sábado, 11 de outubro de 2014

Post organoléptico






Este post é para ser degustado ao natural.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Não-conto...

sem título

Era uma vez um vendedor estático. Quando lhe perguntavam o que fazia na vida ele respondia:
— Sou vendedor estático.
Eles bem-intencionadamente corrigiam:
— Ambulante, quer o Sr. dizer.
Ao que ele replicava imediatamente:
— Não, não: vendedor estático.
— E o que faz um vendedor estático?
— Vende coisas estàticamente.
Ao olhar silencioso, interrogativo e incrédulo dos interlocutores após esta lauta explicação, ele expandia:
— O que eu faço é ficar na rua muito quieto enquanto as pessoas tentam comprar-me coisas.
— Ah... E conseguem?
— Não, porque eu fico estático!
Seguia-se sempre um breve silêncio porque os seus interlocutores procuravam a pergunta seguinte, que invariàvelmente era esta:
— E o que querem eles comprar de si?
— Paciência.
— Paciência?
— Sim, paciência. Tenho muita para vender.
— E os seus clientes precisam dela?
— Oh se precisam! Nenhum a tem, daí que tantos a queiram comprar.
— E porque não deixa de ficar estático e a vende?
— Se o fizesse gastaria logo toda a paciência que teria para vender!...
E aqui o vendedor estático fazia sempre uma pausa dramática.
— Houve, porém, uma vez em que consegui, de facto, vender paciência... A uma cliente que, no entanto, a tinha em abundância. Foi a única que esperou pacientemente.
— E quanto lhe cobrou?
— Nada, a paciência vende-se de graça.

Escrito em Angers, a 19 de Agosto de MMXIV

sábado, 4 de outubro de 2014

Mark Twain filmado em 1909


Tanto quanto se sabe, é o único filme que existe de Mark Twain. Nele aparecem também as suas filhas Clara e Jean. Foi filmado pela Thomas Edison Company (não sei se pelo próprio Edison...). Existe uma versão deste filme recentemente restaurada pela mesma empresa (hoje chamada TFG Film & Tape), que recomendo, só não a coloco aqui porque a Incorporação foi desativada por pedido. Na versão restaurada a imagem foi espelhada (porque quem conhece a casa dizia que a orientação estava errada) e a velocidade corrigida. Ambos os vídeos estão sob licença padrão do YouTube.

domingo, 14 de setembro de 2014

Infusões Simples 2

As primeiras Infusões Simples podem ser lidas aqui.


1
Nem queria acreditar no que se passava no bar! A gente tem uma percepção muito diferente das coisas quando está no quarto de trás. Os gritos que se ouviam, meu Deus! O cliente não ajudava nada e ainda era preciso trabalhar um bocado. Quando finalmente saí para o bar e vi os tremoços no chão é que percebi o que se passava: era o futebol. Tinha-me esquecido...

2
Em trinta e quatro horas, Ludovico Bórgia de Lençóis tinha conseguido chatear toda a gente num raio de 3 metros à sua volta. Como é que ele o conseguiu? Muito fácil: bastou-lhe demorar esse tempo todo a falecer.

3
Não era nada daquilo, mas ela teimava que era. Acabou por conseguir, mas não era nada daquilo. Quando se começa a fazer uma coisa, dizia ela, há que acabá-la, mesmo que não se acabe o que se começou. Ela lá saberia...

4
Era uma vez um gato maltês que falava piano e tocava francês. Mas o francês não gostava muito que lhe tocassem e zangava-se. O gato maltês teve de deixar de lhe tocar. Acabou por se mudar para Toulon, já que na Valetta não havia outros franceses que ele pudesse tocar.

5
Afastado do seu posto por razões técnicas, Patrício Vaz Hotte começou finalmente a trabalhar. O que ele fazia no posto era o que estava no contrato de trabalho; o que ele fez depois disso foi tudo o resto. 

6
Carlota da Maia não tinha nada a ver com a famosa família queiroziana. Porém, dizia a toda a gente que sim. As pessoas, então, esqueciam-se de que a tal família era ficcional e ofereciam-lhe as condolências. Ela aceitava e chamava-lhes estúpidos a meia voz. Este era o seu desporto favorito!

7
Jonas Sempiterno e Bonifácio Bonnemine, inseparáveis companheiros de cavalgada, encontravam-se raramente, nunca mais de duas vezes por ano, em média, e sempre por acaso. Na verdade, nem se conheciam. Porém, nós, que somos o narrador omnisciente, sabemos que todos os dias, nos últimos 20 anos, tomavam o mesmo metro para o trabalho. Nunca falharam, mesmo em carruagens separadas, era sempre a mesma composição, à mesma hora. Sempre a mesma cavalgada, sempre companheiros inseparáveis.

8
Era uma vez um QTL. Não era um QTL qualquer, pois designava uma base genética mendeliana. Então ninguém queria saber dele e preferia fazer cruzamentos para obter dados. Certo dia, o QTL fartou-se e fez as malas. Ficou em seu lugar uma mutação, um SNP, que alterou completamente o jogo. Passou-se a jogar xadrez em vez de damas.

9
Ricardo della Genga não fazia senão chorar. Todos os choros que ele chorava tinham uma origem ridícula e uma consequência previsível: chorava quando via o chão e depois alagava tudo para não ver o chão. O choro de della Genga era, no fundo, um mecanismo.

10
Todos os dias Claudiana e Sampaio iam às compras às 8h. Nunca compravam nada, evidentemente, mas sabia-lhes bem aquela vida de desconsumistas. Já os comerciantes os conheciam e perguntavam "Então não querem descomprar nada?", ao que eles respondiam "Queremos pois! O que é que tem hoje para desvender?" E voltavam todos os dias para casa descarregados de coisas que tinham descomprado. Eram indesfelizes assim.

11
Quatro mossas tinha o carro do Pascoal Tromet. O objectivo dele era chegar às doze, mas a mulher, uma robusta e headstrong Mrs Tromet, insistia para que ele levasse o carro ao bate-chapas. Ele bem tentava esconder as mossas, ou fazê-las onde não se vissem bem, mas ela acabava sempre por dar com elas. O máximo a que ele chegou foi sete mossas. Esperemos que algum dia ele consiga o seu objectivo.

12
Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz foi reconhecido como o maior cavaleiro sem cavalo da história de Alcambra de Cima. A junta de Alcambra de Baixo tinha-lhe recusado o mesmo título porque Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz era casado com uma senhora do Porto e o presidente da junta era benfiquista.

13
Cinco e meia da tarde e nem se ouvia fazer ruído. Podia-se pensar que era natural, mas não: era contestatário. Daí que toda a gente se tivésse posto a gritar em silêncio. Os protestos inaudíveis continuaram sem ser ouvidos pelo patronato, portanto tanto fazia gritar com som ou sem ele.

14
Paio d'Almendra comia paio de Almendra todos os dias ao jantar. Era para fazer publicidade a si próprio. Era pena que a audiência, o público alvo, fosse só ele próprio.

15
"Traste disfuncional" era o subtítulo de uma obra de Rui Pacheco Rui Paz, o conhecido artista plástico. Consistia numa velha chaleira de metal com um smartphone lá dentro (que não se via, então ninguém sabia que lá estava). Foi arrematada por meio milhão de libras na Christie's. O comprador, porém, acusou Rui Pacheco Rui Paz de fraude: o smartphone ainda funcionava (e, bem vistas as coisas, a chaleira também).

16
Henriquette du Belay-Farcie criava gatos. E vendia recheio para fora.

17
Agathe, Bernarda, Bernadette e Maria Carla eram as auto-proclamadas ABBA. OK, não era para ser a Maria Carla, mas a Ambrósia achou melhor ser comida de deuses olímpicos em vez de se prestar a chachadas.

18 Cinqüenta e duas vezes gritou "Ah e tal" e nada, ninguém o ouviu. No metro em hora de ponta as pessoas são realmente antissociais...

Tisanas Hatherlyanas 2

As primeiras Tisanas Hatherlyanas podem ser lidas aqui.


1
Olha ali! Não sabes para onde olhar, não é? Mas olha na mesma, que algo hás de ver que seja meritório de um "olha ali!" Nem tudo o que merece ser visto tem a boa sorte de ter quem diga "olha ali!" Nem estes "olha ali!" implicam que se olhe puramente com o olhar: o ouvido, o cheiro, o tocar também podem estar dentro de um "olha ali!" É preciso não simplificar. Olha ali agora! Mas olha ali!!!

2
Toque-toque-toque, lá ia ela. Tico-tico-tico, vinha de volta. Era um vai-e-vem de onomatopeias, aquela miúda!

3
Os famosos famélicos azafamados açambarcaram as açafatas com acessos de assédio sadio: sandes e açouguices sem sensaborias, se fazem favor! Azafamaram-se as açafatas assando salsichas e chouriços (num fogareiro churrasqueiro chamuscado de fuligem fulva) e ensanduichavam sandes com quantas carnes cabiam nas carcaças de côdea crespa que seguiriam sempre sucintas das açafatas açambarcadas para os já familiares famosos famélicos azafamados.

4
Quomodo vales? Pergunta fortemente romana, mas que de pouco serve hoje em dia porque pouca gente fala romano, quero dizer, latim.

5
Era uma vez um senhor de nome Barnabé Bastos do Bom Sucesso. Nada mais a dizer, esse senhor foi uma vez e pronto.

6
Listagem de coisas: uma torre de Londres em miniatura; um carro telecomandado velho e sem pilhas; um teclado cinzento dos anos 90; quatro pares de meias pretas; duas canecas partidas; uma cadeira e um banco; e o proverbial elefante do Mário-Henrique.

7
Três personagens inócuos:
Um. Waldeck Paulo-Pais dormia a sono solto quando acordou. Òbviamente: não podia estar a fazer outra coisa antes de acordar.
Dois. Godofredo Pasmo descascava cebolas como se disso dependesse a sua próxima refeição. E dependia mesmo...
Três. Almeida Simplesmente era um sujeito pacato. Porém, quando lhe subia a mostarda ao nariz ficava pior que uma noz moscada.

8
Copos de vidro serviam para estilhaçar, mas os de plástico para amachucar. Nem que se quisesse, nunca ninguém conseguiu estilhaçar um copo de plástico, nem amachucar um copo de vidro.

9
Não havia quem dissesse que ela não era uma senhora de bem. Não, não havia. O que havia era quem dissesse que ela era uma senhora de bem, ponto. A grande chatice é que ela era uma pessoa insuportável e ninguém parecia notar!

10
Nem João Tão sabia o que havia naquele livro, nem Carlota Tanta lhe podia desvendar que naquele livro não havia nada.

sábado, 3 de maio de 2014

Lia Altavilla (soprano) e Carla Seixas (piano) interpretam Francisco de Lacerda


Da colecção "Trovas para voz e piano" (publicadas pela Fundação Calouste Gulbenkian na Portugaliae Musica, vol. 24, Lisboa, 1973) do compositor açoriano Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (1869-1934). A deliciosa letra original desta "trova" vem do cancioneiro popular português:

A mulher do meu vizinho 
É uma santa mulher: 
Dá os ossos ao marido 
E a carne a quem ela quer. 

O marido, coitadinho,                [interpretação genial!]
É também um santo homem: 
Não confessa nunca, nunca, 
Os desgostos que o consomem. 

Vídeo sob Licença do YouTube Padrão, reproduzido no canal YouTube do Movimento Patrimonial para a Música Portuguesa (MPMP) com autorização das intérpretes.

Mais Frases de Oscar Wilde

Oscar Wilde Action Figure, copyrighted by Accountrements. 

"He hadn’t a single redeeming vice."

"He has no enemies, but is intensely disliked by his friends."

"He lives the poetry that he cannot write. The others write the poetry that they dare not realize."

"He must have a truly romantic nature, for he weeps when there is nothing at all to weep about."

"He was always late on principle; his principle being that punctuality is the thief of time."

"How can a woman be expected to be happy with a man who insists on treating her as if she were a perfectly normal human being?"

"How marriage ruins a man! It is as demoralizing as cigarettes, and far more expensive."

"How strange a thing this is! The Priest telleth me that the Soul is worth all the gold in the world, and the merchants say that it is not worth a clipped piece of silver."

"I always like to know everything about my new friends, and nothing about my old ones."

"I am not young enough to know everything."

"I can believe anything as long as it is incredible."

"I have nothing to declare except my genius."

"I have the simplest tastes. I am always satisfied with the best."

"I hope you have not been leading a double life, pretending to be wicked and being really good all the time. That would be hypocrisy."

"I must decline your invitation owing to a subsequent engagement."

"I never travel without my diary. One should always have something sensational to read in the train."

"I put all my genius into my life; I put only my talent into my works."

"I was working on the proof of one of my poems all the morning, and took out a comma. In the afternoon I put it back again."

"I do not approve of anything that tampers with natural ignorance."

"I like men who have a future and women who have a past."

"I never play cricket. It requires one to assume such indecent postures."

"I suppose society is wonderfully delightful. To be in it is merely a bore. But to be out of it is simply a tragedy."

"If one cannot enjoy reading a book over and over again, there is no use in reading it at all."

"If one plays good music, people don’t listen and if one plays bad music people don’t talk."

"If you are not too long, I will wait here for you all my life."

"Illusion is the first of all pleasures."

"In America the young are always ready to give to those who are older than themselves the full benefits of their inexperience."

"In England people actually try to be brilliant at breakfast. That is so dreadful of them! Only dull people are brilliant at breakfast."

"In every first novel the hero is the author as Christ or Faust."

"In married life, three is company and two none."

"It is always a silly thing to give advice, but to give good advice is fatal."

"It is a very sad thing that nowadays there is so little useless information."

"It is absurd to divide people into good and bad. People are either charming or tedious."

"It is better to be beautiful than to be good. But... it is better to be good than to be ugly."

"It is better to have a permanent income than to be fascinating."

"It is dangerous to be sincere unless you are also stupid."

"It is only an auctioneer who can equally and impartially admire all schools of art."

"It is only shallow people who do not judge by appearances."

"It is perfectly monstrous the way people go about nowadays saying things against one, behind one’s back, that are absolutely and entirely true."

"It is very vulgar to talk about one’s business. Only people like stockbrokers do that, and then merely at dinner parties."

"It is what you read when you don’t have to that determines what you will be when you can’t help it."

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