a cabeça à mão esquerda, despenteando o cabelo despenteado, enquanto os seus olhos, pelo hábito, se direccionavam para as folhas e folhas de papel anotadas dispersas pela mesa. Na mão direita rodava um lápis, acrescentando de quando em quando, mecanicamente, mais qualquer coisa ao algoritmo, igualmente disperso pelas folhas dispersas.
Estava sozinho na sala. Já ali estava à quatro horas e meia... Tinha sido o primeiro a chegar, foi vendo os colegas a entrar um a um, e depois a sair e a voltar e a sair por fim despedindo-se. Levou finalmente as mãos ao teclado, decidido a escrever qualquer coisa, mas qualquer coisa que fosse, que dissesse a si próprio que aquelas quatro horas não foram perdidas. Escreveu uma variável "a=" e outra "b=". Hesitou milésimos de segundo, escreveu um forte palavrão e comentou-o.
— Argh! — e bateu com as duas mãos e a testa na mesa com toda a raiva. — Ai! F...
Ao mesmo tempo ouve o som de uma pancada forte por cima dele e folículos de estuque nevaram-lhe em cima. Nos primeiros momentos nem deu por isso, mas outra pancada soou e mais estuque se desprendeu do tecto.
"Mas que raio", pensou. Deserto por arranjar uma desculpa que o afastasse dali, levantou-se mais depressa do que era necessário e encaminhava-se já para a porta quando ouviu um grito agudo, também vindo de cima, outra pancada e mais estuque caiu.
— Mas que raio?...
E largou a toda a pressa para as escadas. Mas o que é que poderá estar a acontecer?

Lisboa, 27 de Junho de MMIX

sábado, 2 de agosto de 2008

Infusões Simples

Na sequência das Tisanas Hatherlyanas, achei que estes pequenos textos que se seguem não se inseriam bem na designação "tisana". Então, chamei-lhes infusões. E são simples, sem açúcar.


1
Estava ela linda, deitada no banco do jardim, em frente ao Banco. Eu mirava-a, não conseguia desgrudar os olhos da figura dela. Não sei se ela me sentia. Mas estava linda. Avancei para ela e comi-a.

2
Didacus de Cirenus comia, comia, comia. E bebia. Quando explodiu ninguém estranhou muito. Ninguém? Bom, não era bem assim: Didacus de Cirenus ficou estupefacto! Ele não tinha consciência do que era.

3
His Highness The Cat rushed down the stairs after swindling His Lordship The Dog and Her Ladyship The Parrot of all their attention. Cats are swift, humans are unaware, and all the others are just all the others; but a cat that is a HH has all what all they have. When the humans became aware, the confusion had already been installed and was all too late...

4
Era uma vez um pato que andava sempre de costas. Um dia caiu, tropeçou e caiu, simplesmente... e nunca mais se levantou. Caiu para debaixo do machado do lenhador.

5
Eduardo de Castelo Negro tinha morto a namorada à facada, mas não foi esse o crime que o levou à alçada das autoridades: foi o seu cadáver que ficou à guarda da GNR quando foi encontrado. Ao longo da investigação foram-se descobrindo os podres de Eduardo. Nada se podia fazer sobre ele, e o pior é que alargava o leque de suspeitos. Um dia, semanas após o início das investigações, um brilhante inspector chegou e resolveu logo tudo: arquivou o caso por falta de um suspeito...

6
Era uma vez uma criança que se transformou em adulto sem perceber. Arranjou emprego, mas não sabia fazer nada. Estudou, mas não sabia o quê. Casou, criou família, mas não sabia porquê. Decidiu acabar com tudo e não conseguia. Desempregou-se, separou-se, deixou de ler, mas não conseguiu acabar com tudo. Tentou mudar-se. Tentou mudá-los. Tentou mudar tudo, todos, nadas. Não conseguiu. Mudou muito mas não tudo, nem todos, nem nadas. Havia sempre qualquer coisa — nunca conseguiu acabar com tudo. Nem quando morreu.

7
Era uma vez um rei que queria ser um homem do povo. Então, um dia, disfarçou-se de camponês e foi para o campo disposto a cavar a terra. Mas não sabia fazer aquilo e depressa se fartou. Quis voltar a ser rei mas não conseguiu, não o deixaram. Ele insistiu e foi açoitado, acusado, condenado a pagar o que não tinha, preso, mutilado, quase executado. Anos depois, quando saiu depois de cumprir a pena, conformado com a sua sorte e em como era sempre mais fácil descer na vida do que subir nela, encontrou à sua espera à porta da prisão o seu antigo secretário e o comissário da guarda, sorridentes e com o sentido do dever cumprido no olhar. “Sua Majestade está contente? Tal como queria, pensámos em lhe proporcionar uma experiência o mais próximo possível das que acontecem a um homem do povo...”

8
Alexandre da Silva Bruno, um abastado comerciante da capital, viu a sua vida escapar-se-lhe por entre os dedos no dia em que a agarrou com as mãos: a caixa estava vazia, as algibeiras estavam vazias, a cabeça estava vazia. Quis enchê-las mas as mãos nunca conseguem agarrar a vida, a não ser que seja material. Então perdeu-a.

9
Era uma vez um Alexandre de nome que tinha a mania que era Magno. Fazia com que toda a gente o tratasse por Magno, assinava Magno, chegou mesmo, ao chegar à maioridade, a alterar o nome no Registo Civil para Magno. Quando lhe morreu o tio-padrinho, a herança em testamento foi parar ao Alexandre...

10
O presunto era branco, da quantidade de toucinho que tinha. E era toucinho alimentado a farinhas industriais. Fazia Deus sabe que esforço por levar aquilo à boca, mastigar e engolir, fingindo que comia, tentando evitar que ele me enchesse o copo continuamente. Três horas depois, sentados num banco corrido a cair de podre, o papel em cima de uma pipa praliné de teias de aranha, a minha Parker de prata numa mão suada e suja de uma semana, lá consegui que o velho assinasse o contrato de venda...

11
A mesa cheia foi regada com champagne genuíno. Literalmente regada: ninguém reparou que a garrafa tinha sido agitada e a rolha estalou, chovendo o líquido nectarino para cima das iguarias. Ficou o jantar de Ano Novo estragado. Fomos jantar fora. E saiu mais barato!

12
O piano do Alberto estava todo, todo estragado! E o Alberto sabia. Era uma catástrofe para os outros quando insistia em tocar...

sábado, 26 de julho de 2008

Tisanas Hatherlyanas


306
Algo está sempre a acontecer. Por isso escrevo. Escrevo porque algo aconteceu ou acontece. Escrever é isso, mas escrever é sobretudo produzir o acontecer.

Ana Hatherly, in "463 Tisanas", Ed. Quimera

Introdução
Não sou poeta. Nunca fui e não espero ser. Mas escrevo pequenos parágrafos, pequenos momentos de imaginação, de pensamento, de prazer; pequenas ideias para desenvolver, visões para explorar... E a colecção já é vasta. I'll post them here, I thought. E decidi homenagear Ana Hatherly, poetisa portuguesa que publica estes seus pequenos momentos de escrita com o nome de "tisanas". E são deliciosos de ler! Se os meus tiverem, nem que ao de leve, a qualidade das tisanas de Ana Hatherly, já posso dizer que sou escritor amador.

8 Tisanas Hatherlyanas


1
Era uma vez um carrinho de compras, muito sujo e usado, mas muito matreiro e ousado, que foi um dia às compras comprar um carro a sério, mas a sério mesmo, mesmo que implicasse o seu abandono. Ele era suficientemente altruísta.

2
Quando estava bêbado, não via nada, porém lembrava-me de tudo. Estando sóbrio não me lembro de nada, porém vejo tudo...

3
Singing along with Carol, the carols everyone should hate, after we ate a turkey stuffed with Christmas and raisins. Raising a child is not easy, but then again, raising an adult should be harder—not that I ever tried, mind you!

4
Ai, como dói! As feridas são assim mesmo, feitas para doer, ou então não eram feridas feitas ou não eram mesmo feitas, porque para serem feridas feitas têm de ser feitas para doer como feridas. Oh my, como dói! E o pior é que é na alma, provando que ela existe.

5
Corria à chuva para não ficar molhado. Isto é, corria à chuva para encontrar um abrigo onde não fosse molhado pela chuva sob a qual corria para encontrar um abrigo onde não fosse molhado pela chuva. Mas ficava molhado porque fugia da chuva para não ficar molhado, por isso corria.

6
Excelência. É tudo o que é preciso. Nada mais é pouco. Tudo mais é excessivo.

7
Não queria, mas tinha que ser. Tinha de comprar aquilo custe o que custasse. E depois... logo se veria! Como pagar a água e a luz e a comida... Aquilo tinha de comprar. Era um idiota, nessa altura, e sabia tudo... Mas depois, a idade, as circunstâncias, as políticas, e tudo e tudo, mudaram... Mudaram o quê? Não me lembro! Deu-me uma branca! Estava a falar do quê? Mas que estupidez!... Então e agora? Sim, vemo-nos amanhã, é melhor. Pode ser que me lembre do que queria dizer. Adeus.

8
The Times Higher Education Supplement. 
European Journal of Medical Epidemiology. 
Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 
Cell. 
Que estranhos e diversos nomes têm as revistas científicas e académicas. E os jornais que informam pouco e apenas aquilo que alguns querem que seja informação e que seja informação para ser informada. Quanto não vale... sei lá o quê!, isto é só escrever...

Um outro não-conto...

Não é mesmo um conto, nem chega a ser um diálogo...
É um textozeco que me saiu e que eu acho giro.

sem título

— Chá com cebola — e pediu isto com toda a naturalidade. — Mas veja lá se o limão é fresco!

— Queira desculpar — disse o atarantado waiter —, percebi bem? Quer um chá de cebola?

— Percebeu mal — respondeu revirando os olhos —: quero um chá COM cebola.

— Ah, quer um chá... com cebola — tinha o ar de quem percebeu tudo e fez o gesto de apontar no bloco; mas... — Um chá de limão?

— Não, homem! — e voltando-se para mim: — Como é que esta gente é contratada para isto!
Voltou-se para o waiter:

— Um chá verde, chá chá, uma infusão de folhas de Camellia sinensis! Mas com cebola, percebeu agora?

— Â... Um chá verde com cebola...

O homemzinho, coitado, tinha agora o ar mais assustado e atrapalhado que eu já alguma vez vira nestas situações. Fingia anotar no caderno para não ter de a olhar nos olhos, mas a verdade é que não se mexia dali.

— Ouça — recomeçou ela condescendentemente —, faz o chá e traz à parte uma rodela de cebola fresca para eu pôr na chávena antes de deitar o chá.

E o homenzinho finalmente sorriu e anotou mesmo, num gesto que indicava claramente que antes só tinha fingido anotar. E depois mexeu-se.

Quanto voltou com o chá ela ficou danada:

— Então mas e o limão? Eu não lhe disse limão fresco?

O homenzinho estacou, ainda dobrado a colocar as coisas na mesa, a mandíbula balouçou-lhe sem que som algum saísse, os olhos arregalaram-se-lhe em perplexidade.

— Di-diss... Disse-me chá verde, madame!

— Chá verde com cebola, sei muito bem o que pedi! Então e o limão? Então não sabe que o chá verde vem sempre com uma rodela de limão?

E voltando-se outra vez para mim:

— Não sei mesmo como contratam estas pessoas. Really!

Escrito em Coimbra, a 26 de Julho de MMVII

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Dois pequenos textos...

Não são contos exactamente...


Escrevi a palavra caneta e continuei a escrever. Não sei porquê - nunca me tinha acontecido - não conseguia parar. Aquela palavra não me deixava. Ou então era a própria caneta que me segurava a mão e me obrigava a continuar a escrever, a escrever, a escrever e a escrever ainda. Não tinha nada para escrever, não tinha nada para dizer, mas o papel branco sujava-se com a tinta da maldita caneta que não deslargava. Fiz um esforço, olhei para o lado, para longe, esqueci-me que estava a escrever. Mas depois olhei sem querer, de relance, e vi que ainda escrevia. Como fazer para parar de escrever? Então lembrei-me: eu escrevi uma palavra e não consegui parar de escrever; então o melhor seria escrever outra vez a palavra para deixar de continuar a escrever! E escrevi-a: caneta.

Escrito em Lisboa, a 9 de Julho de MMVIII


Com um pedaço de plasticina molda-se um mundo, ou dois, ou três; ou nada ou tudo; ou se vê o que está por dentro, ou se mostra o que não existe, ou nos perdemos na cor mesclada que rola na mão que molda. E os sonhos aparecem, mesmo sem o serem, mesmo que queiram que sejam só sonhos, quando são muito mais que isso... Até que acaba a plasticina, se enrola numa bola e recomeça um novo mundo.

Escrito em Lisboa, a 14 de Julho de MMVIII

terça-feira, 15 de julho de 2008

Um conto...

sem título

Quando pus o CD a tocar nem pensei no equilíbrio precário em que se encontrava a pequena aparelhagem, assente em duas pilhas de revistas velhas, quais colunas dóricas, cada uma com um bom metro de altura (supostamente as duas teriam a mesma altura). O CD era de Bruckner, a sinfonia número cinco.

Não pensei mesmo que a aparelhagem se poderia ressentir daquela música, mas ressentia-se... À medida que se esforçava para me dar a leitura fria do CD, aquecia a pouco e pouco, o mostrador ficando cada vez mais brilhante enquanto mostrava (nunca percebi bem porquê) o tempo a passar, qual relógio de tempo limitado.

No segundo andamento da sinfonia, a aparelhagem dir-se-ia que suava. Eu suava de certeza, sentado incomodamente no sofá macio, incomodado pela força da música. Pensava em mim e em todas as sensações que aquela música me fazia sentir. Esquecia-me de pensar nos livros e nos móveis e em tudo o que, ali na sala, também era obrigado a sentir aquela música por minha causa. Na verdade não pensava — só sentia.

E quando a música se aproximava de um ponto alto e eu me agarrava ao sofá e contraía os músculos e tentava segurar o coração para que não me saltasse do peito, não percebi que a aparelhagem também se queria agarrar a qualquer coisa e aguentar o impacto da onda de sensações.

No final do grande clímax, mesmo nos seus últimos segundos, a aparelhagem não aguentou mais, resvalou até ao chão, o pedestal de revistas desmanchada, escorrendo como uma cascata de papel, ajudada por uma lufada de ar vinda da janela e que aparece sempre que a Natureza é obrigada a mostrar o seu mais íntimo.

A aparelhagem ficou inerte, caída, a luz do mostrador apagado, a porta das cassetes aberta como a boca aberta de um cadáver, enquanto revistas continuavam a chover-lhe em cima como flores atiradas para cima de um caixão... Ela não aguentara, não aguentava mais, nunca aguentaria mais fosse o que fosse. Bruckner tem destas coisas...

Escrito em Abrantes, a 8 de Setembro de MMVI

domingo, 13 de julho de 2008

Um conto curtíssimo...

sem título

Aconteceu-me uma vez, percebi que estava a ir para o lado errado e olhei em redor para conseguir ver uma placa de sinalização. Nenhuma à vista.

Fui mais adiante.

Lá estavam elas, em colmeia, as placas de sinalização. "Ora bem, vamos lá ver", pensei eu. Ler uma placa não é assim tão fácil como se podia pensar! A de cima dizia "PARA ALI" e a de baixo "PARA AQUI"... Enfim, não me cativaram e andei mais um bocado.

Sentia que me estava a enterrar cada vez mais, mas afinal havia mais pessoas por ali... Pensei em perguntar direcções mas não consegui.

Fui mais adiante outra vez à espera de tropeçar noutra amálgama de placas de sinalização. Lá estavam mais algumas: "PROIBIDO FUMAR", "PROIBIDO COMER", "PROIBIDO BEBER"...

Voltei para trás, corri... Se tivesse andado mais haveria placas com certeza a dizer "PROIBIDO RESPIRAR", "PROIBIDO SONHAR", "PROIBIDO VIVER"...

Escrito em Lisboa, a 7 de Julho de MMVIII

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Um pequeno conto idiota...

sem título

O gato das botas pretas não gostava do gato das botas azuis. Na verdade, do que o gato das botas pretas não gostava era das botas azuis do gato das botas azuis. Mas como o gato das botas azuis as calçava, o gato das botas pretas não gostava do gato das botas azuis.

Certo dia, uma gata com botas vermelhas foi vista pelo gato das botas azuis. O gato das botas azuis não gostava de botas vermelhas, mas tinha gostado da gata das botas vermelhas. Então contou ao gato das botas pretas e este aconselhou o gato das botas azuis a pedir à gata das botas vermelhas para trocar de botas. Mas como o gato das botas pretas não gostava do gato das botas azuis por causa das botas azuis do gato das botas azuis, o conselho era enganador: o que o gato das botas pretas queria era que a gata das botas vermelhas rejeitasse o gato das botas azuis, porque ele, o gato das botas pretas, gostava de botas vermelhas e, pela descrição do gato das botas azuis, também havia de gostar da gata das botas vermelhas.

A gata das botas vermelhas, quando viu o gato das botas azuis, apaixonou-se imediatamente, tanto pelo gato, como pelas botas do gato. Mas quando ele lhe pediu para trocar de botas, ela ficou desgostosa e foi contar a uma amiga, a gata das botas amarelas que não gostava de botas amarelas. Esta concordou em acompanhá-la quando ela fosse dizer que não, que não trocava de botas, ao gato das botas azuis.

Quando chegaram junto do gato das botas azuis, o gato das botas pretas, que estava escondido, correu para a gata das botas amarelas declarando-se apaixonado. Ela, a gata das botas amarelas, sentiu-se incomodada porque, embora o gato das botas pretas até lhe parecesse atraente, ela detestava botas pretas como as do gato das botas pretas. Ele, o gato das botas pretas, então afirmou que estava disposto a deixar as botas pela gata das botas amarelas. Ao ouvir isto, a gata das botas vermelhas não se conteve: alterou a sua decisão e disse ao gato das botas azuis que trocaria de botas como ele pedira. E botas foram trocadas: a gata das botas vermelhas ficou com as botas amarelas da gata das botas amarelas que não gostava de botas amarelas; a gata das botas amarelas ficou com as botas vermelhas da gata das botas vermelhas; o gato das botas pretas descalçou as botas pretas e ofereceu-as ao gato das botas azuis para poder deixar de não gostar dele por não gostar das botas azuis do gato das botas azuis; finalmente, o gato das botas azuis calçou as botas pretas do gato das botas pretas e deixou as botas azuis para algum gato que gostasse de botas azuis.

Então, a gata das botas amarelas, que antes fora das botas vermelhas, viveu feliz com o gato das botas pretas, que antes fora das botas azuis; e a gata das botas vermelhas, que antes fora das botas amarelas, viveu feliz com o gato descalço, que antes fora das botas pretas. E todos viveram felizes para sempre.

Escrito em Coimbra, a 10 de Setembro de MMVI

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Um conto...

De vez em quando gosto de escrever. Escrever um texto, um conto, escrever apenas. Deixo agora aqui um desses meus pequenos textos, um "sem título", que é o título que a maior parte deles tem.

sem título

A luz do candeeiro estava demasiado forte. As canetas dançavam no tampo da mesa. Eu disse-lhes para pararem, mas elas fingiam que não me ouviam. E o candeeiro recusava-se a ser desligado. Como é que eu podia escrever no meio daquela algazarra toda? Ainda pedi à velha borracha azul para tentar acalmar as canetas, mas esqueci-me que nos dias de hoje as canetas já só têm respeito pelos correctores…

“PAREM!”, gritei eu, apenas num gesto de frustração, sabendo perfeitamente que não serviria de nada. E levantei-me e fui para a cozinha. Lá também não se podia estar: as panelas e as loiças coscuvilhavam, os talheres faziam amor dentro da gaveta, os armários e o frigorífico queixavam-se uns aos outros do peso das peças que tinham de aguentar, e mal eu entrei começaram a queixar-se a mim! Mas o mais sonoro de todos os objectos era, sem dúvida, a televisão.

“Acalmem-se, eu vou resolver isso… e tu não te podias calar um bocadinho?”, falei, tentando acalmar os queixumes dos armários e os ruídos da televisão. Precisava acalmar-me. Interrompi a conversa de um copo (que barafustou e eu pedi desculpa) para beber um pouco de água, mas, para variar, o lava-loiças era o único utensílio que já estava a dormir: nem uma gota de água saiu da torneira… Devolvi às suas conversas o copo, zangadíssimo por ter sido interrompido para nada (como eu o percebia!) e saí.

Fui para o quarto e deitei-me. Mas a cama atirou-me borda fora, que ainda não eram horas de dormir e ela queria aproveitar todos os momentos sem quilos a mais! Fiquei com a sensação que na manhã seguinte ia dormir uns quartos de hora a menos… Era uma cama muito temperamental. Os livros saltavam na estante, como acontecia sempre que eu passava. “Lê-me! Lê-me!”, “Não! A mim! A mim!”, “Agora eu! Agora eu!” Livros, sempre bajuladores…

Não sei o que estava a dar aos objectos, naquela noite, mas se o estúdio, a cozinha e o quarto estavam assim, melhor era nem tentar a casa de banho! Decidi enfrentar outra vez as canetas. Ainda dançavam. Desta vez experimentei a diplomacia. “Ouçam, se vocês pararem de dançar por hoje, eu prometo que só as uso para assinar documentos importantes.” Eu achava que era uma boa proposta: as canetas pelam-se por burocracia! “Isso inclui as esferográficas?”, perguntou ainda uma. “Sim, e os marcadores fluorescentes prometo que já só os uso para marcar livros técnicos!” (Os marcadores detestam que os usem senão para marcar calhamaços. Uma vez usei um para marcar poesia e nunca mais consegui marcar mais nada com ele. São instrumentos muito técnicos.) Um lápis novo, afiado, ainda tentou levar dali qualquer coisa, mas com ele não me preocupei: os outros lápis são todos velhos pequeninos que querem é sossego e desenho à vista. Consegui! Aceitaram recolher-se e o sossego voltou. O candeeiro até baixou a intensidade luminosa de sua livre vontade.

Disse “então, vamos trabalhar?” ao meu laptop, que me olhou ensonado, mas eu sabia que ele só precisava iniciar para ficar com a genica toda. Abri o processador de texto e quis começar a escrever. Oh diabo, depois de tanta coisa não me vinham ideias nenhumas! Ainda fiz um esforço pensativo. Nada. Então desisti e escrevi: A luz do candeeiro estava demasiado forte. As canetas dançavam no tampo da mesa

Escrito em Coimbra, a 13 de Agosto de MMVII