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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Os Colégios Jesuítas no Império Português (lista incompleta), 1542-1759

Encontrei esta lista algures nos meus cadernos manuscritos. Penso que a tirei de uma exposição sobre os Jesuítas e o Império Português (talvez no Museu da Ciência em Coimbra? não me lembro). A lista está claramente incompleta, não tenho as fontes de onde isto se comprova, e agora não tenho paciência para ir procurar; portanto, aqui fica só para encher este blog com mais um post irrelevante (e pode ser que um dia me dedique a escrever sobre isto a sério). Ver também este outro post com colégios.

1542 Goa
1546 Molucas
1547 Congo
1548 Baçaim
1549 Kagoshima
1551 Taná
1560 Cochim
1563 Macau
1570 Tuticorim
1574 Salsete 
1576 Bandorá
1576 Malaca
1578 Cranganor (c.)
1579 Coulão (c.)
1581 Damão
1583 Cantão
1583 Zhaoqing
1584 Vaipicota
1586 Shaoxing
1589 Shaozhou
1595 Nanchang
1599 Nanjing
1599 Siu-Chau
15?? Meliapor
1601 Diu
1601 Pequim
1605 Colombo (c.)
1609 Pegu
1611 Chaúl
1612 Bengala
1615 Cochinchina
1616 Cambodja
1617 Negapatão
1617 Macaçar
1624 Tibete
1626 Tonquim
1626 Sião
1628 Jafanapatão
1630 Agra
1633 Mbalacata
1640 Madurai (c.)
1642 Laos

- Legenda:
Hindustão e Ceilão
China e Japão
Indochina e Ilhas
África
Brasil

domingo, 15 de janeiro de 2023

As Aulas Públicas, séculos XVI a XIX

Até à extinção das ordens religiosas, em 1834, e à criação das escolas médicas e politécnicas (de Lisboa e do Porto, 2-3 anos depois), não foi só nos mosteiros, nas universidades (de Coimbra e de Évora) ou nos colégios que houve oportunidades para estudar e criar conhecimento académico em Portugal. Por incrível que pareça, aulas públicas ad hoc existiram entre os séculos XVI e XIX por todo o país e pelo império, com um intuito técnico, prático e experimental que estava largamente excluído do ensino livresco, teórico e dogmático das outras instituições. Pelo que pude coligir, houve um mínimo de 17 aulas, mais o Curso Superior de Letras, que vou também contabilizar aqui, apesar de se poder contar entre as escolas e institutos superiores oitocentistas que, em 1911, foram aglutinados em super-estruturas universitárias.

1556-1??? Aula de Medicina e Cirurgia no Hospital de T-os-S, Lisboa
1559-17??  Aula do Cosmógrafo-Mor, Lisboa
1590-1759 Aula da Esfera, Lisboa
1594-1759 Aula do Risco, Lisboa
1691-1842 Aula de Medicina e Cirurgia no Hospital de Goa, Nova Goa
1699-1795 Aula de Geometria e Fortificação, Luanda
1759-1844 Aula do Comércio, Lisboa
1762-1803 Aula de Náutica, Porto
1768-1787 Aula de Gravura Artística na Imprensa Régia, Lisboa
1779-1803 Aula de Debuxo e Desenho, Porto
1781-1836 Aula Régia de Desenho de Figura e Arquitectura, Lisboa
1789-1836 Aula de Medicina e Anatomia, Luanda
1789-1851 Aula de Anatomia, Lourenço Marques
1789-1??? Aula de Anatomia no Hospital de Chaves; a que se seguirão outras em Elvas e no Porto.
1795-18?? Aula de Aritmética, Geometria e Trigonometria, Luanda
1800-1816 Aula Prática de Desenho de Figura, Rio de Janeiro
1858-1911 Curso Superior de Letras, Lisboa

Mais tarde hei-de escrever um texto mais completo e pesquisado sobre estas aulas públicas, ou então só sobre a aula de Goa e os estudos médicos. Ou talvez uma postagem sobre os hospitais pelo império, outro tópico também muito interessante!

Bibliografia
[ ] http://www.filorbis.pt/educar/histFormProf98.htm
[ ] http://193.137.22.223/pt/patrimonio-educativo/museu-virtual/exposicoes/a-instituicao-do-ensino-tecnico-em-portugal-no-sec-xix/
[ ] https://www.rtp.pt/programa/tv/p31026/e9
[ ] Germano de Sousa (2013) História da Medicina Portuguesa durante a Expansão.
[ ] Rómulo de Carvalho (2001) História do Ensino em Portugal, 3.ª edição.

domingo, 26 de abril de 2020

Colégios Universitários em Coimbra

Mais um post no seguimento de todos os outros sobre colégios neste mesmo blog, principalmente: Colégios Universitários em Coimbra (tradução inglesa em The Lost Colleges of the University of Coimbra); Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...); Colégios Universitários em Lisboa, Colégios Universitários em Évora e Universidades em Portugal. Ver também o post A Alta de Coimbra Reconstituída.

Preâmbulo
Esta post estava há muitos anos dormente nos bastidores da Gaveta com Saber, em rascunho para publicar em grande. Era para ser uma versão muito melhorada de um post anterior, no caminho para uma versão reduzida de um texto que eu gostaria, um dia, de aumentar e tentar publicar em livro. Todas as fontes em que eu me tenho apoiado para os posts sobre colégios neste blog são secundárias, já que nunca tive possibilidade (nem tempo) para aceder a quaisquer fontes primárias. Mas chegou o tempo de admitir que eu nunca hei de ter tempo para consultar as fontes primárias e para aprofundar e validar certos aspectos ainda bastante nebulosos na minha cabeça, mesmo para redigir um livro sem apoio institucional. Portanto, vou deixar aqui apenas o esquema dos capítulos desse livro, sem texto, para que possa servir de base de trabalho a alguém que se queira lançar a escrever um livro sobre os colégios universitários em Portugal do ponto de vista orgânico, institucional (e não do ponto de vista apenas patrimonial). Alguém tem de o fazer!

I. INTRODUÇÃO
Afinal o que é um colégio?
Os mosteiros e as primeiras universidades.
Os primeiros colégios universitários em Lisboa.

II. OS COLÉGIOS DO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ
1535-1547 Colégio de São Miguel (1566 para a Inquisição)
1535-1547 Colégio de Todos-os-Santos (1566 para a Inquisição)
1537-1544 Colégio de São João Baptista (aulas mudadas p Univ)
1537-1544 Colégio de Santo Agostinho (aulas mudadas p Univ)
Menção à transferência da Universidade.

III. OS PRIMEIROS COLÉGIOS UNIVERSITÁRIOS EM COIMBRA
1539-1834   Colégio de São Tomás de Aquino
1540-1834   Colégio de Nossa Senhora do Carmo
1542-1759   Colégio das Onze Mil Virgens ou de Jesus
1543-1834   Colégio de Nossa Senhora da Graça
1543-1834   Colégio de São Jerónimo
1545-1834   Colégio de São Bernardo ou do Espírito Santo
1545-1566   Colégio de São Domingos de Gusmão

Note to Self: Começar cada secção com a lista dos colégios (eventualmente precedida de umas breves 3 linhas introdutórias) e só depois escrever o texto de cada um.

IV. O COLÉGIO DAS ARTES E O HUMANISMO EM PORTUGAL
1540-1834   Colégio (Maior) Pontifício e Real de São Pedro
1548-1759   Colégio (Menor) Real das Artes (1555 com o de Jesus)
1550-1834   Colégio (Maior) Real de São Paulo Apóstolo
Menção aos colégios jesuítas pelo Império, incluindo a Univ Évora.

V. A SEGUNDA VAGA DE COLÉGIOS UNIVERSITÁRIOS EM COIMBRA
1548-1834   Colégio de São João Evangelista dos Lóios
1550-1834   Colégio de São Boaventura dos Pimentas (na Baixa)
1552-1834   Colégio Novo de Santo Agostinho ou da Sapiência
1552-1834   Colégio da Santíssima Trindade
1555-1834   Colégio de São Bento de Núrsia
1566-1834   Colégio de Nossa Senhora da Conceição da Ordem Militar de Cristo de Tomar
1572-1834   Colégio de São Pedro da Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Assis (ou dos Terceiros, ou dos Borras)

VI. OS COLÉGIOS FILIPINOS E SETECENTISTAS EM COIMBRA
1602-1834   Colégio de Santo António da Pedreira
1603-1834   Colégio de São José dos Marianos
1615-1834   Colégio das Ordens Militares de Santiago de Espada e de São Bento de Avis
1616-1834   Colégio de São Boaventura (na Alta)
1707-1834   Colégio de Santo António da Estrela
1755-1834   Colégio de Santa Rita dos Grilos
1779-1834   Colégio de São Paulo o Primeiro Eremita

VII. CONCLUSÃO
A dissolução dos colégios em 1834 e a venda do espólio dos colégios.
Subsequente destino dos espólios e dos edifícios dos colégios.
Menção à elevação a Património da UNESCO.
Novos colégios universitários em Lisboa.
Novos colégios em Coimbra no futuro?


Referências:
[  ] António Ribeiro de Vasconcelos, Os Colégios Universitários de Coimbra, Coimbra: Coimbra Editora, 1938.
[  ] Joaquim de Carvalho, Instituições de Cultura (séculos XIV-XVI), Projecto joaquimdecarvalho.org vida e obra, p. 3.
[  ] Teresa Maria Rodrigues da Fonseca Rosa, História da Universidade Teológica de Évora (Séculos XVI a XVIII), Lisboa: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98314-0-7.
[  ] Rui Lobo, As quatro sedes do estudo Geral de Lisboa (1290-1537), in António Nóvoa (dir.) e Hermenegildo Fernandes (coord.), A Universidade Medieval em Lisboa Séculos XIII-XVI, Lisboa: Universidade de Lisboa e Edições Tinta-da-china, 2013, pp. 267-304 (principalmente da secção "Os colégios", pp. 298-304).
[  ] José Mattoso, O suporte social da universidade de Lisboa-Coimbra (1290-1537), in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp. 383-407. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 305-335; e parcialmente em Penélope. Fazer e desfazer a História, 13 (1994) pp. 23-35.
[  ] José Mattoso, A Universidade Portuguesa e as Universidades Europeias, in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp.193-212. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 5-29.

domingo, 22 de novembro de 2015

Collegia Vniuersitatum in Lingua Latina

Collegia Vniuersitatum in Portucalia Antiquarum
In Portucalia Antiquarum Vniuersitatum Collegia
Antiquarum Vniuersitatum Collegia in Portucalia

Vniuersitas in Olissipo siue Vlixbona
Collegium Sancti Eligii M CC XC I
Collegium Sanctae Annae M CCC XXX VIII
Collegium Sancti Georgii M CD XL VIII
Collegium Sancti Thomae Aquinatis* M D X VII

Monasterium Santae Cruxis in Aeminio siue Conimbrica
Collegium Sancti Michaelis M D XXX V
Collegium Omnium Sanctorum M D XXX V
Collegium Sancti Ioannis Baptistae M D XXX VII
Collegium Sancti Augustini M D XXX VII
Collegium Nouum Sancti Augustini**
siue Collegium Sapientiae M D L V

Vniuersitas Conimbricensis
Collegium Sancti Thomae Aquinatis* M D XXX IX
Collegium Pontificius Regiusque Sancti Petri M D XL
Collegium Nostrae Dominae Montis Carmenis M D XL II
Collegium Iesu et Vndecim Millium Virginum M D XL II
Collegium Nostrae Dominae Gratiae M D XL III
Collegium Sancti Hieronymi M D XL IV
Collegium Sancti Bernardi Claraevallensis
siue Collegium Spiritus Sancti M D XL V
Collegium Sancti Dominici Oxomensis M D XL V
Collegium Sancti Ioannis Euangelistae M D XL V III
Collegium Regius Artis M D XL VIII
Collegium Regius Sancti Pauli Apostoli M D L
Collegium Sancti Bonauenturae in Inferiore Oppido M D L
Collegium Sanctissimae Trinitatis M D L II
Collegium Nouum Sancti Augustini**
siue Collegium Sapientiae M D L V
Collegium Sancti Benedicti M D LX VI
Collegium Nostrae Dominae Conceptionis
siue Collegium Ordinis Militaris Christi Selliensis M D LX VI
Collegium Sancti Petri Tertium M D LXX II
Collegium Sancti Antonii Petrariae M DC II
Collegium Sancti Iosephi Marianorum M DC III
Collegium Ordinum Militarium Sancti Benedicti Auisii
et Sancti Iacobi Gladii M DC X V
Collegium Sancti Bonauenturae in Superiore Oppido M DC X VI
Collegium Sancti Antonii Astrae M DCC VII
Collegium Sanctae Ritae M DCC L V
Collegium Sancti Pauli Primi Eremitae M DCC LXX IX

Vniuersitas Ieborensis
Collegium Spiritus Sancti M D L I
Collegium Sancti Mancii M D LX III
Collegium Puerorum Chori M D LX IV
Collegium Nostrae Dominae Purificationis M D LXX VI
Collegium Sancti Gregorii Magni M D LXX VI
Collegium Matris Dei M D XC V

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Lista anacrónica dos colégios ligados à Universidade de Lisboa-Coimbra 1290-1834

Este post vem no seguimento do seguinte post neste mesmo blog: Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...), entre outros...

Studium Generale, Vniuersitatis
1291-1464 Colégio de Santo Elói (do bispo Jardo)§
1338-1497 Colégio de Santa Ana (de Mestre Pedro)§
1448-1459 Colégio de São Jorge (do Doutor Mangancha)
1517-1834 Colégio de São Tomás Aquinas*
1535-1547 Colégio de São Miguel**
1535-1547 Colégio de Todos-os-Santos**
1537-1544 Colégio de São João Baptista**
1537-1544 Colégio de Santo Agostinho**
1540-1834 Colégio de Nossa Senhora do Carmo
1540-1834 Colégio Pontifício e Real de São Pedro
1542-1759 Colégio das Onze Mil Virgens ou de Jesus***
1543-1834 Colégio de Nossa Senhora da Graça
1543-1834 Colégio de São Jerónimo
1545-1834 Colégio de São Bernardo ou do Espírito Santo
1545-1566 Colégio de São Domingos
1548-1834 Colégio de São João Evangelista
1548-1759 Colégio Real das Artes***
1550-1834 Colégio Real de São Paulo Apóstolo
1550-1834 Colégio de São Boaventura (na Baixa)
1552-1834 Colégio da Santíssima Trindade
1552-1834 Colégio Novo de Santo Agostinho ou da Sapiência
1555-1834 Colégio de São Bento
1566-1834 Colégio de Nossa Senhora da Conceição
1572-1834 Colégio de São Pedro
1602-1834 Colégio de Santo António da Pedreira
1603-1834 Colégio de São José
1615-1834 Colégio das Ordens Militares
1616-1834 Colégio de São Boaventura (na Alta)
1707-1834 Colégio de Santo António da Estrela
1755-1834 Colégio de Santa Rita
1779-1834 Colégio de São Paulo Eremita

§ A data final é a data do último registo escrito que menciona o colégio.
* Criado em Lisboa, foi o único colégio a transferir-se para Coimbra com a Universidade entre 1537 e 1539, com um largo período passado no Mosteiro da Batalha em 1538.
** Colégios do Mosteiro da Santa Cruz de Coimbra, os dois primeiros desapareceram efectivamente quando os edifícios foram requisitados para instalação da Inquisição em 1547, os dois últimos quando as aulas foram transferidas para a alçada da Universidade em 1544.
*** O Colégio das Artes ficou sob a alçada dos Jesuítas em 1555, que construíram um edifício junto ao Colégio de Jesus; foram ambos extintos com a expulsão da Companhia, mas o das Artes manteve-se em funções com o nome de Real Colégio dos Nobres das Três Províncias (mais informação sobre este colégio noutro post).

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Outros Colégios Universitários - França

Num post anterior (este aqui, muito anterior...) listei os colégios da antiga Universidade de Paris; agora listo os colégios de outras universidades que no ano de 1793 se localizavam em território francês. Genèricamente, pode-se dizer que o colégio universitário na França cingiu-se muito às funções de alojamento e ensino médio [1], ao contrário do que aconteceu na Inglaterra, onde os colégios assumiram em pleno as funções lectivas das universidades a partir da Reforma anglicana, em adição às funções de alojamento e ensino médio [2]. (Na Península Ibérica os colégios quase nem ofereciam o ensino médio, servindo só para alojamento caritativo de escolares pobres [3].) Vou listar por ordem cronológica da criação das universidades francesas e, dentro de cada uma, pela ordem cronológica da criação dos colégios, lembrando que em 1764 todos os colégios jesuítas franceses foram suprimidos e que em 1793 todas as 23 universidades da 1.ª República Francesa foram extintas, levando atrás os respectivos colégios [4]. Salto a da Córsega, que foi criada em 1765 só para ser suprimida em 1768 [5].

1181-1793 Université de Montpellier [6]
1263 Collège Valmagne
1360 Collège de Brescia ou de Pézenas (10 clercs pauvres)
1364 Collège de Saint-Ruf (18 étudiants Chanoines Réguliers)
1368 Collège de Saint-Benoît et Saint-Germain
1369 Collège de Mende ou des Douze-Médecins
1421 Collège de Michael Boel (prévu, pas exécuté)
1460 Collège de Gironne ou d'Aragon ou du Vergier
Collège-couvent des Franciscains
Collège-couvent des Dominicains
Collège-couvent des Carmelites
Collège-couvent des Augustins

1229-1793 Université de Toulouse [7]
1233 Collège de Saint-Raimond (le plus ancien)
1243 Collège de Vital Galtier
1251 Collège de Boulbonne (pour les étudiants de son abbaye)
1286 Collège de Saint-Bernard (cisterciens)
1337 Collège de Verdale
1339 Collège de Montlezun
1341 Collège Bélenger
1342 Collège de Narbonne (12 étudiants)
1359 Collège de Saint-Martial (20 étudiants)
1360 Collège de Périgord ou de Saint-Front (20 étudiants)
1360 Collège de Maguelonne (10 étudiants en droit)
1369 Collège de Montrevel ou de Lectoure
1382 Collège de Saint-Catherine de Pampelune
1417 Collège de Mirepoix
1429 Collège de Saint-Girons
1457 Collège de Foix
1533 Collège de Papillon
1566 Collège des Jésuites (devenu Collège Royal en 1764)
1604 Collège des Doctrinaires de Saint-Rome
1654 Collège de l’Esquile
1??? Collège de Saint-Pierre-des-Cuisines

1303-1793 Université d'Avignon [8]
1379 Collège de Saint-Martial (12 étudiants clunisiens)
1425 Collège d'Annecy
1453 Collège de Saint-Michel
1471 Collège de Jujon ou de Dijon
1476 Collège de Saint-Pierre ou du Roure
1491 Collège de Notre Dame de la Pitié (12 séculiers, 24 dominicains)
1496 Collège de Saint-Bernard ou de Senanque (cisterciens)
1500 Collège de la Croix
...?

1309-1793 Université d'Orléans [9]
Não teve colégios, apenas residências mantidas por estudantes.

1332-1793 Université de Cahors [10]
1358 Collège de Pellegry
1371 Collège de Rodez
1473 Collège de Saint-Michel

1337-1793 Université d'Angers [11]
[1031-16?? Collège de Saint-Maurice ou de la Porte-de-Fer]
1361-1793 Collège de Fougères (4 étudiants en droit)
1408-1793 Collège de la Fromagerie (4 étudiants)
1424-1793 Collège du Bueil (6 étudiants + Principal et Chapelain)
1509-1793 Collège Neuf ou d'Anjou (oratoriens depuis 1624)
[1604-1764 Collège Royal Henri-le-Grand (à La Flèche ; jésuites)]

1339-1565 Université de Grenoble [12]
Não se tem sequer a certeza se chegou a funcionar; reinstituída em 1543, foi definitivamente incorporada na de Valence em 1565.

1349-1793 Université de Perpignan [13]
1600-1762 Collège Royal Saint-Laurent (jésuites)
1765-1793 Collège Royal
...?

1365-1793 Université d'Orange [14]
Não teve colégios (chegou a ser constituída por um só professor que, como único membro do conselho, se elegia a si próprio Reitor!).

1409-1793 Université d'Aix(-en-Provence) [15]
Não parece ter tido colégios.

1421-1481 Université de Dôle (mudada para Besançon)
1485-1793 Université de Besançon [16]
1494-1793 Collège de Saint-Jérôme (clunisiens)
1498-1793 Collège de Saint-Bernard (cisterciens)
1565-1762 Collège de la Trinité (à Lyon ; jésuites)

1431-1793 Université de Poitiers [17]
1451-1603 Collège de la Vicanne
1461-1603 Collège de la Serenne ou Sirène
1478-1688 Collège de Puygarreau (8 étudiants)
1487-1600 Collège des Lautiers
1487-17?? Collège de Sainte-Marthe (jésuites 1607-1762)
1488-1603 Collège de Saint-Savin*
1488-1603 Collège de Géléasis*
1502-1603 Collège des Moreaux
1503-17?? Collège de Saint-Pierre ou des Deux-Frères
1507-1609 Collège de Montanaris
1???-1603 Collège de Saint-Jacques de Minage
1???-1603 Collège de la Tierie
1???-1603 Collège Ceslani

1432-1793 Université de Caen [18]
1452-1731 Collège du Cloutier, dit d'Enfer ou de Paradis
1460-1786 Collège des Arts
1491-1793 Collège du Bois, Harrington, de Gouvix ou de La Mare
1497-1793 Collège des Droits
1594-1793 Collège du Mont (jésuites 1609-1764)
1786-1793 Collège Royal de Normandie

1441-1793 Université de Bordeaux [19]
1533-1793 Collège de Guyenne
15??-1772 Collège de La Madeleine

1452-1793 Université de Valence [20]
1541-1793 Collège Royal Delphinal
1564-1793 Collège des Arts
1575-1588 Collège des Jésuites
1575-1793 Collège Morel
1575-1793 Collège Montluc
1643-1793 Collège du Saint-Sacrement

1461-1793 Université de Nantes [21]
Faculdade de Direito mudada para Rennes em 1735.
Collège de Launay
Collège de Mellerai
Collège de Saint-Jean

1464-1793 Université de Bourges [22]
1575-1764 Collège de Sainte-Marie (jésuites)
...?

1548-1793 Université de Reims [23]
1546-1793 Collège des Bons-Enfants (existait depuis avant 1245)
1608-1764 Collège des Jésuites

1559-1793 Université de Douai [24]
1561-1793 Collège Anglais de Douai
1562-1793 Collège du Roi
1564-1568 Collège de ... (devenu celui d'Anchin)
1568-1764 Collège d'Anchin*
1568-1793 Collège de Marchiennes
1573-1793 Collège des Écossais
15??-1764 Collège des Jésuites*
1603-1793 Collège de Saint-Patrick des Irlandais
1605-1793 Collège des Bénédictins
1609-1793 Collège de la Motte
1610-1793 Collège de Saint Grégoire (bénédictines anglais)
1615-1793 Collège franciscain de l'ordre des récollets anglais
1619-1793 Collège de Saint-Vaast
1625-1793 Collège franciscain de l'ordre des récollets écossais
16??-1793 Collège de Saint-Thomas-d’Aquin (dominicains)
*incorporados no Collège du Roi

1572-1769 Université de Pont-à-Mousson (mudada para Nancy)
1769-1793 Université de Nancy [25]
1572-1764 Collège des Jésuites (le seul collège, un collège-université)

1621-1793 Université de Strasbourg [26]
1621-1789 Collège de l’Université (Gymnase protestant ; existait 1537)
1681-1793 Collège Royal (catholique)

1722-1793 Université de Dijon [27]
Por ter sido demasiado pequena e tardia, não parece ter tido colégios.

1722-1793 Université de Pau [28]
1722 Collège Saint-Louis (jésuites 1622-1762 ; devient l'université)

Colégios não-universitários já existiam antes das universidades como escolas de gramática independentes (ensino primário e/ou médio). Alguns acabaram por ser incorporados numa universidade próxima, quer aquando da fundação desta, quer por uma decisão política tardia. São exemplos disso o Collège des Bons-Enfants de Reims, o Collège de l'Université de Strasbourg ou o Collège Saint-Louis de Pau. Aquando da expulsão dos jesuítas os seus colégios foram muitas vezes mantidos como colégios mas incorporado às universidades, mesmo quando o colégio jesuíta tinha sido independente e não directamente ligado a uma universidade (como o Collège Royal de Perpignan).

Referências
[1] Hilde de Ridder-Symoens, Chapter 4: Management and Resources, in Hilde de Ridder-Symoens (ed.) e Walter Rüegg (gen. ed.), A History of the University in Europe, Vol. II, Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pp. 154-209 (pp. 155-157); Rainer A. Müller, Chapter 8: Student Education, Student Life, in Hilde de Ridder-Symoens (ed.) e Walter Rüegg (gen. ed.), A History of the University in Europe, Vol. II, Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pp. 326-354 (pp. 335-337); Gabriel Compayré, Abelard and the Origin and Early History of Universities, New York: C. Scribner's Sons, 1902, pp. 187-198; Maurice Pellisson, entrada "France" no Dictionnaire Ferdinand Buisson, edição electrónica, 1911.
[2] Hilde de Ridder-Symoens, Chapter 4... (p. 158); Rainer A. Müller, Chapter 8... (p. 335).
[3] Rainer A. Müller, Chapter 8... (pp. 335 e 337-339).
[4] Jacques Verger, Chapter 2: Patterns, in Hilde de Ridder-Symoens (ed.) e Walter Rüegg (gen. ed.), A History of the University in Europe, Vol. I, Cambridge: Cambridge University Press, 1992, pp. 62-65; Willem Frijhoff, Chapter 2: Patterns, in Hilde de Ridder-Symoens (ed.) e Walter Rüegg (gen. ed.), A History of the University in Europe, Vol. II, Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pp. 80-106.
[5] História da actual Università di Corsica Pasquale Paoli, no website da universidade, 2014.
[6] Hastings Rashdall, The Universities of Europe in the Middle Ages, Vol. 2, Parte 1, Cambridge: Cambridge University Press, 1895, pp. 131-132; Gérard Cholvy (dir.), Histoire du Diocèse de Montpellier, Paris: Éditions Beauchesne, 1976.
[7] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, pp. 168-170.
[8] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, pp. 176-177.
[9] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, pp. 147-148.
[10] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, p. 180.
[11] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, p. 157; Pierre Rangeard, Histoire de l'Université d'Angers, Angers: Imprimerie-Librairie de E. Barassé, 1868; Dominique Letellier-d'Espinose e Olivier Biguet, Collège d'oratoriens dit collège neuf ou d'Anjou, puis hôtel de ville, Angers: Ville d'Angers - Service Patrimoine Historique, Inventaire, 1981; Jean-François Bodin, Recherches historiques sur l'Anjou et ses monumens, Tome II, Saumur: Degouy Ainé Imprimeur-Libraire, 1823, pp. 214-247.
[12] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, p. 181.
[13] Joseph Dehergne, Note sur les Jésuites et l'enseignement supérieur dans la France d'Ancien Régime (1560-1768), Revue d'histoire de l'Église de France, Tome 57, N.° 158, 1971. pp. 73-82.
[14] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, p. 182.
[15] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, pp. 185-187.
[16] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, p. 190; Joseph Dehergne, Note sur les Jésuites... op. cit.
[17] Prosper Boissonnade (dir.), Histoire de l'Université de Poitiers : passé et présent (1432-1932), Poitiers: Imprimerie de Nicolas, Renault et Cie, 1932.
[18] Jules Cauvet, Le Collège des Droits de l'ancienne université de Caen, Caen: A. Hardel Imprimeur-Librairie, 1858, pp. 42 e 156; Amédée de Bourmont, La Fondation de l’université de Caen et son organisation au XVe siècle, Caen: Le Blanc-Hardel, 1883, p. 164-182.
[19] Ernest Gaullieur, Histoire du Collège de Guyenne, Paris: Sandoz et Fischbacher, 1874.
[20] Joseph Cyprien Nadal, Histoire de l'Université de Valence, Valence: Imprimerie E. Marc Aurel, 1861.
[21] Hastings Rashdall, The Universities..., Vol. 2, Parte 1, p. 203, nota 1.
[22] M. Fournier, L'Ancienne Université de Bourges Première Période (XVe siècle), Mémoires de la Société historique, littéraire et scientifique du Cher 9, 1893, pp. 1-93; Archives départementales et patrimoine du Cher, Université de Bourges, s/d.
[23] Eugene Ernest Cauly, Histoire du Collège des Bons-Enfants de l'Université de Reims, Reims: F. Michaud, 1885; Patrick Demouy, Histoire du Lycée Clemenceau, 2012.
[24] Enée-Aimé Escallier, L'abbaye d'Anchin,1079-1792, Lille: Librairie L. Lefort,‎ 1852, p. 270; Louis Trénard, De Douai à Lille, une université et son histoire, Villeneuve d'Ascq: Presses Universitaires du Septentrion,‎ 1978, p. 31; Adolphe de Cardevacque, Le Collège de Saint-Vaast à Douai, 1619-1789, Douai: L. Crépin,‎ 1882; Hilde de Ridder-Symoens, Chapter 4... (p. 160).
[25] Histoire de l'université et du collège de Pont-à-Mousson, de sa fondation en 1572 jusqu'en 1650, manuscrit numérisé sur le site de la bibliothèque multimédia d’Épinal; Delphine Fourot, Pont-à-Mousson : d'Hier à Aujourd'hui, L'Histoire de l'Université, s/d (2010?).
[26] Georges Livet e Pierre Schang (eds.), Histoire du Gymnase Jean-Sturm, berceau de l'Université de Strasbourg, Strasbourg: Éd. Oberlin, 1988; René Voltz, La Physique à Strasbourg : regards sur le passé (1621-1918), pp. 7-11.
[27] L'Université de Dijon : Un peu d'histoire, s/d. Não encontro muita informação em relação a esta antiga universidade na Internet.
[28] Joseph Dehergne, Note sur les Jésuites... op. cit.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Os Colégios Jesuítas e as Casas Oratorianas em Portugal e no Império Português 1542-1834

Nestes colégios e casas ensinavam-se essencialmente os Estudos Menores (médios, actuais básico e secundário, e preparatório) e não os Estudos Maiores (superiores ou universitários), com algumas excepções (os colégios de Évora e de Salvador da Baía tinham faculdades maiores). Estas duas listas foram tiradas essencialmente dos textos de Teresa Rosa [1] (principalmente no que toca a Portugal Continental, Madeira e Açores); no fim de cada lista vou transcrever alguns parágrafos desses textos por falta de tempo para construir um texto meu adaptado. Provàvelmente ambas as listas estão incompletas e, portanto, this post is a work in progress.

Colégios Jesuítas fundados nos sécs. XVI e XVII:
1542 Colégio de Santo Antão, em Lisboa
1542 Colégio de Jesus, em Coimbra
1548 Colégio de São Paulo, em Goa, Índia
15?? Colégio de São Salvador, em Coulão, Índia
1549 Colégio de São Vicente, em São Vicente, Brasil
1549 Colégio de Jesus, em Salvador da Bahia, Brasil
1551 Colégio do Espírito Santo, em Évora
1554 Colégio de São Paulo, em São Paulo de Piratininga, Brasil
1555 Real Colégio das Artes, em Coimbra (fundado em 1547)
1560 Colégio de São Paulo, em Braga
1560 Colégio de São Lourenço, no Porto
1561 Colégio do Santo Nome de Jesus, em Bragança
1563 Colégio de São Manços, em Évora
1570 Real Colégio São João Evangelista, no Funchal
1570 Real Colégio da Ascensão de Cristo, em Angra
1573 Colégio de São Sebastião, no Rio de Janeiro, Brasil
1576 Colégio de Nossa Senhora da Purificação, em Évora
1576 Colégio de São Gregório, em Évora
1583 Colégio da Madre de Deus, em Évora
1590 Colégio de São Patrício, em Lisboa
1591 Residência de São Miguel, em Ponta Delgada
1594 Colégio da Madre de Deus (ou de São Paulo), em Macau
1599 Colégio de São Tiago, em Faro
1605 Colégio de São Sebastião, em Portalegre
1621 Colégio de Todos os Santos, em Ponta Delgada
1621 Colégio de Nossa Senhora da Conceição, em Santarém
1644 Colégio de São Tiago, em Elvas
1652 Colégio de São Francisco Xavier, no Faial
1655 Colégio de São Francisco Xavier, em Setúbal
1660 Colégio São Francisco Xavier, em Portimão
1662 Escola da vila de Pernes fundada por uma fidalga, Dona Ana da Silva, que deixou uma renda para se abrir uma escola de latim, anexa ao Colégio de Nossa Senhora da Conceição, em Santarém
1670 Colégio São Francisco Xavier, em Beja
1679 Colégio São Francisco Xavier, em Lisboa
1693 Residência da Santíssima Trindade, em Gouveia

"A obra educativa dos jesuítas situava-se especialmente nos níveis de ensino médio e superior, não sendo o ensino elementar considerado como parte indispensável do seu programa educativo. Ensinar a ler e a escrever seria também considerado obra de caridade; contudo, tal só se verificaria se os inacianos tivessem gente suficiente que pudessem acudir a tudo." [2]

"[O Colégio das Artes] era destinado a administrar o ensino preparatório de ingresso na Universidade de Coimbra e a licenciatura em Artes e bacharelato em Filosofia." [3]

"[Até à sua expulsão em 1759] em Portugal o ensino era maioritariamente ministrado por Jesuítas. O ensino era também ministrado em algumas escolas dos Oratorianos e em escolas geralmente pequenas, a cargo das câmaras, da igreja e de congregações religiosas, nas localidades onde tal ensino não chegava. Nelas eram leccionadas especialmente o latim e as primeiras letras. Podemos considerar ainda a existência de professores particulares." [4]

Entre 1542 e 1714:
• 30 colégios no continente, ilhas e África ocidental
• 17 colégios no Brasil (mas ao mesmo tempo diz 13 colégios no Estado do Brasil, 8 colégios e seminários no Estado do Maranhão)
• 14 colégios na Índia e África oriental
• 11 colégios no extremo-oriente [6]

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Casas Oratorianas fundadas nos sécs. XVII e XVIII:
1645 Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa
1658 Casa dos Oratorianos, em Freixo de Espada à Cinta
1659 Casa do Espírito Santo, em Lisboa
1685 Casa dos Oratorianos, no Porto
1689 Casa dos Oratorianos, em Viseu
1690 Casa dos Oratorianos, em Braga
1701 Casa dos Oratorianos, em Estremoz

"Por sua vez, a 16 de Julho de 1668, [estabelecia-se] em Lisboa a Congregação do Oratório de São Filipe [Néri]. Esta Congregação, fundada em Roma, em 1550, e introduzida em Portugal pelos Padres Bartolomeu de Quental e Francisco Gomes, revelou-se uma instituição preponderante e charneira na edificação de uma nova matriz cultural em Portugal. Embora quase tão antiga como a Companhia de Jesus, aquela Congregação revelou-se sempre mais permeável às tendências modernas. Não olvidou os seus deveres quando veio a ser participante activa das reformas pedagógicas pombalinas. Ainda antes das Reformas Pombalinas a Congregação do Oratório chegou a ter, em Portugal, casas nas quais também era ministrado o ensino secundário de humanidades e, em várias delas, o de filosofia e de teologia. Destas destacam-se: a Casa do Espírito Santo, fundada em Lisboa, no ano de 1659 e que veio a ser destruída pelo terramoto de 1755; a Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa, fundada no ano de 1645; em 1658, em Freixo de Espada à Cinta; em 1685, na cidade do Porto; em 1689, em Viseu; em 1690, em Braga; em Estremoz, em 1701. Refere Santos (1982) que estes religiosos não possuíam estabelecimentos especialmente dedicados ao ensino. No entanto [...] esta situação foi alterada pelo Decreto Régio de 9 de Fevereiro de 1745, pelo qual foi atribuído à Congregação o cargo de manter “perpètuamente quatro classes de ensino: doutrina cristã, ler, escrever e contar; gramática e retórica; teologia moral e filosofia” (Adão, 1997)." [5]

Referências
[1] Rosa, T. (2005). O Colégio da Ascensão de Angra do Heroísmo: uma análise pedagógica da Companhia de Jesus. Um contributo para a História da Educação em Portugal. Tese de doutoramento, apresentada na Universidade dos Açores; Rosa, T. (2013). História da Universidade Teológica de Évora (Séculos XVI a XVIII). Lisboa: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa; Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores e as Reformas Pombalinas. Interacções 10(28):40-54.
[2] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 42.
[3] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 43.
[4] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 45.
[5] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 44; Santos, E. (1982). O Oratório no Norte de Portugal. Contribuição para o estudo da história religiosa e social. Porto: INIC; Adão, A. (1997). O Estado Absoluto e o ensino das primeiras letras. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
[6] VERBO Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. 11, «Jesuítas».

domingo, 11 de janeiro de 2015

Colégios Universitários em Évora

Este post vem no seguimento de outros sobre colégios neste mesmo blog: Colégios Universitários em Coimbra (tradução inglesa em The Lost Colleges of the University of Coimbra); Lista Anacrónica de Colégios Universitários em Portugal (Coimbra e Évora); Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...); Colégios Universitários em Lisboa e Universidades em Portugal, entre outros. Vale também a pena consultar o post A Alta de Coimbra Reconstituída.


Para minha surpresa, descobri recentemente que a antiga Universidade de Évora (1559-1759) não era uni-colegial... Como se sabe, durante duzentos anos certos, Coimbra não foi a única universidade a funcionar Portugal: em 1558, o Cardeal Infante Dom Henrique (mais tarde Cardeal Rei, nesse ano era 1.º arcebispo de Évora) achou por bem criar uma universidade para complementar a de Coimbra, ideia que já teria existido na mente do Infante Dom Pedro, 1.º duque de Coimbra, no século XV (de facto parece que chegou mesmo a criar uma segunda universidade em Coimbra quando a primeira estava em Lisboa [1]). O Cardeal Infante pediu então autorização ao Papa Paulo IV e estabeleceu uma universidade no Colégio do Espírito Santo em Évora.

Iluminura da cidade de Évora atribuída a Duarte d'Armas. Foral manuelino de Évora, 1501, Arquivo Municipal de Évora. Imagem tirada daqui.

Estava eu, portanto, convencido que a Universidade do Espírito Santo se tinha sucedido jurìdicamente ao Colégio do Espírito Santo, ipso facto, ou que, quando muito, o colégio único tinha existido dentro da universidade da mesma maneira que o Trinitiy College Dublin é o único colégio constituinte da University of Dublin. Porém, ao ler o excelente trabalho de Teresa Rosa [2] descobri que o Colégio do Espírito Santo não só não foi ele próprio transformado em Universidade, como ainda foram criados outros colégios de suporte à dita Universidade. Portanto, não aconteceu um upgrade de colégio para universidade, mas sim uma adição: o Colégio do Espírito Santo continuou a existir dentro da Universidade juntamente com outros colégios. No entanto, poder-se-ia dizer que era a universidade que pertencia ao colégio jesuíta, e não o contrário, já que muitos dos cargos e estruturas eram comuns a ambos e tiveram origem nos do colégio (por exemplo, o Reitor da Universidade era sempre o Superior do Colégio).

Ora, o Colégio do Espírito Santo, como se sabe, foi fundado em 1551 com padres jesuítas do Colégio de Jesus em Coimbra e do de Santo Antão em Lisboa. Foi dotado de rendimentos pelo Cardeal Infante Dom Henrique e começou a escola pública em 1553, sempre com professores jesuítas, e, por isso mesmo, continuou a existir até 1759, ano da expulsão dos Jesuítas do Império Português. Com a criação da universidade logo em 1559, as aulas passaram a não ser apenas preparatórias (ver último parágrafo deste post). Diz Teresa Rosa que "os Jesuítas, estudando em conjunto com estudantes de outras famílias religiosas e leigos, na Universidade, voltavam no fim das aulas a recolher-se no respectivo Colégio (parte destinada aos membros da Companhia)" [p. 51]; presumìvelmente o Colégio do Espírito Santo seria só para jesuítas enquanto os outros acomodariam os escolares das outras ordens religiosas e os leigos. [3]

Um segundo colégio foi o Colégio de São Manços, também chamado "dos Porcionistas", que nunca teve edifício próprio. Instaurado em 1563, ficou a pertencer à universidade (não sei se desde o início), mas desfez-se em 1580 com a morte do Cardeal Rei Dom Henrique, por falta de fundos e de interesse dos Jesuítas em conservá-lo. Destinava-se a recolher quinze estudantes, de entre os quais os filhos dos criados do Cardeal Infante/Rei, os que terminavam as funções de meninos do coro da Sé e, num número indeterminado, os filhos de nobres que pagariam uma “porção”, cuja quantia oscilava entre treze e quinze mil réis anuais. Não confundir com o Colégio de São Manços das Donzelas, que existiu em Évora de 1592 a 1836 [4] e cuja história eu não conheço.

Assinatura do Cardeal Infante Dom Henrique: "Iffs dõ amriq̄". Entre 1539-1557 (talvez antes de 1546, data em que se tornou cardeal, visto que assina apenas infante, mas isto é pura especulação minha). Arquivo Nacional Torre do Tombo, imagem tirada daqui.

Acontece que, para garantir alunos à Universidade de Évora, o Cardeal Infante quis ainda fundar quatro outros colégios, mas ficando todos sob o controlo jesuíta. Para tal, em 1572 pede ao Papa Gregório XIII a concessão de rendas eclesiásticas suficientes para erigir e sustentar os colégios seguintes:
- Colégio de Nossa Senhora da Purificação, para teólogos “passantes”, que seriam doze, já bacharéis em teologia, com vinte mil réis de renda, destinado à obtenção dos restantes graus académicos;
- Colégio de São Gregório, para quarenta teólogos “cursantes”, ou simples alunos de teologia, já mestres em artes, com dezasseis mil réis de renda;
- Colégio de Santo Agostinho, para sessenta alunos de artes, com quinze mil réis de renda;
- Colégio de São Jerónimo, para cinquenta alunos de humanidades, latim e grego, com renda de doze mil réis.
Acabou por ter dinheiro para criar e dotar apenas dois, o da Purificação e o de São Gregório, em 1579. Nesse ano dotou a Universidade também de um hospital. O Colégio da Purificação, era dirigido por um Vice-Reitor, assistido por outros padres da Companhia, conselheiros sob a imediata e directa sujeição ao Reitor, de quem dependia a sua escolha. Era também ao Reitor que competia prover as 25 bolsas (com o tempo, as bolsas passaram de 50 para 25), escolhendo entre os opositores aprovados, aqueles que considerasse mais adequados. As obras do edifício do Colégio da Purificação só se concluíram em 1605, mas o colégio recebeu os primeiros escolares em 1593; o edifício pertence hoje ao Seminário Maior de Évora [5].

Houve ainda o Colégio da Madre de Deus, que se destinava a treze ou mais colegiais pobres. Autorizada a fundação, por bula do Papa Clemente VIII, em 1595, iniciou-se a construção do edifício de imediato e começou a ser habitado em 1608. Com estatutos inspirados nos do Colégio da Purificação, deveria depender do arcebispado de Évora, embora sob a direcção da Universidade. Tal não foi aceite pelos Jesuítas e os estatutos foram modificados mais tarde. Destinava-se a treze ou mais colegiais pobres que estudassem latim, artes e teologia, e que seriam mantidos com os bens oferecidos (em testamento?) pelo Doutor Heitor de Pina Olival, desembargador e cavaleiro de Cristo, e por sua esposa, Dona Francisca de Brito. O Colégio da Madre de Deus era governado por um clérigo secular, mas cuja escolha incumbia ao Reitor da Universidade. O Reitor tinha igualmente que prover os estudantes porcionistas. [6] Luís António Verney foi aluno deste colégio [7].

 
Luís António Verney (1713-1792) e o frontispício do tomo primeiro da primeira edição do seu "Verdadeiro Metodo de Estudar" (Valensa, 1746 [topónimo fictício, na realidade foram impressas duas edições em Nápoles e, em 1751, uma terceira em Lisboa]). Imagens tiradas daqui; a versão digital da obra está disponível na Biblioteca Nacional de Portugal.

Para além dos colégios acima citados, havia ainda o noviciado (estudos para se ser sacerdote) anexo ao (ou integrado no) Colégio do Espírito Santo; não se entende bem no texto de Teresa Rosa se era parte desse colégio, se era um colégio à parte (o mesmo que o Colégio dos Moços do Coro?). Vulgarmente conhecido pelo nome de "Conventinho", os edifícios do noviciado foram começados a construir em 1564 e habitados em Julho de 1567.

Lista de colégios na Universidade de Évora (1559):
1551-1759 Colégio do Espírito Santo
1563-1580 Colégio de São Manços (ou dos Porcionistas)
1564-1759 Colégio dos Moços do Coro (noviciado?)
1576-1759 Colégio de Nossa Senhora da Purificação
1576-1759 Colégio de São Gregório
1595-1759 Colégio da Madre de Deus
planeado: Colégio de São Jerónimo
planeado: Colégio de Santo Agostinho

Deixo uma nota às capelanias de Vera Cruz e de São João [8]. Ora, para além das preocupações com a subsistência material dos estudantes dos colégios, o Cardeal Infante Dom Henrique tinha preocupações também com a sua subsistência espiritual. Claro que todos ou quase todos os estudantes dos colégios haveriam de ser sacerdotes, mas enquanto não o eram precisavam de ter quem lhes celebrasse missa e lhes desse os sacramentos. Para tanto o Cardeal Infante instituiu duas capelanias, isto é, bolsas para que sacerdotes já formados quisessem complementar os seus estudos e assim também poderiam dar missa etc. Por vezes também confundidos com colégios, as capelanias eram apenas fundos que eram supridos pelas esmolas que os fiéis deitavam aos santos nas respectivas capelas (a de Vera Cruz e a de São João, ambas na Sé de Évora), e eram geridos pelos próprios bolseiros. Em Coimbra havia também capelanias, mas de capelanias hei de falar especìficamente num outro post.

E como nota final sou levado a explicar que a Universidade de Évora, à semelhança de outras pela Europa (nomeadamente no mundo germânico [9]) que estavam sob controlo jesuíta, oferecia cursos apenas no que numa universidade medieval se chamariam a Faculdade de Artes e a Faculdade de Teologia. Se tradicionalmente uma universidade completa tinha 4 faculdades (Artes, Direito, Medicina e Teologia; em Coimbra a de Direito estava dividida em duas: Leis e Cânones) [10], na de Évora não se ensinava nem Direito nem Medicina [11]. Na verdade, Évora estava também organizada em 4 faculdades (Latinidades ou Humanidades; Artes; Teologia Moral ou Casos de Consciência; e Teologia Especulativa ou Sagrada Escritura), mas o que se ensinava na totalidade não fugia ao âmbito tradicional daquelas duas [12]. As Humanidades e as Artes seriam sensivelmente o que hoje se chamaria o ensino médio ou básico/secundário, ou preparatório (preparação para a inscrição nas faculdades maiores), e os estudantes que concluíssem o curso de Artes em Évora poderiam inscrever-se directamente nas faculdades maiores não só de Évora, mas também de Coimbra. No reinado de Dom Pedro II modernizou-se o ensino das Matemáticas, nelas se incluindo a Geografia, a Física e a Arquitectura [13]. A história dos estudos em Artes tanto em Coimbra como em Évora (que tanto me interessa!) ficará também para outro post.

Representação da experiência dos hemisférios de Magdeburgo, de Otto von Guernicke (1602-1686), em azulejos da Aula de Física da antiga Universidade de Évora (hoje sala 120 da moderna universidade), 1744-1749. No azulejo vêem-se as palavras em latim "Vacuo resistit" ("o vácuo resiste"). Imagem tirada daqui. [14]

Referências
[  ] Onde não haja indicação da referência, as informações foram tiradas do texto de Teresa Maria Rodrigues da Fonseca Rosa, História da Universidade Teológica de Évora (Séculos XVI a XVIII), Lisboa: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98314-0-7.
[1] José Mattoso, O suporte social da universidade de Lisboa-Coimbra (1290-1537), pp. 390, in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp. 383-407. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 305-335; e parcialmente em Penélope. Fazer e desfazer a História, 13 (1994) pp. 23-35.
[2] Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., op. cit.
[3] Muito da história da Universidade de Évora se poderá consultar no fundo documental existente actualmente na Universidade de Coimbra, e também no seguinte blog. V. também Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., op. cit.
[4] Ligação para digitarq.
[5] Ligação para o website do Seminário Maior de Évora; ligação para FUNDIS; as andanças do edifício dos Colégios e da antiga Universidade de Évora podem ser seguidas no website Monumentos. V. também Fernando Taveira da Fonseca, A universidade de Évora (1559-1759): história e historiografía. In Salamanca e su Universidad en el Primer Renacimiento: Siglo XV, Miscelánea Alfonso IX, 2010, ligação. 
[6] Ligação para FUNDIS.
[7] Ligação para Infopédia.
[8] Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., pp. 93-94.
[9] Steve Naragon, List: 18th Century German Universities, North Manchester, Indiana: Manchester University, 2014. Ligação (acedida Dezembro 2014).
[10] A History of the University in Europe, Vol. II.
[11] A ausência da Medicina, das Leis e dos Cânones (na verdade, apenas da sua parte contenciosa), parece dever-se a um desejo expresso de manter o monopólio lectivo destas matérias na Universidade de Coimbra, desejo contemplado na Bula da fundação da Universidade Eborense. V. nota 59 in Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., p. 33.
[12] Ligação para a página da universidade actual; Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., op. cit.
[13] Ligação para a página da universidade actual.
[14] A recente tomada de consciência da importância e da excelência dos azulejos setecentistas como material didáctico, mormente em Coimbra, pode ser seguida no blogue De Rerum Natura e na Scientific American.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Alta de Coimbra Reconstituída

Eis uma estupenda reconstituição 3D da Alta de Coimbra desaparecida, como ela era antes das demolições nas décadas de 1940 e 1950. Trata-se da dissertação de Mestrado em Design e Multimédia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, de Joaquim Júlio Magalhães Borges. Eis aqui o website com todo o trabalho, com o texto da dissertação e uma apresentação disponíveis para download. O vídeo (de 16 de Setembro de 2013) encontra-se sob Licença de Atribuição Creative Commons (reutilização permitida).



Naturalmente, esta é uma reconstituição do edificado na Alta como ele era imediatamente antes das demolições, quando os colégios já há mais de 100 anos que tinham sido suprimidos, mas os edifícios que foram dos colégios ainda lá se encontravam grandemente intactos, apenas com outras funções. Aliás, o próprio autor menciona os colégios como pontos de referência. Assim, também se pode ler este vídeo da perspectiva dos colégios:

- a Sé Nova corresponde, evidentemente, à igreja do Colégio de Jesus, extinto em 1759 com a expulsão dos jesuítas;

- o Governo Civil de Coimbra estava, na altura das demolições, instalado no edifício que tinha sido do Colégio de São João Evangelista, dos padres lóios, extinto em 1834;

- "a Bastilha" é a alcunha do edifício onde antes esteve o Colégio de São Paulo Eremita, extinto em 1834 (o porquê da alcunha pode ser lido aqui, sob o verbete "Tomada da Bastilha");

- o Museu de Antropologia da Universidade de Coimbra foi instalado nos finais do século XIX no edifício que tinha sido do Colégio de São Boaventura, na Alta (não confundir com o Colégio de São Boaventura dos Pimentas, na Baixa; ambos extintos em 1834);

- no Paço das Escolas, o longo edifício à direita (para sul) da Porta Férrea é o do Colégio Pontifício e Real de São Pedro, extinto em 1834, mas cujo edifício felizmente ainda hoje existe;

- o edifício da Faculdade de Letras foi construído nos finais do século XIX no exacto local onde antes tinha estado o edifício do Colégio Real de São Paulo Apóstolo, extinto em 1834;

- o Hospital dos Lázaros esteve, de facto, e após outras moradas, no edifício que tinha sido do Colégio das Ordens Militares (extinto em 1834), mesmo ao lado do castelo de Coimbra (este, já muito modificado aquando das demolições, ainda se vê neste vídeo);

- o edifício do que tinha sido o Colégio de São Jerónimo (extinto, bien entendu, em 1834) ainda hoje lá se encontra assim mesmo como está no vídeo, à excepção do arco que o ligava ao castelo.

Remeto, para mais pormenores sobre os edifícios dos colégios, para o post Colégios Universitários em Coimbra, neste mesmo blog (tradução inglesa em The Lost Colleges of the University of Coimbra); e também para Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...).

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Colégios Universitários em Lisboa

Este post vem no seguimento de outros sobre colégios neste mesmo blog: Colégios Universitários em Coimbra (tradução inglesa em The Lost Colleges of the University of Coimbra); Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...); e Universidades em Portugal. Vale também a pena consultar o post seguinte A Alta de Coimbra Reconstituída.


Não foi só em Coimbra que apareceram colégios universitários, nem estas instituições começaram apenas no século XVI. Na verdade, após a fundação da Universidade em Lisboa (1290) apareceram nessa cidade estruturas semelhantes a colégios. A primeira, logo em 1291, consistia numa provisão para 6 escolares pobres estipulada por Dom Domingos Anes Jardo (12??-1293), 14.º bispo de Lisboa, a ter lugar no Hospital dos Santos Paulo, Elói e Clemente, em Alfama, que o mesmo bispo fundara. Não era um colégio independente, visto que estava inserido numa estrutura de assistência alargada (um hospital, à época, não servia apenas para tratar doentes, mas também para albergar, alimentar, e oferecer suporte espiritual cristão a quem de tal necessitasse [1]), mas tem as características dos colégios para escolares pobres que se fundaram mais tarde tanto em Lisboa como em Coimbra (por exemplo, o Colégio de São Pedro em Coimbra), isto é, rendimentos próprios deixados por um benemérito, um número definido de escolares e um programa minucioso quanto à rotina e ao que deveriam estudar. Neste caso, a provisão do bispo definia que 4 escolares estudassem as Artes (Gramática, Lógica e Filosofia Natural) e Medicina; e 1 escolar estudasse Teologia e 1 estudasse Direito (ou 2 Teologia). Naturalmente, os escolares eram clérigos ou preparavam-se para o ser. Não se sabe como se processou a assistência aos escolares quando a Universidade esteve em Coimbra entre 1308-1338 e 1354-1377, mas ainda há notícia desta provisão para escolares no dito hospital no ano de 1464.

Lisboa medieval vendo-se a cerca fernandina (1373-1375) [2].

Em data desconhecida mas certamente aquando do retorno da Universidade a Lisboa (1338), Mestre Pedro de Lisboa (1???-13??) estabeleceu uma provisão para escolares pobres em tudo semelhante à de Dom Domingos Anes Jardo. Estava anexa à capelania do altar de Santa Ana na Igreja de São Lourenço em Lisboa, mas creio que não se sabe onde os escolares colegiais tinham alojamento, se num hospital ou casa própria. Ainda há referências a este colégio em 1497, quando a dita capelania pede ao papa dispensa dos seus compromissos para com os escolares, coisa que já o hospital de Santo Elói tinha feito em relação ao seu colégio por várias vezes entre 1440 e 1448. Parece que as obrigações litúrgicas e o desvio de rendimentos para outros bolsos, assim como as frequentes mudanças da Universidade de Lisboa para Coimbra e vice-versa impediram os colégios de se imporem como estruturas universitárias fortes [3].

Em 1383, Dom Afonso Correia (13??-1397), 19.º bispo da Guarda, pediu autorização ao rei para aplicar algumas das rendas do seu bispado na criação de um colégio para 12 escolares pobres, incluindo um orçamento para a compra de livros. O rei Dom Fernando I, que se interessava genuìnamente pelos estudos [4], deu-lha em carta de 28 de Março desse ano, mas morreu em Outubro e, na crise dinástica que se seguiu, Dom Afonso Correia tomou o partido de Dona Beatriz, pelo que haveria de ser deposto do bispado da Guarda em 1384 e, após a batalha de Aljubarrota (14 de Agosto de 1385), de se retirar para Castela, onde foi bispo de Segóvia até à morte [5]. Tudo isto faz supor que Dom Afonso Correia nunca tenha chegado a implementar o seu colégio em Lisboa.

Em 1426, o infante Dom Pedro, 1.º duque de Coimbra, escreveu, de Bruges, uma carta ao seu irmão, o infante herdeiro Dom Duarte, na qual o aconselhava a criar um conjunto de colégios orbitando a Universidade, à semelhança do que acontecia em Paris e em Oxford (e também em Cambridge, Toulouse, Bologna, e Montpellier [6]). Esses colégios deveriam ser criados pela Universidade (nas 5 ou 6 igrejas que já lhe pertenciam), pelos bispos (para escolares das suas dioceses) e pelas ordens religiosas (menciona em particular os dominicanos, os agostinhos e os cistercienses). Ao todo queria Dom Pedro 10 ou mais colégios universitários, tanto para ricos como para pobres (mas os ricos pagariam a sua estadia do próprio bolso). Os escolares colegiais deveriam dormir cada um em sua cela, tomar as refeições todos juntos e respeitar uma clausura (isto é, que cumprissem horários rígidos, incluindo a proibição de sair à noite), tudo como se fazia nos mosteiros; deveriam ser regidos por um mestre e ter um capelão que lhes desse os sacramentos. Tudo isto teria o objectivo de produzir bons eclesiásticos "e asy creçerião os leterados e as sçiençias" [7]. Na prática, nem o rei Dom Duarte I (rei 1433-1438), nem o próprio Dom Pedro quando foi regente do reino (regente de facto 1439-1448) implementaram quaisquer colégios universitários. Apesar disso, é interessante notar que Dom Pedro se interessou mesmo pelos estudos em Portugal, de tal maneira que fundou uma segunda Universidade em Coimbra em 1443, doando-lhe bens e rendimentos, mas esta não sobreviveu à morte do seu patrono em 1449 [8].

Infante Dom Pedro, 1.º duque de Coimbra, segundo uma interpretação possível dos painéis de Nuno Gonçalves (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa).

Entretanto, em 1447 morreu o Doutor Diogo Afonso Mangancha, lente de Leis na Universidade, e no seu testamento de 9 de Dezembro encontraram-se instruções para a fundação de um colégio que albergasse 10 escolares pobres e 4 servidores, e cujo reitor deveria ficar sob a autoridade do reitor da Universidade. O reitor, tal como o escrivão, seria eleito entre os escolares. Mangancha deixava ao colégio casas da sua propriedade no centro de Lisboa, os seus próprios livros, rendimentos regulares, enfim, todos os seus bens e os da sua primeira mulher, Branca Anes. Os colegiais (com mais de 16 anos e já bacharéis em Artes ou já sacerdotes) seriam eleitos pela Universidade e pela viúva (Maria Dias, segunda mulher de Mangancha), sem interferência do rei [9]. As prerrogativas e a rotina dos colegiais estava também organizadas no testamento (que serviu de estatutos ao novo colégio): cada um tinha direito a duas refeições diárias, quarto individual ("câmara") apenas com uma cama e uma mesa, e deveriam celebrar missa em conjunto nos dias em que não houvesse aulas (em capela própria ou na igreja paroquial de São Jorge). As casas do colégio, para além dos dez quartos, deveriam ter uma sala-refeitório, cozinha, despensa, adega, celeiro e alojamento para os servidores (mordomo, comprador, cozinheiro e lavador); não teriam estrebaria: se necessidade houvesse, teriam de alugar uma estrebaria para pôr as montadas. É possível especular que os anteriormente mencionados colégios disporiam de uma logística muito semelhante a esta. O colégio do Doutor Mangancha funcionou entre Janeiro de 1448 e Julho de 1459, quando a Universidade anexou as casas por inactividade do colégio.

Finalmente, em 1517, o rei Dom Manuel I fundou um colégio no Convento de São Domingos, ao Rossio, para 14 frades dominicanos e 6 monges jerónimos que deveriam estudar as Artes e Teologia. Às suas custas, o rei mandou construir novas dependência no convento para o colégio e ainda lhe instituiu um subsídio anual de 130 mil reais, 20 moios de trigo e 20 pipas de vinho. Com a transferência da Universidade para Coimbra em 1537, o Colégio de São Tomás (ou Tomé, forma arcaica do nome; por estar próximo dos dominicanos, refere-se provàvelmente a São Tomás de Aquino, doutor da igreja, e não a São Tomé Dídimo, apóstolo) saiu de Lisboa e, após uma breve estada no Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha (de frades dominicanos) entre 1538 e os finais de 1539, estabeleceu-se também em Coimbra, só sendo extinto em 1834 aquando da supressão das ordens religiosas [10].

Reconstituição virtual 3D do Convento de São Domingos (à esquerda) e do Hospital Real de Todos-os-Santos (à direita), ao Rossio, como seriam entre o ano de 1504 e o grande incêndio de 1750 [11] (Museu da Cidade, Lisboa).

Lista conjectural de Colégios Universitários em Lisboa:
1291-1464 Colégio de Santo Elói (do bispo Jardo)
1338-1497 Colégio de Santa Ana (de Mestre Pedro)
1383-1384 Colégio planeado pelo bispo da Guarda
1426-1449 Colégios planeados pelo infante Dom Pedro
1448-1459 Colégio de São Jorge (do Doutor Mangancha)
1517-1538 Colégio de São Tomé (do rei Dom Manuel I)

Ao que se pode apurar por uma breve pesquisa na Internet, os colégios universitário em Lisboa não são coisa do passado. Hoje, para alojamento, alimentação e assistência a estudantes universitários (não estou aqui a falar de colégios no sentido usual de escola privada pré-universitária), existem o Colégio Universitário Pio XII, o Colégio Universitário Montes Claros, ambos ligados à Igreja Católica, e o Colégio Universitário da Cooperação, destinado a estudantes oriundos dos países africanos de língua oficial portuguesa, assim como várias residências universitárias.

Referências
[  ] Onde não haja indicação da referência, as informações foram tiradas do texto de Rui Lobo, As quatro sedes do estudo Geral de Lisboa (1290-1537), in António Nóvoa (dir.) e Hermenegildo Fernandes (coord.), A Universidade Medieval em Lisboa Séculos XIII-XVI, Lisboa: Universidade de Lisboa e Edições Tinta-da-china, 2013, pp. 267-304 (principalmente da secção "Os colégios", pp. 298-304).
[1] Nuno Moniz Pereira, A Assistência em Portugal na Idade Média, Lisboa: CTT Correios de Portugal, 2005, pp. 111 e ss.
[2] Imagem retirada de A. H. de Oliveira Marques, Iria Gonçalves e Amélia Aguiar Andrade, Atlas de Cidades Medievais Portuguesas, Lisboa: INIC, 1990, pp. 58-59. Disponível em RevelarLx.
[3] José Mattoso, A Universidade Portuguesa e as Universidades Europeias, p. 211, in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp.193-212. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 5-29.
[4] José Mattoso, O suporte social da universidade de Lisboa-Coimbra (1290-1537), pp. 386 e 395, in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp. 383-407. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 305-335; e parcialmente em Penélope. Fazer e desfazer a História, 13 (1994) pp. 23-35.
[5] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 7, s/d, p. 744.
[6] José Mattoso, A Universidade Portuguesa..., p. 211.
[7] Citação de uma cópia da carta de Bruges; v. citação completa em Rui Lobo, As quatro sedes..., pp. 298-299.
[8] José Mattoso, O suporte social..., p. 390.
[9] Joaquim de Carvalho, Instituições de Cultura (séculos XIV-XVI), Projecto joaquimdecarvalho.org vida e obra, p. 3.
[10] V. Colégios Universitários em Coimbra, neste mesmo blog.
[11] Mário Carmona, O Hospital Real de Todos os Santos da Cidade de Lisboa, Porto: Imprensa Portuguesa, 1956, pp. 250-255.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...)


1527-1834  Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (reforma)
1535-1547 Colégio de São Miguel (1566 para a Inquisição)
1535-1547 Colégio de Todos-os-Santos (1566 para a Inquisição)
1537-1544 Colégio de São João Baptista (aulas mudadas p Univ)
1537-1544 Colégio de Santo Agostinho (aulas mudadas p Univ)
1552-1834 Colégio Novo de Santo Agostinho ou da Sapiência

1537-hoje  Universidade de Coimbra (refundação)
1539-1834   Colégio de São Tomás de Aquino
1540-1834   Colégio de Nossa Senhora do Carmo
1540-1834   Colégio (Maior) Pontifício e Real de São Pedro
1542-1759   Colégio das Onze Mil Virgens ou de Jesus
1543-1834   Colégio de Nossa Senhora da Graça
1543-1834   Colégio de São Jerónimo
1545-1834   Colégio de São Bernardo ou do Espírito Santo
1545-1566   Colégio de São Domingos de Gusmão
1548-1834   Colégio de São João Evangelista dos Lóios
1548-1759   Colégio (Menor) Real das Artes (1555 com o de Jesus)
1550-1834   Colégio (Maior) Real de São Paulo Apóstolo
1550-1834   Colégio de São Boaventura dos Pimentas
1552-1834   Colégio da Santíssima Trindade da Redenção dos Cativos
1555-1834   Colégio de São Bento de Núrsia
1566-1834   Colégio de Nossa Senhora da Conceição da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo de Tomar
1572-1834   Colégio de São Pedro da Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Assis (ou dos Terceiros, ou dos Borras)
1602-1834   Colégio de Santo António da Pedreira
1603-1834   Colégio de São José dos Marianos
1615-1834   Colégio das Ordens Militares de Santiago de Espada e de São Bento de Avis
1616-1834   Colégio de São Boaventura
1707-1834   Colégio de Santo António da Estrela
1755-1834   Colégio de Santa Rita dos Grilos
1779-1834   Colégio de São Paulo, o Primeiro Eremita

Houve, de facto, cinco colégios no Mosteiro de Santa Cruz, dois dos quais não eram residenciais mas um verdadeiro conjunto de professores e alunos que se juntavam para aulas de Teologia, Cânones e Medicina no mosteiro: o Colégio de São João Baptista usava salas num piso por cima da Igreja de São João (Baptista) das Donas (à esquerda da Igreja de Santa Cruz, como diz Frei Nicolau de Santa Maria, citado pelo Prof. Taveira), e o Colégio de Santo Agostinho presumivelmente usava salas à direita da Igreja de Santa Cruz (onde hoje é a câmara municipal). Em alvará de 1544, o rei Dom João III muda todas as aulas destes dois colégios para a alcáçova de Coimbra, sob a direcção da Universidade, efectivamente eliminando os estudos superiores de Teologia, Cânones e Medicina no Mosteiro, sendo desde então apenas possível estudar estas disciplinas nas faculdades maiores da Universidade.

O Colégio de São Miguel (para ricos, que dava para a Rua da Sofia) e o Colégio de Todos-os-Santos (para pobres, nas traseiras deste) eram residenciais e ensinavam as Artes preparatórias para os estudos superiores. Foram efectivamente extintos quando em 1547 o rei mandou que se vagassem as casas para instalar o novo Colégio das Artes. Não foram extintos per se, mas os ricos recusaram instalar-se no mosteiro e os pobres acabaram por se instalar em casas particulares ou noutros colégios; em 1566, já o Colégio das Artes estava sob a alçada dos Jesuítas, e num edifício perto do colégio destes (Colégio de Jesus), os edifícios de São Miguel e Todos-os-Santos foram usados para instalar a Inquisição de Coimbra.

Os cónegos do mosteiro acharam por bem criar ainda um outro colégio, o Colégio Novo, em 1552, mais ligado às aulas nas faculdades da Universidade, com o edifício que ainda lá está hoje (Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação) começado em 1593.