As primeiras Infusões Simples podem ser lidas aqui.
1
Nem queria acreditar no que se passava no bar! A gente tem uma
percepção muito diferente das coisas quando está no quarto de trás.
Os gritos que se ouviam, meu Deus! O cliente não ajudava nada e
ainda era preciso trabalhar um bocado. Quando finalmente saí para o bar e vi os tremoços no
chão é que percebi o que se passava: era o futebol. Tinha-me
esquecido...
2
Em trinta e quatro horas, Ludovico Bórgia de Lençóis tinha
conseguido chatear toda a gente num raio de 3 metros à sua volta.
Como é que ele o conseguiu? Muito fácil: bastou-lhe demorar esse
tempo todo a falecer.
3
Não era nada daquilo, mas ela teimava que era. Acabou por
conseguir, mas não era nada daquilo. Quando se começa a fazer uma
coisa, dizia ela, há que acabá-la, mesmo que não se acabe o que se
começou. Ela lá saberia...
4
Era uma vez um gato maltês que falava piano e tocava francês. Mas
o francês não gostava muito que lhe tocassem e zangava-se. O gato
maltês teve de deixar de lhe tocar. Acabou por se mudar para Toulon,
já que na Valetta não havia outros franceses que ele pudesse tocar.
5
Afastado do seu posto por razões técnicas, Patrício Vaz Hotte começou
finalmente a trabalhar. O que ele fazia no posto era o que estava no
contrato de trabalho; o que ele fez depois disso foi tudo o resto.
6
Carlota da Maia não tinha nada a ver com a famosa família
queiroziana. Porém, dizia a toda a gente que sim. As pessoas, então,
esqueciam-se de que a tal família era ficcional e ofereciam-lhe as
condolências. Ela aceitava e chamava-lhes estúpidos a meia voz. Este
era o seu desporto favorito!
7
Jonas Sempiterno e Bonifácio Bonnemine, inseparáveis companheiros
de cavalgada, encontravam-se raramente, nunca mais de duas vezes
por ano, em média, e sempre por acaso. Na verdade, nem se
conheciam. Porém, nós, que somos o narrador omnisciente, sabemos
que todos os dias, nos últimos 20 anos, tomavam o mesmo metro para
o trabalho. Nunca falharam, mesmo em carruagens separadas, era
sempre a mesma composição, à mesma hora. Sempre a mesma
cavalgada, sempre companheiros inseparáveis.
8
Era uma vez um QTL. Não era um QTL qualquer, pois designava
uma base genética mendeliana. Então ninguém queria saber dele e
preferia fazer cruzamentos para obter dados. Certo dia, o QTL
fartou-se e fez as malas. Ficou em seu lugar uma mutação, um SNP,
que alterou completamente o jogo. Passou-se a jogar xadrez em vez de
damas.
9
Ricardo della Genga não fazia senão chorar. Todos os choros que ele
chorava tinham uma origem ridícula e uma consequência previsível:
chorava quando via o chão e depois alagava tudo para não ver o
chão. O choro de della Genga era, no fundo, um mecanismo.
10
Todos os dias Claudiana e Sampaio iam às compras às 8h. Nunca
compravam nada, evidentemente, mas sabia-lhes bem aquela vida de
desconsumistas. Já os comerciantes os conheciam e perguntavam
"Então não querem descomprar nada?", ao que eles respondiam
"Queremos pois! O que é que tem hoje para desvender?" E voltavam
todos os dias para casa descarregados de coisas que tinham
descomprado. Eram indesfelizes assim.
11
Quatro mossas tinha o carro do Pascoal Tromet. O objectivo dele era
chegar às doze, mas a mulher, uma robusta e
headstrong Mrs
Tromet, insistia para que ele levasse o carro ao bate-chapas. Ele bem
tentava esconder as mossas, ou fazê-las onde não se vissem bem, mas
ela acabava sempre por dar com elas. O máximo a que ele chegou foi
sete mossas. Esperemos que algum dia ele consiga o seu objectivo.
12
Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz foi reconhecido como o maior
cavaleiro sem cavalo da história de Alcambra de Cima. A junta de
Alcambra de Baixo tinha-lhe recusado o mesmo título porque Tito
Teodoro Tremendo Taveira Truz era casado com uma senhora do
Porto e o presidente da junta era benfiquista.
13
Cinco e meia da tarde e nem se ouvia fazer ruído. Podia-se pensar
que era natural, mas não: era contestatário. Daí que toda a gente se
tivésse posto a gritar em silêncio. Os protestos inaudíveis
continuaram sem ser ouvidos pelo patronato, portanto tanto fazia
gritar com som ou sem ele.
14
Paio d'Almendra comia paio de Almendra todos os dias ao jantar.
Era para fazer publicidade a si próprio. Era pena que a audiência, o
público alvo, fosse só ele próprio.
15
"Traste disfuncional" era o subtítulo de uma obra de Rui Pacheco
Rui Paz, o conhecido artista plástico. Consistia numa velha chaleira
de metal com um smartphone lá dentro (que não se via, então
ninguém sabia que lá estava). Foi arrematada por meio milhão de
libras na Christie's. O comprador, porém, acusou Rui
Pacheco Rui Paz de fraude: o smartphone ainda funcionava (e, bem
vistas as coisas, a chaleira também).
16
Henriquette du Belay-Farcie criava gatos. E vendia recheio para
fora.
17
Agathe, Bernarda, Bernadette e Maria Carla eram as
auto-proclamadas ABBA. OK, não era para ser a Maria Carla, mas a
Ambrósia achou melhor ser comida de deuses olímpicos em vez de se
prestar a chachadas.
18 Cinqüenta e duas vezes gritou "Ah e tal" e nada, ninguém o ouviu. No metro em hora de ponta as pessoas são realmente antissociais...