sábado, 26 de julho de 2008

A bit of PhD Comics - just to procrastinate a little...






http://www.phdcomics.com/comics.php by Jorge Cham

(Actually, all of these situations have happened to me! Blimey...)

Um outro não-conto...

Não é mesmo um conto, nem chega a ser um diálogo...
É um textozeco que me saiu e que eu acho giro.

sem título

— Chá com cebola — e pediu isto com toda a naturalidade. — Mas veja lá se o limão é fresco!

— Queira desculpar — disse o atarantado waiter —, percebi bem? Quer um chá de cebola?

— Percebeu mal — respondeu revirando os olhos —: quero um chá COM cebola.

— Ah, quer um chá... com cebola — tinha o ar de quem percebeu tudo e fez o gesto de apontar no bloco; mas... — Um chá de limão?

— Não, homem! — e voltando-se para mim: — Como é que esta gente é contratada para isto!
Voltou-se para o waiter:

— Um chá verde, chá chá, uma infusão de folhas de Camellia sinensis! Mas com cebola, percebeu agora?

— Â... Um chá verde com cebola...

O homemzinho, coitado, tinha agora o ar mais assustado e atrapalhado que eu já alguma vez vira nestas situações. Fingia anotar no caderno para não ter de a olhar nos olhos, mas a verdade é que não se mexia dali.

— Ouça — recomeçou ela condescendentemente —, faz o chá e traz à parte uma rodela de cebola fresca para eu pôr na chávena antes de deitar o chá.

E o homenzinho finalmente sorriu e anotou mesmo, num gesto que indicava claramente que antes só tinha fingido anotar. E depois mexeu-se.

Quanto voltou com o chá ela ficou danada:

— Então mas e o limão? Eu não lhe disse limão fresco?

O homenzinho estacou, ainda dobrado a colocar as coisas na mesa, a mandíbula balouçou-lhe sem que som algum saísse, os olhos arregalaram-se-lhe em perplexidade.

— Di-diss... Disse-me chá verde, madame!

— Chá verde com cebola, sei muito bem o que pedi! Então e o limão? Então não sabe que o chá verde vem sempre com uma rodela de limão?

E voltando-se outra vez para mim:

— Não sei mesmo como contratam estas pessoas. Really!

Escrito em Coimbra, a 26 de Julho de MMVII

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Regentes de Portugal


The Regent Diamond


Infelizmente, este diamante nada tem a ver com Portugal... Mas este post também nada tem a ver com diamantes (e temos outros como este)! Na Wikipedia existe uma listagem de Regentes por país e verifiquei que faltavam os de Portugal. Então, fiz eu uma lista (espero que completa) de pessoas que exerceram a Regência (isto é, governaram em vez do Monarca) em Portugal, lista que pus na Wikipedia.
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(1112-1128 Teresa, Condessa Raínha de Portugal)
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1245-1248 Afonso, Infante de Portugal, Conde jure uxoris de Bolonha
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1383-1384 Leonor Telles de Menezes, Raínha de Portugal
1384-1385 João, Mestre de Avis
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1438-1439 Leonor de Aragão, Raínha de Portugal
1439-1448 Pedro, Infante de Portugal, Duque de Coimbra

Armas do Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra
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1557-1562 Catarina de Áustria, Raínha de Portugal
1562-1568 Henrique, Infante de Portugal, Cardeal
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1656-1662 Luísa de Gusmão, Raínha de Portugal
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1668-1683 Pedro, Infante de Portugal
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1704-1705 Catarina, Raínha Viúva de Inglaterra, Escócia e Irlanda
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1792-1816 João, Príncipe do Brasil

Bandeira do Reino do Brasil, usada como Pavilhão Pessoal do 
Príncipe Regente do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves etc.
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1826-1828 Isabel Maria, Infanta de Portugal
1828-1828 Miguel, Infante de Portugal
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1831-1834 Pedro, Duque de Bragança
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1853-1855 Fernando II, Rei jure uxoris de Portugal
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As reticências indicam que antes e depois da Regência o Monarca por direito assumiu funções governativas. Excluí as Regências "menores", digamos, sem consequências maiores ou uma grande alteração na governação; como por exemplo a "falsa partida" para o Trono de Dom João II em 1477, ou a curta Regência do Príncipe Real Dom Luís Filipe por algumas dias/semanas em 1907, entre outras.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Dois pequenos textos...

Não são contos exactamente...


Escrevi a palavra caneta e continuei a escrever. Não sei porquê - nunca me tinha acontecido - não conseguia parar. Aquela palavra não me deixava. Ou então era a própria caneta que me segurava a mão e me obrigava a continuar a escrever, a escrever, a escrever e a escrever ainda. Não tinha nada para escrever, não tinha nada para dizer, mas o papel branco sujava-se com a tinta da maldita caneta que não deslargava. Fiz um esforço, olhei para o lado, para longe, esqueci-me que estava a escrever. Mas depois olhei sem querer, de relance, e vi que ainda escrevia. Como fazer para parar de escrever? Então lembrei-me: eu escrevi uma palavra e não consegui parar de escrever; então o melhor seria escrever outra vez a palavra para deixar de continuar a escrever! E escrevi-a: caneta.

Escrito em Lisboa, a 9 de Julho de MMVIII


Com um pedaço de plasticina molda-se um mundo, ou dois, ou três; ou nada ou tudo; ou se vê o que está por dentro, ou se mostra o que não existe, ou nos perdemos na cor mesclada que rola na mão que molda. E os sonhos aparecem, mesmo sem o serem, mesmo que queiram que sejam só sonhos, quando são muito mais que isso... Até que acaba a plasticina, se enrola numa bola e recomeça um novo mundo.

Escrito em Lisboa, a 14 de Julho de MMVIII

terça-feira, 15 de julho de 2008

Arturo Benedetti-Michelangeli toca Domenico Scarlatti

Sonata in si minore K30/L499

A perfeição, se ela existe...

Um conto...

sem título

Quando pus o CD a tocar nem pensei no equilíbrio precário em que se encontrava a pequena aparelhagem, assente em duas pilhas de revistas velhas, quais colunas dóricas, cada uma com um bom metro de altura (supostamente as duas teriam a mesma altura). O CD era de Bruckner, a sinfonia número cinco.

Não pensei mesmo que a aparelhagem se poderia ressentir daquela música, mas ressentia-se... À medida que se esforçava para me dar a leitura fria do CD, aquecia a pouco e pouco, o mostrador ficando cada vez mais brilhante enquanto mostrava (nunca percebi bem porquê) o tempo a passar, qual relógio de tempo limitado.

No segundo andamento da sinfonia, a aparelhagem dir-se-ia que suava. Eu suava de certeza, sentado incomodamente no sofá macio, incomodado pela força da música. Pensava em mim e em todas as sensações que aquela música me fazia sentir. Esquecia-me de pensar nos livros e nos móveis e em tudo o que, ali na sala, também era obrigado a sentir aquela música por minha causa. Na verdade não pensava — só sentia.

E quando a música se aproximava de um ponto alto e eu me agarrava ao sofá e contraía os músculos e tentava segurar o coração para que não me saltasse do peito, não percebi que a aparelhagem também se queria agarrar a qualquer coisa e aguentar o impacto da onda de sensações.

No final do grande clímax, mesmo nos seus últimos segundos, a aparelhagem não aguentou mais, resvalou até ao chão, o pedestal de revistas desmanchada, escorrendo como uma cascata de papel, ajudada por uma lufada de ar vinda da janela e que aparece sempre que a Natureza é obrigada a mostrar o seu mais íntimo.

A aparelhagem ficou inerte, caída, a luz do mostrador apagado, a porta das cassetes aberta como a boca aberta de um cadáver, enquanto revistas continuavam a chover-lhe em cima como flores atiradas para cima de um caixão... Ela não aguentara, não aguentava mais, nunca aguentaria mais fosse o que fosse. Bruckner tem destas coisas...

Escrito em Abrantes, a 8 de Setembro de MMVI

domingo, 13 de julho de 2008

Um conto curtíssimo...

sem título

Aconteceu-me uma vez, percebi que estava a ir para o lado errado e olhei em redor para conseguir ver uma placa de sinalização. Nenhuma à vista.

Fui mais adiante.

Lá estavam elas, em colmeia, as placas de sinalização. "Ora bem, vamos lá ver", pensei eu. Ler uma placa não é assim tão fácil como se podia pensar! A de cima dizia "PARA ALI" e a de baixo "PARA AQUI"... Enfim, não me cativaram e andei mais um bocado.

Sentia que me estava a enterrar cada vez mais, mas afinal havia mais pessoas por ali... Pensei em perguntar direcções mas não consegui.

Fui mais adiante outra vez à espera de tropeçar noutra amálgama de placas de sinalização. Lá estavam mais algumas: "PROIBIDO FUMAR", "PROIBIDO COMER", "PROIBIDO BEBER"...

Voltei para trás, corri... Se tivesse andado mais haveria placas com certeza a dizer "PROIBIDO RESPIRAR", "PROIBIDO SONHAR", "PROIBIDO VIVER"...

Escrito em Lisboa, a 7 de Julho de MMVIII