domingo, 1 de fevereiro de 2015

O Minueto

Ao canto do salão, olhos vagos no espaço,
ele em púrpura e ouro, ela empoada à francesa,
o senhor Cardeal e a senhora Duquesa
assistem, conversando, a um serão do Paço.

Marca Lucas Giovine o solene compasso;
dança o minueto de Haydn a corte e Sua Alteza:
e os dois velhos, lembrando a antiga gentileza
e o tempo em que, amoroso, ele lhe dava o braço,

balbuciam, sorrindo, um tímido segredo,
escondem-se inda mais no biombo, quase a medo,
como fugindo à luz da sala enorme e acesa.

E quando um criado vem servir-lhes os gelados
surpreende a dançar, velhinhos e curvados,
o senhor Cardeal e a senhora Duquesa.

Júlio Dantas (1876-1962)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Os Colégios Jesuítas e as Casas Oratorianas em Portugal e no Império Português 1542-1834

Nestes colégios e casas ensinavam-se os Estudos Menores (médios, actuais básico e secundário, e preparatório), e não Maiores (superiores ou universitários). Estas duas listas foram tiradas essencialmente dos textos de Teresa Rosa [1] (principalmente no que toca a Portugal Continental, Madeira e Açores); no fim de cada lista vou transcrever alguns parágrafos desses textos por falta de tempo para construir um texto meu adaptado. Provàvelmente ambas as listas estão incompletas e, portanto, this post is a work in progress.

Colégios Jesuítas fundados nos sécs. XVI e XVII:
1542 Colégio de Santo Antão, em Lisboa
1542 Colégio de Jesus, em Coimbra
1548 Colégio de São Paulo, em Goa, Índia
15?? Colégio de São Salvador, em Coulão, Índia
1549 Colégio de São Vicente, em São Vicente, Brasil
1549 Colégio de Jesus, em Salvador da Bahia, Brasil
1551 Colégio do Espírito Santo, em Évora
1554 Colégio de São Paulo, em São Paulo de Piratininga, Brasil
1555 Real Colégio das Artes, em Coimbra (fundado em 1547)
1560 Colégio de São Paulo, em Braga
1560 Colégio de São Lourenço, no Porto
1561 Colégio do Santo Nome de Jesus, em Bragança
1563 Colégio de São Manços, em Évora
1570 Real Colégio São João Evangelista, no Funchal
1570 Real Colégio da Ascensão de Cristo, em Angra
1573 Colégio de São Sebastião, no Rio de Janeiro, Brasil
1576 Colégio de Nossa Senhora da Purificação, em Évora
1576 Colégio de São Gregório, em Évora
1583 Colégio da Madre de Deus, em Évora
1590 Colégio de São Patrício, em Lisboa
1591 Residência de São Miguel, em Ponta Delgada
1594 Colégio da Madre de Deus (ou de São Paulo), em Macau
1599 Colégio de São Tiago, em Faro
1605 Colégio de São Sebastião, em Portalegre
1621 Colégio de Todos os Santos, em Ponta Delgada
1621 Colégio de Nossa Senhora da Conceição, em Santarém
1644 Colégio de São Tiago, em Elvas
1652 Colégio de São Francisco Xavier, no Faial
1655 Colégio de São Francisco Xavier, em Setúbal
1660 Colégio São Francisco Xavier, em Portimão
1662 Escola da vila de Pernes fundada por uma fidalga, Dona Ana da Silva, que deixou uma renda para se abrir uma escola de latim, anexa ao Colégio de Nossa Senhora da Conceição, em Santarém
1670 Colégio São Francisco Xavier, em Beja
1679 Colégio São Francisco Xavier, em Lisboa
1693 Residência da Santíssima Trindade, em Gouveia

"A obra educativa dos jesuítas situava-se especialmente nos níveis de ensino médio e superior, não sendo o ensino elementar considerado como parte indispensável do seu programa educativo. Ensinar a ler e a escrever seria também considerado obra de caridade; contudo, tal só se verificaria se os inacianos tivessem gente suficiente que pudessem acudir a tudo." [2]

"[O Colégio das Artes] era destinado a administrar o ensino preparatório de ingresso na Universidade de Coimbra e a licenciatura em Artes e bacharelato em Filosofia." [3]

"[Até à sua expulsão em 1759] em Portugal o ensino era maioritariamente ministrado por Jesuítas. O ensino era também ministrado em algumas escolas dos Oratorianos e em escolas geralmente pequenas, a cargo das câmaras, da igreja e de congregações religiosas, nas localidades onde tal ensino não chegava. Nelas eram leccionadas especialmente o latim e as primeiras letras. Podemos considerar ainda a existência de professores particulares." [4]

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Casas Oratorianas fundadas nos sécs. XVII e XVIII:
1645 Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa
1658 Casa dos Oratorianos, em Freixo de Espada à Cinta
1659 Casa do Espírito Santo, em Lisboa
1685 Casa dos Oratorianos, no Porto
1689 Casa dos Oratorianos, em Viseu
1690 Casa dos Oratorianos, em Braga
1701 Casa dos Oratorianos, em Estremoz

"Por sua vez, a 16 de Julho de 1668, [estabelecia-se] em Lisboa a Congregação do Oratório de São Filipe [Néri]. Esta Congregação, fundada em Roma, em 1550, e introduzida em Portugal pelos Padres Bartolomeu de Quental e Francisco Gomes, revelou-se uma instituição preponderante e charneira na edificação de uma nova matriz cultural em Portugal. Embora quase tão antiga como a Companhia de Jesus, aquela Congregação revelou-se sempre mais permeável às tendências modernas. Não olvidou os seus deveres quando veio a ser participante activa das reformas pedagógicas pombalinas. Ainda antes das Reformas Pombalinas a Congregação do Oratório chegou a ter, em Portugal, casas nas quais também era ministrado o ensino secundário de humanidades e, em várias delas, o de filosofia e de teologia. Destas destacam-se: a Casa do Espírito Santo, fundada em Lisboa, no ano de 1659 e que veio a ser destruída pelo terramoto de 1755; a Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa, fundada no ano de 1645; em 1658, em Freixo de Espada à Cinta; em 1685, na cidade do Porto; em 1689, em Viseu; em 1690, em Braga; em Estremoz, em 1701. Refere Santos (1982) que estes religiosos não possuíam estabelecimentos especialmente dedicados ao ensino. No entanto [...] esta situação foi alterada pelo Decreto Régio de 9 de Fevereiro de 1745, pelo qual foi atribuído à Congregação o cargo de manter “perpètuamente quatro classes de ensino: doutrina cristã, ler, escrever e contar; gramática e retórica; teologia moral e filosofia” (Adão, 1997)." [5]

Referências
[1] Rosa, T. (2005). O Colégio da Ascensão de Angra do Heroísmo: uma análise pedagógica da Companhia de Jesus. Um contributo para a História da Educação em Portugal. Tese de doutoramento, apresentada na Universidade dos Açores; Rosa, T. (2013). História da Universidade Teológica de Évora (Séculos XVI a XVIII). Lisboa: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa; Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores e as Reformas PombalinasInteracções 10(28):40-54.
[2] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 42.
[3] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 43.
[4] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 45.
[5] Rosa, T. & Gomes, P. (2014). Os Estudos Menores... p. 44; Santos, E. (1982). O Oratório no Norte de Portugal. Contribuição para o estudo da história religiosa e social. Porto: INIC; Adão, A. (1997). O Estado Absoluto e o ensino das primeiras letras. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Colégios Universitários em Évora

Este post vem no seguimento de outros sobre colégios neste mesmo blogColégios Universitários em Coimbra (tradução inglesa em The Lost Colleges of the University of Coimbra); Lista Anacrónica de Colégios Universitários em Portugal (Coimbra e Évora)Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...); Colégios Universitários em LisboaUniversidades em Portugal, entre outros. Vale também a pena consultar o post A Alta de Coimbra Reconstituída.


Para minha surpresa, descobri recentemente que a antiga Universidade de Évora (1559-1759) não era uni-colegial... Como se sabe, durante duzentos anos certos, Coimbra não foi a única universidade a funcionar Portugal: em 1558, o Cardeal Infante Dom Henrique (mais tarde Cardeal Rei, nesse ano era 1.º arcebispo de Évora) achou por bem criar uma universidade para complementar a de Coimbra, ideia que já teria existido na mente do Infante Dom Pedro, 1.º duque de Coimbra, no século XV (de facto parece que chegou mesmo a criar uma segunda universidade em Coimbra quando a primeira estava em Lisboa [1]). O Cardeal Infante pediu então autorização ao Papa Paulo IV e estabeleceu uma universidade no Colégio do Espírito Santo em Évora.

Iluminura da cidade de Évora atribuída a Duarte d'Armas. Foral manuelino de Évora, 1501, Arquivo Municipal de Évora. Imagem tirada daqui.

Estava eu, portanto, convencido que a Universidade do Espírito Santo se tinha sucedido jurìdicamente ao Colégio do Espírito Santo, ipso facto, ou que, quando muito, o colégio único tinha existido dentro da universidade da mesma maneira que o Trinitiy College Dublin é o único colégio constituinte da University of Dublin. Porém, ao ler o excelente trabalho de Teresa Rosa [2] descobri que o Colégio do Espírito Santo não só não foi ele próprio transformado em Universidade, como ainda foram criados outros colégios de suporte à dita Universidade. Portanto, não aconteceu um upgrade de colégio para universidade, mas sim uma adição: o Colégio do Espírito Santo continuou a existir dentro da Universidade juntamente com outros colégios. No entanto, poder-se-ia dizer que era a universidade que pertencia ao colégio jesuíta, e não o contrário, já que muitos dos cargos e estruturas eram comuns a ambos e tiveram origem nos do colégio (por exemplo, o Reitor da Universidade era sempre o Superior do Colégio).

Ora, o Colégio do Espírito Santo, como se sabe, foi fundado em 1551 com padres jesuítas do Colégio de Jesus em Coimbra e do de Santo Antão em Lisboa. Foi dotado de rendimentos pelo Cardeal Infante Dom Henrique e começou a escola pública em 1553, sempre com professores jesuítas, e, por isso mesmo, continuou a existir até 1759, ano da expulsão dos Jesuítas do Império Português. Com a criação da universidade logo em 1559, as aulas passaram a não ser apenas preparatórias (ver último parágrafo deste post). Diz Teresa Rosa que "os Jesuítas, estudando em conjunto com estudantes de outras famílias religiosas e leigos, na Universidade, voltavam no fim das aulas a recolher-se no respectivo Colégio (parte destinada aos membros da Companhia)" [p. 51]; presumìvelmente o Colégio do Espírito Santo seria só para jesuítas enquanto os outros acomodariam os escolares das outras ordens religiosas e os leigos. [3]

Um segundo colégio foi o Colégio de São Manços, também chamado "dos Porcionistas", que nunca teve edifício próprio. Instaurado em 1563, ficou a pertencer à universidade (não sei se desde o início), mas desfez-se em 1580 com a morte do Cardeal Rei Dom Henrique, por falta de fundos e de interesse dos Jesuítas em conservá-lo. Destinava-se a recolher quinze estudantes, de entre os quais os filhos dos criados do Cardeal Infante/Rei, os que terminavam as funções de meninos do coro da Sé e, num número indeterminado, os filhos de nobres que pagariam uma “porção”, cuja quantia oscilava entre treze e quinze mil réis anuais. Não confundir com o Colégio de São Manços das Donzelas, que existiu em Évora de 1592 a 1836 [4] e cuja história eu não conheço.

Assinatura do Cardeal Infante Dom Henrique: "Iffs dõ anriq". Entre 1539-1557 (talvez antes de 1546, data em que se tornou cardeal, visto que assina apenas infante, mas isto é pura especulação minha). Arquivo Nacional Torre do Tombo, imagem tirada daqui.

Acontece que, para garantir alunos à Universidade de Évora, o Cardeal Infante quis ainda fundar quatro outros colégios, mas ficando todos sob o controlo jesuíta. Para tal, em 1572 pede ao Papa Gregório XIII a concessão de rendas eclesiásticas suficientes para erigir e sustentar os colégios seguintes:
- Colégio de Nossa Senhora da Purificação, para teólogos “passantes”, que seriam doze, já bacharéis em teologia, com vinte mil réis de renda, destinado à obtenção dos restantes graus académicos;
- Colégio de São Gregório, para quarenta teólogos “cursantes”, ou simples alunos de teologia, já mestres em artes, com dezasseis mil réis de renda;
- Colégio de Santo Agostinho, para sessenta alunos de artes, com quinze mil réis de renda;
- Colégio de São Jerónimo, para cinquenta alunos de humanidades, latim e grego, com renda de doze mil réis.
Acabou por ter dinheiro para criar e dotar apenas dois, o da Purificação e o de São Gregório, em 1579. Nesse ano dotou a Universidade também com um hospital. O Colégio da Purificação, era dirigido por um Vice-Reitor, assistido por outros padres da Companhia, conselheiros sob a imediata e directa sujeição ao Reitor, de quem dependia a sua escolha. Era também ao Reitor que competia prover as 25 bolsas (com o tempo, as bolsas passaram de 50 para 25), escolhendo entre os opositores aprovados, aqueles que considerasse mais adequados. As obras do edifício do Colégio da Purificação só se concluíram em 1605, mas o colégio recebeu os primeiros escolares em 1593; o edifício pertence hoje ao Seminário Maior de Évora [5].

Houve ainda o Colégio da Madre de Deus, que se destinava a treze ou mais colegiais pobres. Autorizada a fundação, por bula do Papa Clemente VIII, em 1595, iniciou-se a construção do edifício de imediato e começou a ser habitado em 1608. Com estatutos inspirados nos do Colégio da Purificação, deveria depender do arcebispado de Évora, embora sob a direcção da Universidade. Tal não foi aceite pelos Jesuítas e os estatutos foram modificados mais tarde. Destinava-se a treze ou mais colegiais pobres que estudassem latim, artes e teologia, e que seriam mantidos com os bens oferecidos (em testamento?) pelo Doutor Heitor de Pina Olival, desembargador e cavaleiro de Cristo, e por sua esposa, Dona Francisca de Brito. O Colégio da Madre de Deus era governado por um clérigo secular, mas cuja escolha incumbia ao Reitor da Universidade. O Reitor tinha igualmente que prover os estudantes porcionistas. [6] Luís António Verney foi aluno deste colégio [7].

 
Luís António Verney (1713-1792) e o frontispício do tomo primeiro da primeira edição do seu "Verdadeiro Metodo de Estudar" (Valença, 1746). Imagens tiradas daqui; a versão digital da obra está disponível na Biblioteca Nacional de Portugal.

Para além dos colégios acima citados, havia ainda o noviciado (estudos para se ser sacerdote) anexo ao (ou integrado no) Colégio do Espírito Santo; não se entende bem no texto de Teresa Rosa se era parte desse colégio, se era um colégio à parte (o mesmo que o Colégio dos Moços do Coro?). Vulgarmente conhecido pelo nome de "Conventinho", os edifícios do noviciado foram começados a construir em 1564 e habitados em Julho de 1567.

Lista de colégios na Universidade de Évora (1559):
1551-1759 Colégio do Espírito Santo
1563-1580 Colégio de São Manços (ou dos Porcionistas)
1564-1759 Colégio dos Moços do Coro (noviciado?)
1576-1759 Colégio de Nossa Senhora da Purificação
1576-1759 Colégio de São Gregório
1595-1759 Colégio da Madre de Deus
planeado: Colégio de São Jerónimo
planeado: Colégio de Santo Agostinho

Deixo uma nota às capelanias de Vera Cruz e de São João [8]. Ora, para além das preocupações com a subsistência material dos estudantes dos colégios, o Cardeal Infante Dom Henrique tinha preocupações também com a sua subsistência espiritual. Claro que todos ou quase todos os estudantes dos colégios haveriam de ser sacerdotes, mas enquanto não o eram precisavam de ter quem lhes celebrasse missa e lhes desse os sacramentos. Para tanto o Cardeal Infante instituiu duas capelanias, isto é, bolsas para que sacerdotes já formados quisessem complementar os seus estudos e assim também poderiam dar missa etc. Por vezes também confundidos com colégios, as capelanias eram apenas fundos que eram supridos pelas esmolas que os fiéis deitavam aos santos nas respectivas capelas (a de Vera Cruz e a de São João, ambas na Sé de Évora), e eram geridos pelos próprios bolseiros. Em Coimbra havia também capelanias, mas de capelanias hei de falar especìficamente num outro post.

E como nota final sou levado a explicar que a Universidade de Évora, à semelhança de outras pela Europa (nomeadamente no mundo germânico [9]) que estavam sob controlo jesuíta, oferecia cursos apenas no que numa universidade medieval se chamariam a Faculdade de Artes e a Faculdade de Teologia. Se tradicionalmente uma universidade completa tinha 4 faculdades (Artes, Direito, Medicina e Teologia; em Coimbra a de Direito estava dividida em duas: Leis e Cânones) [10], na de Évora não se ensinava nem Direito nem Medicina [11]. Na verdade, Évora estava também organizada em 4 faculdades (Latinidades ou Humanidades; Artes; Teologia Moral ou Casos de Consciência; e Teologia Especulativa ou Sagrada Escritura), mas o que se ensinava na totalidade não fugia ao âmbito tradicional daquelas duas [12]. As Humanidades e as Artes seriam sensivelmente o que hoje se chamaria o ensino médio ou básico/secundário, ou preparatório (preparação para a inscrição nas faculdades maiores), e os estudantes que concluíssem o curso de Artes em Évora poderiam inscrever-se directamente nas faculdades maiores não só de Évora, mas também de Coimbra. No reinado de Dom Pedro II modernizou-se o ensino das Matemáticas, nelas se incluindo a Geografia, a Física e a Arquitectura [13]. A história dos estudos em Artes tanto em Coimbra como em Évora (que tanto me interessa!) ficará também para outro post.

Representação da experiência dos hemisférios de Magdeburgo, de Otto von Guernicke (1602-1686), em azulejos da Aula de Física da antiga Universidade de Évora (hoje sala 120 da moderna universidade), 1744-1749. No azulejo vêem-se as palavras em latim "Vacuo resistit" ("o vácuo resiste"). Imagem tirada daqui. [14]

Referências
[  ] Onde não haja indicação da referência, as informações foram tiradas do texto de Teresa Maria Rodrigues da Fonseca Rosa, História da Universidade Teológica de Évora (Séculos XVI a XVIII), Lisboa: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98314-0-7.
[1] José Mattoso, O suporte social da universidade de Lisboa-Coimbra (1290-1537), pp. 390, in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp. 383-407. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 305-335; e parcialmente em Penélope. Fazer e desfazer a História, 13 (1994) pp. 23-35.
[2] Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., op. cit.
[3] Muito da história da Universidade de Évora se poderá consultar no fundo documental existente actualmente na Universidade de Coimbra, e também no seguinte blog. V. também Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., op. cit.
[4] Ligação para digitarq.
[5] Ligação para o website do Seminário Maior de Évoraligação para FUNDIS; as andanças do edifício dos Colégios e da antiga Universidade de Évora podem ser seguidas no website Monumentos. V. também Fernando Taveira da Fonseca, A universidade de Évora (1559-1759): história e historiografía. In Salamanca e su Universidad en el Primer Renacimiento: Siglo XV, Miscelánea Alfonso IX, 2010, ligação
[6] Ligação para FUNDIS.
[7] Ligação para Infopédia.
[8] Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., pp. 93-94.
[9] Steve Naragon, List: 18th Century German Universities, North Manchester, Indiana: Manchester University, 2014. Ligação (acedida Dezembro 2014).
[10] A History of the University in Europe, Vol. II.
[11] A ausência da Medicina, das Leis e dos Cânones (na verdade, apenas da sua parte contenciosa), parece dever-se a um desejo expresso de manter o monopólio lectivo destas matérias na Universidade de Coimbra, desejo contemplado na Bula da fundação da Universidade Eborense. V. nota 59 in Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., p. 33.
[12] Ligação para a página da universidade actual; Teresa Rosa, História da Universidade Teológica..., op. cit.
[13] Ligação para a página da universidade actual.
[14] A recente tomada de consciência da importância e da excelência dos azulejos setecentistas como material didáctico, mormente em Coimbra, pode ser seguida no blogue De Rerum Natura e na Scientific American.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Chegaram uns magos do Oriente

André Gonçalves (1685-1754), Adoração dos Reis Magos.
Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra.

Mt 2:1-11
1 Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. 2 E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» 3 Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. 4 E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. 5 Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.» 7 Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. 8 E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.» 9 Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. 10 Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; 11 e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.

Versão da Bíblia dos Capuchinhos, da Difusora Bíblica, link aqui e aqui também.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim

Frères de Limbourg (Herman, Paul e Johan; fl. 1385-1416), Les Très Riches Heures du duc de Berry, Fólio 44v: A Natividade de Jesus. Musée Condé, Chantilly, France.

Mt 1:18-25
18 Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. 19 José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. 20 Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» 22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. 24 Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa. 25 E, sem que antes a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus.

Olivier de Gand e Jean d´Ypres, A Natividade, detalhe do retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra (1498‐1502). Crédito fotográfico ao Secretariado Nacional Bens Culturais da Igreja, Portugal, na sua página do Facebook, 17/12/2014.

Lc 2:1-18
1 Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. 2 Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. 3 Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. 4 Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, 5 a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. 6 E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz 7 e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria. 8 Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. 9 Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. 10 O anjo disse-lhes: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11 Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. 12 Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» 13 De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: 14 «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» 15 Quando os anjos se afastaram deles em direcção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: «Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.» 16 Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. 17 Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. 18 Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Frases de Mark Twain

Twain em 1907, Foto (c) Underwood & Underwood, sob Licença Creative Commons. 
Encontrei estas frases e a foto inicialmente aqui.

"When angry, count four; when very angry, swear."
- in The Tragedy of Pudd'nhead Wilson, 1894

"Familiarity breeds contempt—and children."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Principles have no real force except when one is well-fed."
- in Extracts From Adam's Diary, 1906

"'Classic.' A book which people praise and don't read."
- in Following the Equator, 1897

"Do not put off till tomorrow what can be put off till day-after-tomorrow just as well."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Golf is a good walk spoiled."
- in Greatly Exaggerated: The Wit and Wisdom of Mark Twain, ed. Alex Ayres, 1988

"Clothes make the man. Naked people have little or no influence in society."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Everybody talks about the weather, but nobody does anything about it."
- Editorial in the Hartford Courant, Aug. 24, 1897

"Only one thing is impossible for God: To find any sense in any copyright law on the planet."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Its name is Public Opinion. It is held in reverence. It settles everything. Some think it is the voice of God."
- in Europe and Elsewhere, 1923

"A gifted person ought to learn English (barring spelling and pronouncing) in thirty hours, French in thirty days, and German in thirty years."
- in A Tramp Abroad, 1880

"Against the assault of laughter nothing can stand."
- in The Mysterious Stranger, 1908

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

1.º de Dezembro de 1640: Restauração de Portugal

P O R T U G A L

(Desconheço o autor deste soberbo brasão de armas com a serpe de ouro, alada e nascente, em timbre, que tão raras vezes aparece. Note-se também os castelos que parecem mesmo castelos e não torres, como tantas vezes se vê; e não abertos mas fechados, isto é, com uma porta de ouro.)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Perdez du temps : lisez !

Percam tempo: leiam! Waste time: Read! Visto numa livraria em Angers, França. Já era tempo de alguém proclamar isto ao mundo! Foto tirada por mim próprio, hoje mesmo.

sábado, 11 de outubro de 2014

Post organoléptico






Este post é para ser degustado ao natural.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Não-conto...

sem título

Era uma vez um vendedor estático. Quando lhe perguntavam o que fazia na vida ele respondia:
— Sou vendedor estático.
Eles bem-intencionadamente corrigiam:
— Ambulante, quer o Sr. dizer.
Ao que ele replicava imediatamente:
— Não, não: vendedor estático.
— E o que faz um vendedor estático?
— Vende coisas estàticamente.
Ao olhar silencioso, interrogativo e incrédulo dos interlocutores após esta lauta explicação, ele expandia:
— O que eu faço é ficar na rua muito quieto enquanto as pessoas tentam comprar-me coisas.
— Ah... E conseguem?
— Não, porque eu fico estático!
Seguia-se sempre um breve silêncio porque os seus interlocutores procuravam a pergunta seguinte, que invariàvelmente era esta:
— E o que querem eles comprar de si?
— Paciência.
— Paciência?
— Sim, paciência. Tenho muita para vender.
— E os seus clientes precisam dela?
— Oh se precisam! Nenhum a tem, daí que tantos a queiram comprar.
— E porque não deixa de ficar estático e a vende?
— Se o fizesse gastaria logo toda a paciência que teria para vender!...
E aqui o vendedor estático fazia sempre uma pausa dramática.
— Houve, porém, uma vez em que consegui, de facto, vender paciência... A uma cliente que, no entanto, a tinha em abundância. Foi a única que esperou pacientemente.
— E quanto lhe cobrou?
— Nada, a paciência vende-se de graça.

Escrito em Angers, a 19 de Agosto de MMXIV

sábado, 4 de outubro de 2014

Mark Twain filmado em 1909


Tanto quanto se sabe, é o único filme que existe de Mark Twain. Nele aparecem também as suas filhas Clara e Jean. Foi filmado pela Thomas Edison Company (não sei se pelo próprio Edison...). Existe uma versão deste filme recentemente restaurada pela mesma empresa (hoje chamada TFG Film & Tape), que recomendo, só não a coloco aqui porque a Incorporação foi desativada por pedido. Na versão restaurada a imagem foi espelhada (porque quem conhece a casa dizia que a orientação estava errada) e a velocidade corrigida. Ambos os vídeos estão sob licença padrão do YouTube.

domingo, 14 de setembro de 2014

Infusões Simples 2

As primeiras Infusões Simples podem ser lidas aqui.


1
Nem queria acreditar no que se passava no bar! A gente tem uma percepção muito diferente das coisas quando está no quarto de trás. Os gritos que se ouviam, meu Deus! O cliente não ajudava nada e ainda era preciso trabalhar um bocado. Quando finalmente saí para o bar e vi os tremoços no chão é que percebi o que se passava: era o futebol. Tinha-me esquecido...

2
Em trinta e quatro horas, Ludovico Bórgia de Lençóis tinha conseguido chatear toda a gente num raio de 3 metros à sua volta. Como é que ele o conseguiu? Muito fácil: bastou-lhe demorar esse tempo todo a falecer.

3
Não era nada daquilo, mas ela teimava que era. Acabou por conseguir, mas não era nada daquilo. Quando se começa a fazer uma coisa, dizia ela, há que acabá-la, mesmo que não se acabe o que se começou. Ela lá saberia...

4
Era uma vez um gato maltês que falava piano e tocava francês. Mas o francês não gostava muito que lhe tocassem e zangava-se. O gato maltês teve de deixar de lhe tocar. Acabou por se mudar para Toulon, já que na Valetta não havia outros franceses que ele pudesse tocar.

5
Afastado do seu posto por razões técnicas, Patrício Vaz Hotte começou finalmente a trabalhar. O que ele fazia no posto era o que estava no contrato de trabalho; o que ele fez depois disso foi tudo o resto. 

6
Carlota da Maia não tinha nada a ver com a famosa família queiroziana. Porém, dizia a toda a gente que sim. As pessoas, então, esqueciam-se de que a tal família era ficcional e ofereciam-lhe as condolências. Ela aceitava e chamava-lhes estúpidos a meia voz. Este era o seu desporto favorito!

7
Jonas Sempiterno e Bonifácio Bonnemine, inseparáveis companheiros de cavalgada, encontravam-se raramente, nunca mais de duas vezes por ano, em média, e sempre por acaso. Na verdade, nem se conheciam. Porém, nós, que somos o narrador omnisciente, sabemos que todos os dias, nos últimos 20 anos, tomavam o mesmo metro para o trabalho. Nunca falharam, mesmo em carruagens separadas, era sempre a mesma composição, à mesma hora. Sempre a mesma cavalgada, sempre companheiros inseparáveis.

8
Era uma vez um QTL. Não era um QTL qualquer, pois designava uma base genética mendeliana. Então ninguém queria saber dele e preferia fazer cruzamentos para obter dados. Certo dia, o QTL fartou-se e fez as malas. Ficou em seu lugar uma mutação, um SNP, que alterou completamente o jogo. Passou-se a jogar xadrez em vez de damas.

9
Ricardo della Genga não fazia senão chorar. Todos os choros que ele chorava tinham uma origem ridícula e uma consequência previsível: chorava quando via o chão e depois alagava tudo para não ver o chão. O choro de della Genga era, no fundo, um mecanismo.

10
Todos os dias Claudiana e Sampaio iam às compras às 8h. Nunca compravam nada, evidentemente, mas sabia-lhes bem aquela vida de desconsumistas. Já os comerciantes os conheciam e perguntavam "Então não querem descomprar nada?", ao que eles respondiam "Queremos pois! O que é que tem hoje para desvender?" E voltavam todos os dias para casa descarregados de coisas que tinham descomprado. Eram indesfelizes assim.

11
Quatro mossas tinha o carro do Pascoal Tromet. O objectivo dele era chegar às doze, mas a mulher, uma robusta e headstrong Mrs Tromet, insistia para que ele levasse o carro ao bate-chapas. Ele bem tentava esconder as mossas, ou fazê-las onde não se vissem bem, mas ela acabava sempre por dar com elas. O máximo a que ele chegou foi sete mossas. Esperemos que algum dia ele consiga o seu objectivo.

12
Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz foi reconhecido como o maior cavaleiro sem cavalo da história de Alcambra de Cima. A junta de Alcambra de Baixo tinha-lhe recusado o mesmo título porque Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz era casado com uma senhora do Porto e o presidente da junta era benfiquista.

13
Cinco e meia da tarde e nem se ouvia fazer ruído. Podia-se pensar que era natural, mas não: era contestatário. Daí que toda a gente se tivésse posto a gritar em silêncio. Os protestos inaudíveis continuaram sem ser ouvidos pelo patronato, portanto tanto fazia gritar com som ou sem ele.

14
Paio d'Almendra comia paio de Almendra todos os dias ao jantar. Era para fazer publicidade a si próprio. Era pena que a audiência, o público alvo, fosse só ele próprio.

15
"Traste disfuncional" era o subtítulo de uma obra de Rui Pacheco Rui Paz, o conhecido artista plástico. Consistia numa velha chaleira de metal com um smartphone lá dentro (que não se via, então ninguém sabia que lá estava). Foi arrematada por meio milhão de libras na Christie's. O comprador, porém, acusou Rui Pacheco Rui Paz de fraude: o smartphone ainda funcionava (e, bem vistas as coisas, a chaleira também).

16
Henriquette du Belay-Farcie criava gatos. E vendia recheio para fora.

17
Agathe, Bernarda, Bernadette e Maria Carla eram as auto-proclamadas ABBA. OK, não era para ser a Maria Carla, mas a Ambrósia achou melhor ser comida de deuses olímpicos em vez de se prestar a chachadas.

18 Cinqüenta e duas vezes gritou "Ah e tal" e nada, ninguém o ouviu. No metro em hora de ponta as pessoas são realmente antissociais...

Tisanas Hatherlyanas 2

As primeiras Tisanas Hatherlyanas podem ser lidas aqui.


1
Olha ali! Não sabes para onde olhar, não é? Mas olha na mesma, que algo hás de ver que seja meritório de um "olha ali!" Nem tudo o que merece ser visto tem a boa sorte de ter quem diga "olha ali!" Nem estes "olha ali!" implicam que se olhe puramente com o olhar: o ouvido, o cheiro, o tocar também podem estar dentro de um "olha ali!" É preciso não simplificar. Olha ali agora! Mas olha ali!!!

2
Toque-toque-toque, lá ia ela. Tico-tico-tico, vinha de volta. Era um vai-e-vem de onomatopeias, aquela miúda!

3
Os famosos famélicos azafamados açambarcaram as açafatas com acessos de assédio sadio: sandes e açouguices sem sensaborias, se fazem favor! Azafamaram-se as açafatas assando salsichas e chouriços (num fogareiro churrasqueiro chamuscado de fuligem fulva) e ensanduichavam sandes com quantas carnes cabiam nas carcaças de côdea crespa que seguiriam sempre sucintas das açafatas açambarcadas para os já familiares famosos famélicos azafamados.

4
Quomodo vales? Pergunta fortemente romana, mas que de pouco serve hoje em dia porque pouca gente fala romano, quero dizer, latim.

5
Era uma vez um senhor de nome Barnabé Bastos do Bom Sucesso. Nada mais a dizer, esse senhor foi uma vez e pronto.

6
Listagem de coisas: uma torre de Londres em miniatura; um carro telecomandado velho e sem pilhas; um teclado cinzento dos anos 90; quatro pares de meias pretas; duas canecas partidas; uma cadeira e um banco; e o proverbial elefante do Mário-Henrique.

7
Três personagens inócuos:
Um. Waldeck Paulo-Pais dormia a sono solto quando acordou. Òbviamente: não podia estar a fazer outra coisa antes de acordar.
Dois. Godofredo Pasmo descascava cebolas como se disso dependesse a sua próxima refeição. E dependia mesmo...
Três. Almeida Simplesmente era um sujeito pacato. Porém, quando lhe subia a mostarda ao nariz ficava pior que uma noz moscada.

8
Copos de vidro serviam para estilhaçar, mas os de plástico para amachucar. Nem que se quisesse, nunca ninguém conseguiu estilhaçar um copo de plástico, nem amachucar um copo de vidro.

9
Não havia quem dissesse que ela não era uma senhora de bem. Não, não havia. O que havia era quem dissesse que ela era uma senhora de bem, ponto. A grande chatice é que ela era uma pessoa insuportável e ninguém parecia notar!

10
Nem João Tão sabia o que havia naquele livro, nem Carlota Tanta lhe podia desvendar que naquele livro não havia nada.

sábado, 3 de maio de 2014

Lia Altavilla (soprano) e Carla Seixas (piano) interpretam Francisco de Lacerda


Da colecção "Trovas para voz e piano" (publicadas pela Fundação Calouste Gulbenkian na Portugaliae Musica, vol. 24, Lisboa, 1973) do compositor açoriano Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (1869-1934). A deliciosa letra original desta "trova" vem do cancioneiro popular português:

A mulher do meu vizinho 
É uma santa mulher: 
Dá os ossos ao marido 
E a carne a quem ela quer. 

O marido, coitadinho,                [interpretação genial!]
É também um santo homem: 
Não confessa nunca, nunca, 
Os desgostos que o consomem. 

Vídeo sob Licença do YouTube Padrão, reproduzido no canal YouTube do Movimento Patrimonial para a Música Portuguesa (MPMP) com autorização das intérpretes.

Mais Frases de Oscar Wilde

Oscar Wilde Action Figure, copyrighted by Accountrements. 

"He hadn’t a single redeeming vice."

"He has no enemies, but is intensely disliked by his friends."

"He lives the poetry that he cannot write. The others write the poetry that they dare not realize."

"He must have a truly romantic nature, for he weeps when there is nothing at all to weep about."

"He was always late on principle; his principle being that punctuality is the thief of time."

"How can a woman be expected to be happy with a man who insists on treating her as if she were a perfectly normal human being?"

"How marriage ruins a man! It is as demoralizing as cigarettes, and far more expensive."

"How strange a thing this is! The Priest telleth me that the Soul is worth all the gold in the world, and the merchants say that it is not worth a clipped piece of silver."

"I always like to know everything about my new friends, and nothing about my old ones."

"I am not young enough to know everything."

"I can believe anything as long as it is incredible."

"I have nothing to declare except my genius."

"I have the simplest tastes. I am always satisfied with the best."

"I hope you have not been leading a double life, pretending to be wicked and being really good all the time. That would be hypocrisy."

"I must decline your invitation owing to a subsequent engagement."

"I never travel without my diary. One should always have something sensational to read in the train."

"I put all my genius into my life; I put only my talent into my works."

"I was working on the proof of one of my poems all the morning, and took out a comma. In the afternoon I put it back again."

"I do not approve of anything that tampers with natural ignorance."

"I like men who have a future and women who have a past."

"I never play cricket. It requires one to assume such indecent postures."

"I suppose society is wonderfully delightful. To be in it is merely a bore. But to be out of it is simply a tragedy."

"If one cannot enjoy reading a book over and over again, there is no use in reading it at all."

"If one plays good music, people don’t listen and if one plays bad music people don’t talk."

"If you are not too long, I will wait here for you all my life."

"Illusion is the first of all pleasures."

"In America the young are always ready to give to those who are older than themselves the full benefits of their inexperience."

"In England people actually try to be brilliant at breakfast. That is so dreadful of them! Only dull people are brilliant at breakfast."

"In every first novel the hero is the author as Christ or Faust."

"In married life, three is company and two none."

"It is always a silly thing to give advice, but to give good advice is fatal."

"It is a very sad thing that nowadays there is so little useless information."

"It is absurd to divide people into good and bad. People are either charming or tedious."

"It is better to be beautiful than to be good. But... it is better to be good than to be ugly."

"It is better to have a permanent income than to be fascinating."

"It is dangerous to be sincere unless you are also stupid."

"It is only an auctioneer who can equally and impartially admire all schools of art."

"It is only shallow people who do not judge by appearances."

"It is perfectly monstrous the way people go about nowadays saying things against one, behind one’s back, that are absolutely and entirely true."

"It is very vulgar to talk about one’s business. Only people like stockbrokers do that, and then merely at dinner parties."

"It is what you read when you don’t have to that determines what you will be when you can’t help it."

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quarta-feira, 5 de março de 2014

Sobre a Ciência Medieval


BBC Terry Jones' Medieval Lives - The Philosopher, o episódio sobre a Ciência Medieval da estupenda série de Terry Jones (aconselho-a toda, absolutamente, são 8 episódios, de 2004). Aí se vê que nem os medievais pensavam que a Terra era plana, nem a Igreja era contra a Ciência. Hei de escrever um post longo sobre a Ciência (particularmente a Biologia) Medieval um dia destes. Vídeo sob licença do YouTube Padrão.

domingo, 2 de março de 2014

Michel Corboz dirige Händel e Bach

Com o Ensemble Lausanne.


Dixit Dominus de Georg Friedrich Händel.


Missa em Sol menor BWV 235 de Johann Sebastian Bach.

sábado, 1 de março de 2014

Três de Mário Quintana

Bilhete (Esconderijos do Tempo, 1980)
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

A Arte de Ser Bom (Espelho Mágico, 1951)
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.

Poeminha do Contra (Prosa e Verso, 1978)
Esses todos que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mário Quintana

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Citações Literárias

"(...) the idler is an adventurer in the face of death, a crusader against the dictate of haste. (...) the joy of wasting time."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 171, Amadeu do Prado's speech.


"The black silence of the grand piano filled the room."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 214.

"We give them a piece of our mind, as they say in English. That's the only good thing I brought from that absurd country."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 362.

"[She] spoke the harsh Spanish words with a remnant of Portuguese softness."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 415.

"He wasn't one for sightseeing. If people gathered around something, he tended to keep his distance; that equated with his habit of reading bestsellers only years later."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 417.

"— Tem um escudo para eu meter no juke box?
Deu-lhe um escudo. Chegam até mim os sons metálicos do aparelho. (...) É uma daquelas canções espanholas que se caracterizam por serem iguais a todas as outras canções espanholas. (...) Deus mete-nos em cada uma! Estou outra vez a ser injusto. (...) Não há dúvida de que Deus, a existir, não nos vinculou a nenhum caminho. Deixou-nos a liberdade de escolha. Foram os homens que depois vieram tirar essa liberdade que Deus nos dera. Mas quais homens?"
- Luís de Sttau Monteiro, in Um Homem Não Chora, 1961, pp. 42s.

"A Fernanda sai do quarto. Vejo nos seus olhos que acabo de cometer um crime. Matei qualquer coisa que dificilmente poderei ressuscitar. Matar, matar seja o que for, é horrível."
- Luís de Sttau Monteiro, in Um Homem Não Chora, 1961, p. 101.

"Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte."
- Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser, 2004, p. 67.

"Diga-se que há problemas de poesia mais difíceis que complicadíssimos problemas de álgebra. Se a álgebra é uma religião rigorosa, a poesia será uma religião excessiva."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 91.

"Bloom sabe bem que só é material e só existe aquilo que pode ser colocado debaixo dos pés de uma mesa para a endireitar. E um frase, por mais espessa e sólida que seja, nunca reequilibrará o mais leve desencontro entre o mobiliário e o chão."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 93.

"Procuro uma mulher, disse Bloom, ou então a sabedoria."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 99.

"Ah, Paris! Em mais nenhuma cidade se está mais perto de Paris que em Paris. Daí a sua grandeza."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 102.

"Sometimes the things of this world are less beautiful than their shadows."
- Benjamin Hale, in The Evolution of Bruno Littlemore, p. ?.

"It is a great nuisance that knowledge can only be acquired by hard work."
- W. Somerset Maugham, in Ten Novels and their Authors, p. 8.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Reavivar o blog...


Cá está, vou finalmente tentar reavivar este blog, desfalecido há tanto tempo. Talvez se note pouco, mas tem posts novos, renovação de alguns antigos, novos links, renovação e estandardização de tamanhos, grafias e símbolos e muitos links obsoletos removidos. Mantenho o aspecto e o esquema, gosto deles assim. Tenho bastante Saber novo para tirar da gaveta, espero ter tempo de o colocar aqui durante este ano de 2014.