domingo, 14 de setembro de 2014

Tisanas Hatherlyanas 2

As primeiras Tisanas Hatherlyanas podem ser lidas aqui.


1
Olha ali! Não sabes para onde olhar, não é? Mas olha na mesma, que algo hás de ver que seja meritório de um "olha ali!" Nem tudo o que merece ser visto tem a boa sorte de ter quem diga "olha ali!" Nem estes "olha ali!" implicam que se olhe puramente com o olhar: o ouvido, o cheiro, o tocar também podem estar dentro de um "olha ali!" É preciso não simplificar. Olha ali agora! Mas olha ali!!!

2
Toque-toque-toque, lá ia ela. Tico-tico-tico, vinha de volta. Era um vai-e-vem de onomatopeias, aquela miúda!

3
Os famosos famélicos azafamados açambarcaram as açafatas com acessos de assédio sadio: sandes e açouguices sem sensaborias, se fazem favor! Azafamaram-se as açafatas assando salsichas e chouriços (num fogareiro churrasqueiro chamuscado de fuligem fulva) e ensanduichavam sandes com quantas carnes cabiam nas carcaças de côdea crespa que seguiriam sempre sucintas das açafatas açambarcadas para os já familiares famosos famélicos azafamados.

4
Quomodo vales? Pergunta fortemente romana, mas que de pouco serve hoje em dia porque pouca gente fala romano, quero dizer, latim.

5
Era uma vez um senhor de nome Barnabé Bastos do Bom Sucesso. Nada mais a dizer, esse senhor foi uma vez e pronto.

6
Listagem de coisas: uma torre de Londres em miniatura; um carro telecomandado velho e sem pilhas; um teclado cinzento dos anos 90; quatro pares de meias pretas; duas canecas partidas; uma cadeira e um banco; e o proverbial elefante do Mário-Henrique.

7
Três personagens inócuos:
Um. Waldeck Paulo-Pais dormia a sono solto quando acordou. Òbviamente: não podia estar a fazer outra coisa antes de acordar.
Dois. Godofredo Pasmo descascava cebolas como se disso dependesse a sua próxima refeição. E dependia mesmo...
Três. Almeida Simplesmente era um sujeito pacato. Porém, quando lhe subia a mostarda ao nariz ficava pior que uma noz moscada.

8
Copos de vidro serviam para estilhaçar, mas os de plástico para amachucar. Nem que se quisesse, nunca ninguém conseguiu estilhaçar um copo de plástico, nem amachucar um copo de vidro.

9
Não havia quem dissesse que ela não era uma senhora de bem. Não, não havia. O que havia era quem dissesse que ela era uma senhora de bem, ponto. A grande chatice é que ela era uma pessoa insuportável e ninguém parecia notar!

10
Nem João Tão sabia o que havia naquele livro, nem Carlota Tanta lhe podia desvendar que naquele livro não havia nada.

sábado, 3 de maio de 2014

Lia Altavilla (soprano) e Carla Seixas (piano) interpretam Francisco de Lacerda


Da colecção "Trovas para voz e piano" (publicadas pela Fundação Calouste Gulbenkian na Portugaliae Musica, vol. 24, Lisboa, 1973) do compositor açoriano Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (1869-1934). A deliciosa letra original desta "trova" vem do cancioneiro popular português:

A mulher do meu vizinho 
É uma santa mulher: 
Dá os ossos ao marido 
E a carne a quem ela quer. 

O marido, coitadinho,                [interpretação genial!]
É também um santo homem: 
Não confessa nunca, nunca, 
Os desgostos que o consomem. 

Vídeo sob Licença do YouTube Padrão, reproduzido no canal YouTube do Movimento Patrimonial para a Música Portuguesa (MPMP) com autorização das intérpretes.

Mais Frases de Oscar Wilde

Oscar Wilde Action Figure, copyrighted by Accountrements. 

"He hadn’t a single redeeming vice."

"He has no enemies, but is intensely disliked by his friends."

"He lives the poetry that he cannot write. The others write the poetry that they dare not realize."

"He must have a truly romantic nature, for he weeps when there is nothing at all to weep about."

"He was always late on principle; his principle being that punctuality is the thief of time."

"How can a woman be expected to be happy with a man who insists on treating her as if she were a perfectly normal human being?"

"How marriage ruins a man! It is as demoralizing as cigarettes, and far more expensive."

"How strange a thing this is! The Priest telleth me that the Soul is worth all the gold in the world, and the merchants say that it is not worth a clipped piece of silver."

"I always like to know everything about my new friends, and nothing about my old ones."

"I am not young enough to know everything."

"I can believe anything as long as it is incredible."

"I have nothing to declare except my genius."

"I have the simplest tastes. I am always satisfied with the best."

"I hope you have not been leading a double life, pretending to be wicked and being really good all the time. That would be hypocrisy."

"I must decline your invitation owing to a subsequent engagement."

"I never travel without my diary. One should always have something sensational to read in the train."

"I put all my genius into my life; I put only my talent into my works."

"I was working on the proof of one of my poems all the morning, and took out a comma. In the afternoon I put it back again."

"I do not approve of anything that tampers with natural ignorance."

"I like men who have a future and women who have a past."

"I never play cricket. It requires one to assume such indecent postures."

"I suppose society is wonderfully delightful. To be in it is merely a bore. But to be out of it is simply a tragedy."

"If one cannot enjoy reading a book over and over again, there is no use in reading it at all."

"If one plays good music, people don’t listen and if one plays bad music people don’t talk."

"If you are not too long, I will wait here for you all my life."

"Illusion is the first of all pleasures."

"In America the young are always ready to give to those who are older than themselves the full benefits of their inexperience."

"In England people actually try to be brilliant at breakfast. That is so dreadful of them! Only dull people are brilliant at breakfast."

"In every first novel the hero is the author as Christ or Faust."

"In married life, three is company and two none."

"It is always a silly thing to give advice, but to give good advice is fatal."

"It is a very sad thing that nowadays there is so little useless information."

"It is absurd to divide people into good and bad. People are either charming or tedious."

"It is better to be beautiful than to be good. But... it is better to be good than to be ugly."

"It is better to have a permanent income than to be fascinating."

"It is dangerous to be sincere unless you are also stupid."

"It is only an auctioneer who can equally and impartially admire all schools of art."

"It is only shallow people who do not judge by appearances."

"It is perfectly monstrous the way people go about nowadays saying things against one, behind one’s back, that are absolutely and entirely true."

"It is very vulgar to talk about one’s business. Only people like stockbrokers do that, and then merely at dinner parties."

"It is what you read when you don’t have to that determines what you will be when you can’t help it."

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quarta-feira, 5 de março de 2014

Sobre a Ciência Medieval


BBC Terry Jones' Medieval Lives - The Philosopher, o episódio sobre a Ciência Medieval da estupenda série de Terry Jones (aconselho-a toda, absolutamente, são 8 episódios, de 2004). Aí se vê que nem os medievais pensavam que a Terra era plana, nem a Igreja era contra a Ciência. Hei de escrever um post longo sobre a Ciência (particularmente a Biologia) Medieval um dia destes. Vídeo sob licença do YouTube Padrão.

domingo, 2 de março de 2014

Michel Corboz dirige Händel e Bach

Com o Ensemble Lausanne.


Dixit Dominus de Georg Friedrich Händel.


Missa em Sol menor BWV 235 de Johann Sebastian Bach.

sábado, 1 de março de 2014

Três de Mário Quintana

Bilhete (Esconderijos do Tempo, 1980)
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

A Arte de Ser Bom (Espelho Mágico, 1951)
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.

Poeminha do Contra (Prosa e Verso, 1978)
Esses todos que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mário Quintana

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Citações Literárias

"(...) the idler is an adventurer in the face of death, a crusader against the dictate of haste. (...) the joy of wasting time."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 171, Amadeu do Prado's speech.


"The black silence of the grand piano filled the room."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 214.

"We give them a piece of our mind, as they say in English. That's the only good thing I brought from that absurd country."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 362.

"[She] spoke the harsh Spanish words with a remnant of Portuguese softness."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 415.

"He wasn't one for sightseeing. If people gathered around something, he tended to keep his distance; that equated with his habit of reading bestsellers only years later."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 417.

"— Tem um escudo para eu meter no juke box?
Deu-lhe um escudo. Chegam até mim os sons metálicos do aparelho. (...) É uma daquelas canções espanholas que se caracterizam por serem iguais a todas as outras canções espanholas. (...) Deus mete-nos em cada uma! Estou outra vez a ser injusto. (...) Não há dúvida de que Deus, a existir, não nos vinculou a nenhum caminho. Deixou-nos a liberdade de escolha. Foram os homens que depois vieram tirar essa liberdade que Deus nos dera. Mas quais homens?"
- Luís de Sttau Monteiro, in Um Homem Não Chora, 1961, pp. 42s.

"A Fernanda sai do quarto. Vejo nos seus olhos que acabo de cometer um crime. Matei qualquer coisa que dificilmente poderei ressuscitar. Matar, matar seja o que for, é horrível."
- Luís de Sttau Monteiro, in Um Homem Não Chora, 1961, p. 101.

"Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte."
- Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser, 2004, p. 67.

"Diga-se que há problemas de poesia mais difíceis que complicadíssimos problemas de álgebra. Se a álgebra é uma religião rigorosa, a poesia será uma religião excessiva."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 91.

"Bloom sabe bem que só é material e só existe aquilo que pode ser colocado debaixo dos pés de uma mesa para a endireitar. E um frase, por mais espessa e sólida que seja, nunca reequilibrará o mais leve desencontro entre o mobiliário e o chão."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 93.

"Procuro uma mulher, disse Bloom, ou então a sabedoria."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 99.

"Ah, Paris! Em mais nenhuma cidade se está mais perto de Paris que em Paris. Daí a sua grandeza."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 102.

"Sometimes the things of this world are less beautiful than their shadows."
- Benjamin Hale, in The Evolution of Bruno Littlemore, p. ?.

"It is a great nuisance that knowledge can only be acquired by hard work."
- W. Somerset Maugham, in Ten Novels and their Authors, p. 8.