quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Philippe Jaroussky canta Antonio Vivaldi

Aria "Se in ogni guardo", dell' Opera "Orlando finto pazzo"
Com o Ensemble Matheus dirigido por Jean-Christophe Spinosi, que são excelentes! O vídeo que eu queria por aqui, though, é este http://www.youtube.com/watch?v=9zQX2XqAE8c, mas o
embedding foi disabled by request. A música só começa lá para o 0:50 mas vale mesmo a pena esperar. É a perfeição total, solista e orquestra!

sábado, 2 de agosto de 2008

Infusões Simples

Na sequência das Tisanas Hatherlyanas, achei que estes pequenos textos que se seguem não se inseriam bem na designação "tisana". Então, chamei-lhes infusões. E são simples, sem açúcar.


1
Estava ela linda, deitada no banco do jardim, em frente ao Banco. Eu mirava-a, não conseguia desgrudar os olhos da figura dela. Não sei se ela me sentia. Mas estava linda. Avancei para ela e comi-a.

2
Didacus de Cirenus comia, comia, comia. E bebia. Quando explodiu ninguém estranhou muito. Ninguém? Bom, não era bem assim: Didacus de Cirenus ficou estupefacto! Ele não tinha consciência do que era.

3
His Highness The Cat rushed down the stairs after swindling His Lordship The Dog and Her Ladyship The Parrot of all their attention. Cats are swift, humans are unaware, and all the others are just all the others; but a cat that is a HH has all what all they have. When the humans became aware, the confusion had already been installed and was all too late...

4
Era uma vez um pato que andava sempre de costas. Um dia caiu, tropeçou e caiu, simplesmente... e nunca mais se levantou. Caiu para debaixo do machado do lenhador.

5
Eduardo de Castelo Negro tinha morto a namorada à facada, mas não foi esse o crime que o levou à alçada das autoridades: foi o seu cadáver que ficou à guarda da GNR quando foi encontrado. Ao longo da investigação foram-se descobrindo os podres de Eduardo. Nada se podia fazer sobre ele, e o pior é que alargava o leque de suspeitos. Um dia, semanas após o início das investigações, um brilhante inspector chegou e resolveu logo tudo: arquivou o caso por falta de um suspeito...

6
Era uma vez uma criança que se transformou em adulto sem perceber. Arranjou emprego, mas não sabia fazer nada. Estudou, mas não sabia o quê. Casou, criou família, mas não sabia porquê. Decidiu acabar com tudo e não conseguia. Desempregou-se, separou-se, deixou de ler, mas não conseguiu acabar com tudo. Tentou mudar-se. Tentou mudá-los. Tentou mudar tudo, todos, nadas. Não conseguiu. Mudou muito mas não tudo, nem todos, nem nadas. Havia sempre qualquer coisa — nunca conseguiu acabar com tudo. Nem quando morreu.

7
Era uma vez um rei que queria ser um homem do povo. Então, um dia, disfarçou-se de camponês e foi para o campo disposto a cavar a terra. Mas não sabia fazer aquilo e depressa se fartou. Quis voltar a ser rei mas não conseguiu, não o deixaram. Ele insistiu e foi açoitado, acusado, condenado a pagar o que não tinha, preso, mutilado, quase executado. Anos depois, quando saiu depois de cumprir a pena, conformado com a sua sorte e em como era sempre mais fácil descer na vida do que subir nela, encontrou à sua espera à porta da prisão o seu antigo secretário e o comissário da guarda, sorridentes e com o sentido do dever cumprido no olhar. “Sua Majestade está contente? Tal como queria, pensámos em lhe proporcionar uma experiência o mais próximo possível das que acontecem a um homem do povo...”

8
Alexandre da Silva Bruno, um abastado comerciante da capital, viu a sua vida escapar-se-lhe por entre os dedos no dia em que a agarrou com as mãos: a caixa estava vazia, as algibeiras estavam vazias, a cabeça estava vazia. Quis enchê-las mas as mãos nunca conseguem agarrar a vida, a não ser que seja material. Então perdeu-a.

9
Era uma vez um Alexandre de nome que tinha a mania que era Magno. Fazia com que toda a gente o tratasse por Magno, assinava Magno, chegou mesmo, ao chegar à maioridade, a alterar o nome no Registo Civil para Magno. Quando lhe morreu o tio-padrinho, a herança em testamento foi parar ao Alexandre...

10
O presunto era branco, da quantidade de toucinho que tinha. E era toucinho alimentado a farinhas industriais. Fazia Deus sabe que esforço por levar aquilo à boca, mastigar e engolir, fingindo que comia, tentando evitar que ele me enchesse o copo continuamente. Três horas depois, sentados num banco corrido a cair de podre, o papel em cima de uma pipa praliné de teias de aranha, a minha Parker de prata numa mão suada e suja de uma semana, lá consegui que o velho assinasse o contrato de venda...

11
A mesa cheia foi regada com champagne genuíno. Literalmente regada: ninguém reparou que a garrafa tinha sido agitada e a rolha estalou, chovendo o líquido nectarino para cima das iguarias. Ficou o jantar de Ano Novo estragado. Fomos jantar fora. E saiu mais barato!

12
O piano do Alberto estava todo, todo estragado! E o Alberto sabia. Era uma catástrofe para os outros quando insistia em tocar...

Heinrich Neuhaus toca Johannes Brahms

Intermezzo h-moll Op. 119, Nr 1

Intermezzo e-moll Op. 119, Nr 2

(sem palavras)

sábado, 26 de julho de 2008

Tisanas Hatherlyanas


306
Algo está sempre a acontecer. Por isso escrevo. Escrevo porque algo aconteceu ou acontece. Escrever é isso, mas escrever é sobretudo produzir o acontecer.

Ana Hatherly, in "463 Tisanas", Ed. Quimera

Introdução
Não sou poeta. Nunca fui e não espero ser. Mas escrevo pequenos parágrafos, pequenos momentos de imaginação, de pensamento, de prazer; pequenas ideias para desenvolver, visões para explorar... E a colecção já é vasta. I'll post them here, I thought. E decidi homenagear Ana Hatherly, poetisa portuguesa que publica estes seus pequenos momentos de escrita com o nome de "tisanas". E são deliciosos de ler! Se os meus tiverem, nem que ao de leve, a qualidade das tisanas de Ana Hatherly, já posso dizer que sou escritor amador.

8 Tisanas Hatherlyanas


1
Era uma vez um carrinho de compras, muito sujo e usado, mas muito matreiro e ousado, que foi um dia às compras comprar um carro a sério, mas a sério mesmo, mesmo que implicasse o seu abandono. Ele era suficientemente altruísta.

2
Quando estava bêbado, não via nada, porém lembrava-me de tudo. Estando sóbrio não me lembro de nada, porém vejo tudo...

3
Singing along with Carol, the carols everyone should hate, after we ate a turkey stuffed with Christmas and raisins. Raising a child is not easy, but then again, raising an adult should be harder—not that I ever tried, mind you!

4
Ai, como dói! As feridas são assim mesmo, feitas para doer, ou então não eram feridas feitas ou não eram mesmo feitas, porque para serem feridas feitas têm de ser feitas para doer como feridas. Oh my, como dói! E o pior é que é na alma, provando que ela existe.

5
Corria à chuva para não ficar molhado. Isto é, corria à chuva para encontrar um abrigo onde não fosse molhado pela chuva sob a qual corria para encontrar um abrigo onde não fosse molhado pela chuva. Mas ficava molhado porque fugia da chuva para não ficar molhado, por isso corria.

6
Excelência. É tudo o que é preciso. Nada mais é pouco. Tudo mais é excessivo.

7
Não queria, mas tinha que ser. Tinha de comprar aquilo custe o que custasse. E depois... logo se veria! Como pagar a água e a luz e a comida... Aquilo tinha de comprar. Era um idiota, nessa altura, e sabia tudo... Mas depois, a idade, as circunstâncias, as políticas, e tudo e tudo, mudaram... Mudaram o quê? Não me lembro! Deu-me uma branca! Estava a falar do quê? Mas que estupidez!... Então e agora? Sim, vemo-nos amanhã, é melhor. Pode ser que me lembre do que queria dizer. Adeus.

8
The Times Higher Education Supplement. 
European Journal of Medical Epidemiology. 
Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 
Cell. 
Que estranhos e diversos nomes têm as revistas científicas e académicas. E os jornais que informam pouco e apenas aquilo que alguns querem que seja informação e que seja informação para ser informada. Quanto não vale... sei lá o quê!, isto é só escrever...

A bit of PhD Comics - just to procrastinate a little...






http://www.phdcomics.com/comics.php by Jorge Cham

(Actually, all of these situations have happened to me! Blimey...)

Um outro não-conto...

Não é mesmo um conto, nem chega a ser um diálogo...
É um textozeco que me saiu e que eu acho giro.

sem título

— Chá com cebola — e pediu isto com toda a naturalidade. — Mas veja lá se o limão é fresco!

— Queira desculpar — disse o atarantado waiter —, percebi bem? Quer um chá de cebola?

— Percebeu mal — respondeu revirando os olhos —: quero um chá COM cebola.

— Ah, quer um chá... com cebola — tinha o ar de quem percebeu tudo e fez o gesto de apontar no bloco; mas... — Um chá de limão?

— Não, homem! — e voltando-se para mim: — Como é que esta gente é contratada para isto!
Voltou-se para o waiter:

— Um chá verde, chá chá, uma infusão de folhas de Camellia sinensis! Mas com cebola, percebeu agora?

— Â... Um chá verde com cebola...

O homemzinho, coitado, tinha agora o ar mais assustado e atrapalhado que eu já alguma vez vira nestas situações. Fingia anotar no caderno para não ter de a olhar nos olhos, mas a verdade é que não se mexia dali.

— Ouça — recomeçou ela condescendentemente —, faz o chá e traz à parte uma rodela de cebola fresca para eu pôr na chávena antes de deitar o chá.

E o homenzinho finalmente sorriu e anotou mesmo, num gesto que indicava claramente que antes só tinha fingido anotar. E depois mexeu-se.

Quanto voltou com o chá ela ficou danada:

— Então mas e o limão? Eu não lhe disse limão fresco?

O homenzinho estacou, ainda dobrado a colocar as coisas na mesa, a mandíbula balouçou-lhe sem que som algum saísse, os olhos arregalaram-se-lhe em perplexidade.

— Di-diss... Disse-me chá verde, madame!

— Chá verde com cebola, sei muito bem o que pedi! Então e o limão? Então não sabe que o chá verde vem sempre com uma rodela de limão?

E voltando-se outra vez para mim:

— Não sei mesmo como contratam estas pessoas. Really!

Escrito em Coimbra, a 26 de Julho de MMVII

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Regentes de Portugal


The Regent Diamond


Infelizmente, este diamante nada tem a ver com Portugal... Mas este post também nada tem a ver com diamantes (e temos outros como este)! Na Wikipedia existe uma listagem de Regentes por país e verifiquei que faltavam os de Portugal. Então, fiz eu uma lista (espero que completa) de pessoas que exerceram a Regência (isto é, governaram em vez do Monarca) em Portugal, lista que pus na Wikipedia.
...
(1112-1128 Teresa, Condessa Raínha de Portugal)
...
1245-1248 Afonso, Infante de Portugal, Conde jure uxoris de Bolonha
...
1383-1384 Leonor Telles de Menezes, Raínha de Portugal
1384-1385 João, Mestre de Avis
...
1438-1439 Leonor de Aragão, Raínha de Portugal
1439-1448 Pedro, Infante de Portugal, Duque de Coimbra

Armas do Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra
...
1557-1562 Catarina de Áustria, Raínha de Portugal
1562-1568 Henrique, Infante de Portugal, Cardeal
...
1656-1662 Luísa de Gusmão, Raínha de Portugal
...
1668-1683 Pedro, Infante de Portugal
...
1704-1705 Catarina, Raínha Viúva de Inglaterra, Escócia e Irlanda
...
1792-1816 João, Príncipe do Brasil

Bandeira do Reino do Brasil, usada como Pavilhão Pessoal do 
Príncipe Regente do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves etc.
...
1826-1828 Isabel Maria, Infanta de Portugal
1828-1828 Miguel, Infante de Portugal
...
1831-1834 Pedro, Duque de Bragança
...
1853-1855 Fernando II, Rei jure uxoris de Portugal
...

As reticências indicam que antes e depois da Regência o Monarca por direito assumiu funções governativas. Excluí as Regências "menores", digamos, sem consequências maiores ou uma grande alteração na governação; como por exemplo a "falsa partida" para o Trono de Dom João II em 1477, ou a curta Regência do Príncipe Real Dom Luís Filipe por algumas dias/semanas em 1907, entre outras.