quarta-feira, 28 de junho de 2023

Arthur Moreira Lima toca Ernesto Nazareth

Ernesto Nazareth ― Apanhei-te, cavaquinho, polca para piano
www.institutopianobrasileiro.com.br

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Ramos da Filosofia

Os cinco ramos tradicionais em que se poderá dividir a filosofia são:
• Metafísica
• Ética
• Estética
• Epistemologia
• Lógica

• Metaphysics = Ontology + Cosmology
• Theory of Value = Ethics + Æsthetics
• Methodology [ou Crítica] = Epistemology + Logic
― ... (1992) Collier's Encyclopedia, p. 

Ontologia (= Metafísica)
[Cosmologia; passou para a física, a astrofísica e a astronomia]
Axiologia (= Ética + Estética)
Epistemologia
[Lógica; passou para as matemáticas e a engenharia de computadores ]

• Concepção do universo = metafísica (da natureza e do espírito) + teoria do universo
• Teoria dos valores = ética + estética + filosofia da religião
• Teoria da ciência = formal (lógica) + material (teoria do conhecimento: geral e especial)
― Johannes Hessen (1925) Teoria do conhecimento [7.ª ed. 1976, trad. António Correia. Ed. Arménio Amado, Coimbra]. (v. pp. 19-20) 

• Ontology = theory of existence = questions about the general nature of the World
• Ethics = theory of value = questions about the conduct of everyday life
• Epistemology = theory of knowledge = questions about the justification of belief
― Honderich (2005) The Oxford Companion to Philosophy, New Edition, p. 702

Portanto, temos:
• Teoria da existência = Ontologia: Ser ― o que é (p. ex.) uma cadeira?
• Teoria dos valores = Axiologia: Agir ― como deve agir (como deve ser) uma cadeira? [isto só funciona em objectos humanos]
• Teoria do conhecimento = Epistemologia: Saber ― como sabemos o que é e como deve agir uma cadeira?

(...) philosophy came to address three big themes: 
• the works of nature [existência, ser, ontologia],
• the works of humankind [valores, agir, axiologia], and 
• the endeavor to establish physically and cognitively productive interactions between the two [conhecimento, saber, epistemologia].
The task of the discipline was thus to address “the big questions” regarding humans, the world, and our knowledge of it.
― Nicholas Rescher (2015) A Journey through Philosophy in 101 Anecdotes. University of Pittsburgh Press, p. 1

In contemporary philosophy the principal areas of enquiry are 
• epistemology,
• metaphysics,
• logic, 
• ethics, 
• aesthetics, 
• the philosophy of mind, 
• the philosophy of language, 
• political philosophy, 
• the history of debates in these areas of enquiry, and 
• philosophical examination of the assumptions, methods and claims of other fields of enquiry in science and social science. 
― Anthony C. Grayling (2019) The History of Philosophy

Na Idade Média:
• Dialética > Lógica
• Ética
• Física > Filosofia Natural + Metafísica + Epistemologia

E mais tarde:
• Filosofia Natural > as Ciências e a Lógica 
• Filosofia Moral = Ética (+ Estética ?)
• Metafísica

Perguntas e tópicos:
Ontologia : Sommes-nous réellement libres ?
Ontologia : Quel est le sens de la vie ?
Ontologia : Pourquoi y a-t-il quelque chose plutôt que rien ?
Ética : Comment devons-nous nous comporter ?
Ética : Comment devons-nous nous organiser ?
Ética : La justice est-t-elle possible ?
Estética : Pourquoi l'art nous émeut-il ?
Epistemologia : Est-il raisonnable de croire en Dieu ?
Epistemologia : Que peut-on connaître ?
Epistemologia : Qu'est-ce que la vérité ? 
La justice : Platon, Aristote, Habermas...
L’éthique : Nietzsche, Sénèque, Socrate, Épicure...
La connaissance : Kant, Descartes, Hume…
La vie en société : Hobbes, Marx, Machiavel, Rousseau…
Le sens de la vie : Schopenhauer, Sartre, Kierkegaard…
La vérité : Leibniz, Wittgenstein, Foucault…
― https://www.apprendreaphilosopher.fr/

1. Qual è l’origine del tutto?
2. Esiste la verità?
3. Che cosa significa pensare?
4. Che cos’è il linguaggio?
5. Come funziona la mente?
6. Che cosa significa conoscere?
7. Che cos’è la sostanza?
8. Che cos’è la realtà?
9. Esiste un metodo scientifico?
10. Che cos’è un uomo?
11. Che cos’è il corpo umano?
12. Che cosa definisce l’esistenza?
13. Come bisogna vivere?
14. Che cos’è il tempo?
15. Che cos’è la materia?
16. Che cos’è la vita?
17. Che cos’è l’amore?
18. Come distinguere fra sogno, veglia e follia?
19. Come è nata la società?
20. Vi è rapporto fra morale e politica?
21. Che cos’è lo stato?
22. La storia è progresso?
23. È possibile la pace?
24. Chi è Dio?
25. Si può provare l’esistenza di Dio?
26. Com’è possibile la salvezza?
27. Fede e ragione: opposizione o accordo?
28. Che cos’è la bellezza?
29. Che cos’è la filosofia?
― Ubaldo Nicola (2020) Filosofia. Antologia illustrata. Giunti.

1 Knowledge
2 Mind
3 Free Will
4 The Self
5 God
6 Reasoning
7 The World
8 What to do 
― Blackburn (1999) Think - A Compelling Introduction to Philosophy

Thinking & Reasoning
Deductive, Inductive & Abductive Reasoning
Judgement & Decision Making
Problem Solving, Intelligence & Creative Thinking
Modes of Thinking (Quantitative, Visualspatial, Gesture)
― Holyoak & Morrison (2012) The Oxford Handbook of Thinking and Reasoning

Entertaining, Judging & Reasoning
Concept Formation
Problem Solving
Deliberation & Decision
Episodic Memory & Imagination

Basic Tools for Argument
More Advanced Tools
Tools for Assessment
Tools for Conceptual Distinction
Tools of Historical Schools
Tools for Radical Critique
Tools at the Limit
― Baggini & Fosl (2010) The Philosopher's Toolkit - A Compendium of Philosophical Concepts and Methods

METHODS:
• questioning
• rational argument
• critical discusion


SINÓNIMOS (+  ̶ ):
argumentar
calcular
cismar
cogitar
compreender
conceber
concluir
considerar
cuidar
discutir
imaginar
julgar
matutar
meditar
pensar
planear
planejar
ponderar
prever
raciocinar
reflectir
reflexionar
supôr
tensionar


PARA A ETIQUETA:
Pensar e Raciocinar
Razão e Justificação
Raciocinar e Argumentar


Grayling (2019) The History of Philosophy. Penguin.
(p. 382, end of chapter on Analytic Philosophy) 
«It is worth mentioning at the outset that the word ‘analysis’
itself denotes a number of different techniques. It can mean
breaking something down into its constituents; that is
‘decomposition’, as when one takes a watch apart to inspect
the mechanism. It can mean showing that something can be
explained in terms of something else which is more basic than
it; that is ‘reduction’, as when one shows that thoughts in the
mind are electro-chemical activities of neurons in the brain. It
can involve looking for the ‘essence’ or defining properties of
something. It can involve putting a concept into an illuminating
relationship with other concepts, as when one sees that
understanding the concept of ‘necessity’ is fruitfully enhanced by
understanding its relations with ‘possibility’ and ‘actuality’. It can
involve interpreting or translating a concept into other, clearer
concepts. It can involve tracing the history of the development
of a concept. Standardly, the techniques of Analytic philosophy
are a combination of some, most or all of these procedures.
The aim is clarification and understanding: the ambition is that
the knottiest problems of philosophy might thereby be solved
(or, as some thinkers hope in relation to some traditional
problems, ‘dissolved’, that is, shown not to be problems at all).»

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Notas sobre a riqueza expressiva da língua galega ou portuguesa

trigger = espoleta (IT) ~ disparador (LA) ~ gatilho (ES) ~ escora (LA via IT) 

~ detonador ~ deflagador ~ desencadeador

ficar obrigado, e não ser/estar obrigado

6 maneiras de expressar o futuro em português (Marco Neves, Gramática p. 58):
1. Sim, eu falo com o João.
2. Sim, eu vou falar com o João.
3. Sim, eu falarei com o João.
4. Sim, eu hei-de falar com o João.
5. Sim, eu irei falar com o João.
6. Sim, eu haverei de falar com o João.

recepção
espectador
concepção
céptico
característica

superba, adj.
soberba, nome

chão ― popular
porão (arc. prão) ― semicultismo
plano ― cultismo
lhano ― espanholismo
piano ― italianismo
E são todas derivadas do latim planum. Pilar Vázquez Cuesta, Gramática, p. 264.

shade
matiz é castelhano
nuance é francês
cambiante é que é português! 

os vários sons do X:
/sem valor fonético/ excepto, excitante, excesso, excepção, excelente (Br)
/s/ extra, texto, explorar, extrair, extinção, experiência, expectativa, extremo, externo (Br)
/z/ executo, exército, exemplo, exímio, exame, êxito, exagero
/cs/ fixo, anexo, flexível, fluxo, clímax, índex, reflexo
/ss/ próximo, sintaxe, auxiliar, máximo
/ch/ luxo, lixo, paixão, mexer, xadrez, enxame, taxa 
/gz/ exímio (antigamente)



Pôr acentos é fácil na escrita à mão, mas é muito chato de fazer num teclado, seja no computador, seja na máquina de escrever. Quando Gonçalves Viana nasceu (1840) ainda não havia máquina de escrever (que foi inventada por um brasileiro em 1861, mas anunciada por um americano em 1874). Ora, quando ele criou a sua ortografia fonética, em 1883, ainda se escrevia sempre à mão (mesmo textos que eram para ir para o prelo), daí a rica acentuação que ele incluiu como modificadores fónicos. Quando ele a publicou, já a máquina de escrever era comum [Mas os tipógrafos franceses do século XVI preferiam os acentos, porque poupava um carácter, enquanto que os escrivãos preferiam as consoantes mudas, porque serviam de acentuação sem ser preciso levantar a pena do papel ― na língua francesa foram, portanto, os tipógrafos que ganharam!]

https://computatiolusitana.wordpress.com/2021/09/27/uma-maquina-de-escrever-construida-em-lingua-portuguesa/


fenestra > *fẽestra > fiestra, fresta
ianua > ianuella > janela
ventana > ventãa > venta

carga ― cárrega [v. Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno]
cargo ― cárrego [galego]
cronha ― coronha [v. Camilo, Novelas do Minho]
crónica ― corónica [d'el Rey Dom Fernando, Fernão Lopes]
Crunha ― Corunha
provável ― probable


Rafaela Fiandeiro - Tradutora e Revisora (FB 17/11/2021)
Qual a opção correta?
a) A greve foi desconvocada à última hora.
b) A greve foi desconvocada à última da hora.
Miguel Prôa:
Eu advogo que ambas estão correctas. Naturalmente que, no português escrito, a 𝘯𝘰𝘳𝘮𝘢 da língua manda usar a opção a), mas na oralidade eu uso muito a b), que é 𝘯𝘰𝘳𝘮𝘢𝘭 na minha terra. O «da» funciona como partícula expletiva ou de realce, que realça o sentido da frase mas não está lá a fazer nada. Como em "o que é que é isto?" ou "vamos lá!": o segundo «é que» e o «lá» são desnecessários e não se escreveriam num texto formal, mas na fala dão ênfase ao que se quer dizer. Corrija-me se eu estiver enganado.


GALEGO
auga ― água
cáxeque ― quase que
secomasi ― assim como assim (assi com'assi)
de feito ― de facto
coas ― com as [v. Prontuário de F. Xavier Roberto & Luís de Sousa, p. 37]
bágoas ―lágrimas
limiar ou soleira ou adro ― (entrada) prólogo, preâmbulo
cabo ― conclusão, fim
seica, seique ― sei que, talvez, se calhar
tamém ou tamẽ ― também
home ― homem
amanhá ― amanhã
anda más eu ― anda mais eu, anda comigo, vem comigo
precura ― pergunta, procura
eu fum ― eu fui (funh'eu, diz-se na minha terra, que não fica a norte do rio Douro... não fica sequer a norte do rio Tejo!)
neno, nena ― menino, menina (mê neno? 'nha nena?)
canle ― cãle (s.f. = canal, ex. de televisão, de YouTube)
senlheiro ― sẽlheiro (só, sòzinho, singular, solitário)




Pequeno Vocabulário de Estrangeirismos (incl. latinismos):

abalar, do verbo latino advallare, «descer pró vale», «ir para baixo».

aborígene, da locução latina ab origine, «desde a origem», habitantes naturais de um país ou região.

azulejo, do verbo árabe zullaja, «deslizar, escorregar», do substantivo az zullaiju, «coisa lisa, pedra lisa», ou do adjectivo diminutivo zuluj «liso(inho), escorregadio(zinho)» (Orlando Neves, 2001, Dicionário da Origem das Palavras, Círculo de Leitores).

badameco, do latim vade mecum, «vai comigo», e era (e é ainda, às vezes) o nome que os estudantes em Coimbra damos à pasta que carregamos sempre de um lado para o outro. Não é a pasta que é importante, o que vem lá dentro é que é (os apontamentos, os livros ― mas tantas vezes andamos com ela vazia!).

Darios (como Carlos ou Marcos), e não Dario nem Dário. É o que devia ser, mas a forma «Dário» é que pegou.

energia, entalpia, entropia

janela, do latim ianus, passagem; ianua, «porta de entrada», cujo diminutivo em -ella deu ianuella, «pequena passagem». Na Galiça preferem fiestra, do latim finestra pela conhecida queda do N intervocálico; que também deu fresta e os adjectivos fenestrado defenestrado. A palavra ventana, que parece tão espanhola, é latim que passou a ventãa pela nasalização da vogal anterior ao N, depois ventã e também venta, para depois regressar, por via erudita, a ventana.

meiga, s. f. maga, bruxa, feiticeira, que é a acepção que ainda hoje tem prós galegos. Vem do latim magicus, que deu mágico, magia, mas também maga, meiga, meigueira, meiguices, que depois se transmutou a sul do Minho (do Vouga?) em adjectivo querendo dizer carinhosa, doce, afável, atraente.

mirabolante, do francês antigo mire = médico, e bolus = pílula: Bon mire est qui sait garir / quand il amend au malade, il empire au mire [Bom médico é quem sabe curar / quando isso faz melhor ao doente, faz pior ao médico]. Hauteroche, autor dramático do séc. XVII, pôs em cena um médico que tratava os seus doentes com pilulas, com resultados extraordinários, surpreendentes, e deu-lhe o nome de Dr. Mirabolant (Orlando Neves, 2001, Dicionário da Origem das Palavras, Círculo de Leitores, p. 173).

missa, particípio do verbo latino mittere, «enviar, deixar ir, despedida» (Orlando Neves, 2001, Dicionário da Origem das Palavras, Círculo de Leitores, p. 174). Emissário, missiva, missão.

pregunta, preguntar

negócio, não-ócio, do latim nec otium, o que se faz fora das horas vagas.

novela, pequena nova, pequena notícia; pequena narração de um facto. Em français, des nouvelles = novas [notícias]; em inglês, news = novas [notícias]. Do diminutivo latino novella, radical nova + sufixo diminutivo ella.

vendaval, tradução do francês vent d'aval [vento de juzante], «vento que vem de baixo, que vem do vale» (Orlando Neves, 2001, Dicionário da Origem das Palavras, Círculo de Leitores, p. 228).

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Alternativas ortográficas pera algũas palavras

Por exemplo, aquele «pera» no título desta portagem é uma alternativa gráfica à preposição «para», como se pode ver nas edições do século XVI de Gil Vicente, que usam ambas as formas. E não é para ser lido /pêra/, nem /péra/, mas sim /p'ra/, que é como toda a gente por essa lusofonia fóra pronuncia; só que a palavra é para continuar grave (paroxítona, com assento na penúltima sílaba), portanto a tónica é no e, lido /ɨ/, ali representado pelo apóstrofo. Admissìvelmente, isto não funciona na mór parte dos falares brasileiros, mas não deixa de ser uma alternativa: /pɨɾɐ/ = /pɐɾɐ/ = /pɾɐ/.

ũu ou hũ ― um
ũa ou hũa ou umha ― uma, um-a
algũu ― algum (*alguno)
algũus ― alguns
algũa ― alguma
algũas ― algumas
nengũu ― nenhum (nẽ ũu, nem um)
nengũus ― nenhuns
nengũa ― nenhuma
nengũas ― nenhumas
nengures ― nenhures
*alguẽ ― alguém
*ninguẽ ― ninguém, *ninhém

-ã, -am, -an, -ãe, -ane, -ão
-ãs, -ans, -ans, -ães, -anes, -ães
-ẽ, -em, -en, ---, -ene, ---
-ẽs, -ens, -ens, ---, -enes, ---
-ĩ, -im, in, -ĩe, -ine, -ĩe
-ĩs, -ins, ins, -ĩes, -ines, -ĩes
-õ, -om, -on, -õe, -one, -ão
-õs, -ons, -ons, -ões, -ones, -ões
-ũ, -um, -un, -ũe, -une, -ũe
-ũs, -uns, -uns, -ũes, -unes, -ũes

adolescente ― adolecente
ascensão ― *acensão
ascender ― *acender
consciência ― conciência
disciplina ― diciplina
nascer ― nacer

avondança ― *avondância
abundança ― abundância
*carença ― carência
*ciênça ― ciência
consciença ― consciência
*conseqüença ― conseqüência
constança ― constância
diferença ― *diferência
*existença ― existência
*florescença ― florescência
*freqüença ― freqüência
*Galiça ― *Galícia
justiça ― *justícia
matança ― *matância
*minudença ― minudência
mudança ― *mudância
*permanença ― permanência
presença ― *presência
substança ― substância
sustança ― sustância
Valença ― *Valência
vivença ― vivência

*Antonho ― António
escarnho ― escárnio
*Lusitanha ― Lusitânia

acepção ― *aceição
cacto ― *queito
*concepto ― conceito
conceptual ― conceitual
facção ― feição
facto ― feito
factura ― feitura
*lacte ― leite
nocturno ― *noiturno
percepção ― *perceição
recepção ― *receição
*recepta ― receita
tecto ― teito

*aceção ― acepção
*adotar ― adoptar
*ártico ― árctico
assumptivo ― assuntivo
batismo ― baptismo
*cato ― cacto
contactar ― *contatar
dactilografia ― *datilografia
dialética ― dialéctica
*fação ― facção
*láteo ― lácteo
Netuno ― Neptuno
olfato ― olfacto
ótimo ― óptimo
*perceção ― percepção
táctil ― tátil

adjecção ― *adjèção ― *adjeição
acepção ― *acèção ― *aceição
afecção ― *afèção ― afeição
colecção ― *colèção ― *coleição
concepção ― *concèção ― conceição
correcção ― *corrèção ― correição
decepção ― *decèção ― *deceição
deplecção ― *deplèção ― *depleição
detecção ― *detèção ― *deteição
dilecção ― *dilèção ― *dileição
direcção ― *dirèção ― *direição
*elecção ― *elèção ― eleição
excepção ― *excèção ― *exceição
inspecção ― *inspèção ― *inspeição
objecção ― *objèção ― *objeição
percepção ― *percèção ― *perceição
prelecção ― *prelèção ― *preleição
projecção ― *projèção ― *projeição
prospecção ― *prospèção ― *prospeição
protecção ― *protèção ― *proteição
recepção ― *recèção ― *receição
reflexão ― *reflèção ― *refleição
secção ― *sèção ― *seição
selecção ― *selèção ― *seleição
su(b)jecção ― *su(b)jèção ― su(b)jeição
trajectória ― *trajètória ― *trajeitória

afecto ― *aféto ― afeito
arquitecto ― *arquitéto ― arquiteito
aspecto ― *aspéto ― *aspeito
colecto ― *coléto ― *coleito
correcto ― *corréto ― correito
dilecto ― *diléto ― *dileito
directo ― *diréto ― direito
*efecto ― *eféto ― efeito
*electo ― *eléto ― eleito
erecto ― *eréto ― *ereito
inspecto ― *inspéto ― *inspeito
intersecto ― *interséto ― *insterseito
objecto ― *objéto ― *objeito
pecto ― *péto ― peito
projecto ― *projéto ― *projeito
recta ― *réta ― *reita
reflecto ― *refléto ― *refleito
selecto ― *seléto ― *seleito
su(b)jecto ― *su(b)jéto ― su(b)jeito
tecto ― *této ― teito

https://www.flip.pt/Duvidas-Linguisticas/Duvida-Linguistica/DID/506

tacto ― *teito
tecto ― *teito
factura ― feitura
concepto ― conceito
cacto ― *queito
acção ― *eição

coação /kwɐˈsɐ̃w̃/ ― de coar
coacção /kwaˈsɐ̃w̃/ ― de coagir
co-acção /koaˈsɐ̃w̃/ ― de agir com
[com o AO1990 todas se escrevem *coação, que é suposto ler-se com as três prosódias diferentes /cuâ/, /cuá/ ou /côá/ segundo o contexto; mas como as três, num discurso corrente, escorreito, se pronunciam sensìvelmente da mesma maneira ~/cuá/, é a grafia lida que as distingue, clarificando instantâneamente o contexto]

Uso do hífen:
caravela portuguesa ― um navio
caravela-portuguesa ― um animal

pé de meia ― uma peúga, roupa
pé-de-meia ― dinheiro, poupança

o pôr do Sol ― o ocaso do verdadeiro Sol
o pôr-do-sol ― o fim de uma coisa qualquer

fim de semana ― 5.ª ou 6.ª, se for para pagamentos
fim-de-semana ― só mesmo o Sábado e o Domingo

electrónico ― AO1945 (oficial pt-ao)
eletrónico ― AO1990 (oficial pt-pt)
eletrônico ― AO1990 (oficial pt-br)
electrônico ― AO1990 (alternativa pt-br)

carácter práctico ― antes de 1911
carácter prático ― ON1911 etc.
caráter prático ― AO1990 pt
caráter práctico ― nunca usado

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Elina Albach toca Johann Sebastian Bach

Partita no. 5 in G major BWV 829 - Albach | Netherlands Bach Society

Principalmente a interpretação do minueto (15:48), com uso de ambos os teclados, é fenomenal.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Heterografias, diferenças ortográficas e ortografia pessoal ― notas avulsas

Há quem tenha muitos problemas com ortografias pessoais. Porque toda a gente devia escrever da mesma maneira, dizem. E este preconceito está na base das regras ortográficas de 1990, cujo objectivo declarado era fazer com que as duas maneiras oficiais de escrever português se refundissem numa só. Porém, esse objectivo não pode ser atingido com estas regras: se antes havia duas ortografias para a língua, agora há... três! Porque há o uso brasileiro, o uso europeu e o uso angolano, porque Angola, o segundo país com mais falantes nativos do idioma, mantém em uso oficial as regras ortográficas de 1945. E se contássemos o idioma galego moderno seriam cinco ortografias, já que os galegos usam duas, uma oficial e outra, digamos, natural.

Mas macro-considerações à parte, mesmo se se aplicasse a ortografia de 1990 universalmente, continuariam a existir inúmeras palavras que se escreveriam diferentemente entre países ― ou mesmo entre regiões do mesmo país. Não me refiro, claro, ao uso de palavras diferentes para designar um mesmo conceito («ônibus = machimbombo = autocarro»), mas à mesma palavra que tem grafia ligeiramente diferente mesmo aplicando todas as regras de 1990. Vejamos exemplos:

Palavras:
aluguer ― aluguel
amígdala ― amídala
amnistia ― anistia
andebol ― handebol
beringela ― berinjela
bosão ― bóson
cãibra ― câimbra
colagénio ― colágeno
câmara ― câmera
camião ― caminhão
casino ― cassino
champô ― xampu
connosco ― conosco
comummente ― comumente
desporto ― esporte
dezasseis ― dezesseis
dezassete ― dezessete
dezanove ― dezenove
eletrão ― elétron
equipa ― equipe
escuteiro ― escoteiro
esparguete ― espaguete
estado-unidense ― estadunidense
fotão ― fóton
golo ― gol
hidroelétrico ― hidrelétrico
húmido ― úmido
ião ― íon
íman ― ímã
indemne ― indene
K [capa] ― K [cá]
lavandaria ― lavanderia
maquilhagem ― maquiagem
microvilosidade ― microvilo
missanga ― miçanga
Neptuno ― Netuno
o/a nómada ― o/a nômade
omnisciente ― onisciente
o palindroma ― o palindromo
percentagem ― porcentagem
quotidiano ― cotidiano
rasto ― rastro
registo ― registro
ruptura ― rutura
súbdito ― súdito
subtil ― sutil
terramoto ― terremoto
verosímil ― verossímil

Aquilo é uma lista alfabética, mas consigo organizar algumas das palavras em grupos, seja pela falta de uma consoante, pela alteração de uma letra ou fonema, pela terminação, etc.

amígdala ― amídala
amnistia ― anistia
andebol ― handebol
indemne ― indene
Neptuno ― Netuno
omnisciente ― onisciente
ruptura ― rutura
connosco ― conosco
comummente ― comumente

beringela ― berinjela
missanga ― miçanga

barião ― bárion
bosão ― bóson
electrão ― elétron
fotão ― fóton
ião ― íon
neutrão ― nêutron
protão ― próton
etc...

câmara ― câmera
dezasseis ― dezesseis
dezassete ― dezessete
dezanove ― dezenove
equipa ― equipe
escuteiro ― escoteiro
lavandaria ― lavanderia
terramoto ― terremoto

champô ― xampu
desporto ― esporte
esparguete ― espaguete
golo ― gol
maquilhagem ― maquiagem

estado-unidense ― estadunidense
hidroelétrico ― hidrelétrico

aluguer ― aluguel
o/a nómada ― o/a nômade
o palindroma ― o palindromo
percentagem ― porcentagem

camião ― caminhão
húmido ― úmido
íman ― ímã
quotidiano ― cotidiano
registo ― registro
súbdito ― súdito
subtil ― sutil

A meu modesto ver, se os lingüistas insistem mesmo em que é preciso escrever cada palavra de uma só maneira, estas é que eram as palavras cuja ortografia se deviam preocupar em unificar! Porque não há uma razão válida para escolher entre uma ou outra forma da palavra ― quando muito pode-se escolher um critério, ou mais etimológico («berinjela», do árabe, e todas as palavras do árabe se transcrevem com j para o som /ʒ/), ou mais consagrado pelo uso («beringela», forma que aparece em todos os dicionários desde Bluteau, excepto no Aurélio). Não havendo consenso, escolher-se-ia uma das possibilidades em troca-por-troca, com sensatez e boa vontade: a mim, não me incomodaria nada escrever «conosco, úmido, registro» se do outro lado aceitassem escrever «amnistia, estado-unidense, ião», por exemplo. Fazer esta escolha seria mais unificador do que prescrever a ausência ou não de consoantes diacríticas (ditas «consoantes mudas») ou a alternância de acento tónico entre agudo e circunflexo. 

Os termos científicos, principalmente, que tantas vezes vêm de línguas estrangeiras por traduções feitas ad hoc pelos próprios cientistas, quase sempre sem competências de tradução, têm ortografias tão díspares que dificultam muito a troca de ideias em português! Não me refiro aqui a casos de decalque direito, sem razão de ser, de outra língua, como «a mídia», muito usado no Brasil, tida como feminina talvez porque acaba em a, mas vindo da pronúncia inglesa da palavra latina media, plural de medium, que em português se diz «meio», logo deveria ser «os media», plural masculino, ou melhor ainda «os meios». Coisas destas eu acho simplesmente um erro, como o é reset, palavra muito usada em Portugal, mas pronunciada /rèzéte/ em vez de /risséte/, e posta como substantivo («o /rèzéte/») quando é um verbo (to re-set) e, como tal, devia usar-se simplesmente «repôr».

Há ainda outras divergências que não são niveladas pelas regras de 1990, como nos acentos, e noutras que são mais de uso e de sintaxe mas que talvez pudessem ser arrumadas numa ortografia coesa ― ou melhor ainda: assumir de vez que «prémio» e «prêmio» são a mesmíssima palavra, e não duas palavras cada uma com a sua ortografia, como tanto se vê por essa Wikipédia afora!

Acentos:
bebé ― bebê
cónego ― cônego
[forma ― fórma ― fôrma]
gémeo ―gêmeo
judo ― judô
metro ― metrô

Locuções:
no/ao meio de ― em meio a/ao
debaixo ― embaixo
levar a conhecer ― levar para conhecer
depois de eu ter feito ― depois que eu fiz
chamar ... à/ao ― chamar de ... a/o

Género e número:
a sanduíche ― o sanduíche
a feromona ― o feromônio
a hormona ― o hormônio
a trilobite ― o trilobita
a orbital atómica ― o orbital atômico
a carpete ― o carpete
as calças ― a calça

Países e cidades:
Amsterdão ― Amsterdã
Bagdade ― Bagdá
Banguecoque ― Bancoque
Chade ― Tchade
Chéquia ― Tchéquia
Copenhaga ― Copenhague
Helsínquia ― Helsinque
Irão ― Irã
Madagáscar ― Madagascar
Mali ― Máli
Maurícias ― Maurício
Moscovo ― Moscou
Teerão ― Teerã
Vietname ― Vietnã

Mesmo com as regras de 1990 mantêm-se, divertidamente, as escritas duplas de tantas e tantas palavras típicas, com significado estável, que extravasam as fronteiras de países, regiões ou mesmo bairros. Só pelo hábito ― e não por uma imposição ― uma versão poderá suplantar outra. Nas festas da minha terra aparece sempre a tradicional discussão sobre se se escreve «febras» ou «fevras» (ou «fêveras»)! Eu advogo que nenhuma está errada e que todas se devem usar.

abdómen ― *abdome
açoute ― açoite
afouto ― afoito
arqueiro ― archeiro
assobio ― assovio
beber ― *bever ― *beuer, *buer
bouça ― boiça
cenoura ― *cenoira
cobarde ― covarde
couro ― coiro
cousa [galego] ― coisa
doudo ― doido
Douro ― Doiro
dous [galego] ― dois
entrepôr ― interpôr
espécimen ― espécime
febras ― fevras ― fêveras
flauta ― frauta
flecha ― frecha
flor ― fror
germe ― gérmen
hífen ― *hife
louça ― loiça
louco ― *loico
loura ― loira
mouro ― moiro
*noute ― noite
ouça ― oiça
ouro ― oiro
*outo ― oito
ouvir ― *oivir
papoula ― papoila
percêbes ― percêves
pouso ― poiso
planta ― pranta
pública ― *púbrica
quando ― cando [galego]
quatorze ― catorze
quatro ― catro [galego]
regímen ― regime
ruptura ― rotura
saudade ― soidade
Setúbal ― *Setúval
sobreiro ― sovereiro
tanja ― *tângera
tesouras ― tesoiras
touro ― toiro


Regressando ao assunto da ortografia pessoal, eu tendo a escrever com uma ortografia que exprima aquilo que quero dizer. Daí que faça uso do acento grave e do trema como tinha sido justificado nas regras de 1911 (modificadas em 1920 e base da acentuação do Formulário de 1943), nas quais as palavras, apesar de ficarem pejadas de acentos que antes não tinham, ficam com uma grafia muito mais legível («aqüífero», que eu já ouvi gente a ler */akífero/; «peùgada», que Camilo escrevia «piúgada», não pode ser com i porque vem de «peúga» (de «pé»), mas «peugada» tende a ser lida como ditongo, */pêugáda/).

-qüe, -que
-qüi, -qui
[saüdade]
[faïscar]
[O uso do trema para os hiatos é mais dúbio, porém, e eu tendo a usá-lo apenas no qu-, senão acaba por dividir famílias de palavras: «faïscar» mas «faísca»... E teria de ser «*caïr», «*saïr», mesmo «peügada».]

prègar
inclusivè
vicè-
Gùiana
sòmente
vàlidamente
[Sem acento tendo a ler */valìdamente/.]

E o problema das regras ortográficas de 1990 é que, justamente, não me permitem exprimir o que eu quero dizer. A palavra «coleção» sem c não se lê necessàriamente da mesma maneira que «colecção» com c: pode muito bem ler-se */cólção/, como «colesterol» é lido /cól-che-tról/ por gente portuguesa, e /có-lêss-tê-róu/ por gente brasileira. O mesmo para «direção» (*/dirção/), «diretor» (*/dirtor/); «tecto» escrito «teto» ler-se-á */têto/, e não /této/. E não apenas fonològicamente: «adoção» torna-se o acto de adoçar, e não o de adoptar. E se do substantivo «sintaxe» vem o adjectivo «sintáctico», nada impede que «sintático» (sem c) venha de *sintato, ou ― já agora ― que de «sintaxe» venha *sintáxico, *sintásico, *sintássico ou *sintácico... 

*aceção ― acepção
*adotar ― adoptar
*perceção ― percepção

afecto ― *aféto ― afeito
directo ― *diréto ― direito
su(b)jecto ― *su(b)jéto ― su(b)jeito
tecto ― *této ― teito

Por outro lado, há que admitir que o idioma falado muda. Não sou contra uma a[c]tualização da grafia que responda às necessidades da fala. Por exemplo, as palavras da família de «acção», e semelhantes, podem perfeitamente beneficiar da queda do c diacrítico. Já quase ninguém em Portugal lê */àtuar/, nem */àtividade/, nem */àtriz/, isto é, o a tende a fechar ― já não faz sentido o c; já no Brasil ele tende a ser sempre aberto, quer tenha c ou não tenha. Há vários outros exemplos:

ação, coação, exação, inação, interação, reação, redação, transação
ativo, coativo, exativo, inativo, interativo, reativo, redativo, transativo
ato, coato, exato, inato, interato, reato, redato, transato

acionar, etc.
atividade, etc.
atual, etc.
atuar, atriz

ano 1257: acçõ
ano 1340: auçom
ano 1352: aucçom
ano 1352: acção

caráter, caraterística,
ótimo, otimização,
perentório

Neste sentido a Academia das Ciências de Lisboa propõe um aperfeiçoamento da ortografia preconizada em 1990 [ref]. Eu não concordo com tudo (os grupos -ect- parecem-me particularmente discutíveis), mas eu sou apenas um amador.

ação, acionar, 
abstrato, abstracionismo, 
[afetivo,] 
atual, 
atuar, 
batizar, 
[coleção,] 
[direção, diretor,] 
exato, 
noturno, 
ótimo, otimista, 
[projeto] 

Apesar de todas estas regras e diferenças e assim-ou-assado, a base ideológica disto tudo é que me incomoda. Mas porque é que não podia haver duas maneiras de escrever a língua? E porque é que cada pessoa não pode escrever como muito bem quiser, aliás como se fazia até ao século XX? Isto ultrapassa-me.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

As Artes, um pequeno apontamento

Word cloud made with https://wordart.com/.

The Arts
Major constituents of the arts include literature – including poetry, novels and short stories, and epics; performing arts – among them music, dance, and theatre; culinary arts such as baking, chocolatiering, and winemaking; media arts like photography and cinematography, and visual arts – including drawing, painting, ceramics, and sculpting. Some art forms combine a visual element with performance (e.g. film) and the written word (e.g. comics).

As Artes de Vasari
• Pintura, 
• Escultura, 
• Arquitectura.

As Artes Ornamentais
• O vitral, a pintura mural, a miniatura gótica.
• Orfèvrerie, émaillerie, tapisserie.
• Azulejaria, loiça, vidros.
• Mobiliário e interiores.

Artes liberales
• Trivium – an introductory curriculum involving grammar, rhetoric, and logic.
• Quadrivium – a curriculum involving the "mathematical arts" of arithmetic, geometry, music, and astronomy.

Artes mechanicae
Johannes Scotus Eriugena (9th century) divides them somewhat arbitrarily into seven parts:
• vestiaria (tailoring, weaving)
• agricultura (agriculture)
• architectura (architecture, masonry)
• militia and venatoria (warfare and hunting, Military education, "martial arts")
• mercatura (trade)
• coquinaria (cooking)
• metallaria (blacksmithing, metallurgy)
In his "Didascalicon," Hugh of St Victor (12th century) includes navigation, medicine and theatrical arts instead of commerce, agriculture and cooking.

Referências
[Esqueci-me de as apontar... logo, infelizmente, não faço ideia de onde é que estas coisas vêm...]