«Não se conhecem ao norte do Douro nenhuns vestígios materiais da presença dos mouros e são reduzidos os nomes de lugares de origem árabe. O próprio vocabulário comum se serve de palavras românicas para designar objectos, medidas, operações agrícolas que no Sul se exprimem por vozes arábicas. Em Trás-os-Montes diz-se segada e decrua (lavoura anterior à sementeira), no Alentejo, ceifa e alqueive; no Norte chama-se rasa, libra, cântaro às medidas que no Sul se designam por alqueire, dois arráteis, meio almude; ali diz-se caleira (cano para escoar a água dos telhados), copos, aqui algeroz, alcatruz; a um caminho apertado entre muros ou sebes chama-se quelha no Norte, azinhaga no Sul. Uma pesquisa sistemática mostrou o emprego de umas quinze palavras arábicas no Sul, a que correspondem, no Norte, palavras românicas (ou mais antigas) e mais de um cento de «pares» destas duas origens (...).»
― Orlando Ribeiro (1987) A Formação de Portugal, p. 42.
«(...) Dos "pequenos teatros, animatographos, e variedades" de início do século, (...) o centro de Lisboa assistirá a partir dos anos 1910 à construção de grandes cinemas. (...) A sofisticação destes espaços [grandes edifícios de cinema] assinalava a autonomização do cinema como forma artística de pleno direito, bem como a emergência da cinefilia como prática cultural cosmopolita (...) das classes médias e elites culturais urbanas. (...) O desenvolvimento da produção e da exibição expandira o cinema à elite (...).»
― Luís Trindade (2020) «Dar espetáculo: A cultura em Portugal no século XX», in O Século XX Português, pp. 314-315.
«(...) o uso metonímico do feminino ("a leitora de fotonovelas") para desqualificar as preferências do público popular (...)»
― Luís Trindade (2020) «Dar espetáculo: A cultura em Portugal no século XX», in O Século XX Português, p. 328.
«A insistência dos intelectuais na imagem de fragilidade do público feminino exposto à influência da cultura de massa revelava, como vimos, uma ansiedade que ia muito para lá do perigo de corrupção cultural das mulheres. Os sujeitos sociais [neste caso, as mulheres] e a sua agência política [liberdade para agir, escolher, decidir] assumem frequentemente um valor metonímico [a parte pelo todo] nos valores culturais, como temos visto.»
― Luís Trindade (2020) «Dar espetáculo: A cultura em Portugal no século XX», in O Século XX Português, p. 335.
«Rindo daquilo que constituía a sua principal forma de entretenimento quotidiano [as telenovelas], os portugueses pareciam estar não só de alguma forma a rir-se de si próprios, (...) como também a revelar uma capacidade de distanciamento que os intelectuais conservadores nunca reconheceram ao público dos espetáculos urbanos.»
― Luís Trindade (2020) «Dar espetáculo: A cultura em Portugal no século XX», in O Século XX Português, p. 347.
«(...) mais um exemplo de outro aspeto da nossa história, a da indisciplina que contraria as regras da elite (...) permite-nos também suspeitar de que o que sempre foi verdadeiramente insuportável para a crítica conservadora foi a possibilidade de aquela gente se estar mesmo a divertir.»
― Luís Trindade (2020) «Dar espetáculo: A cultura em Portugal no século XX», in O Século XX Português, p. 351.
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