quarta-feira, 23 de julho de 2008

Dois pequenos textos...

Não são contos exactamente...


Escrevi a palavra caneta e continuei a escrever. Não sei porquê - nunca me tinha acontecido - não conseguia parar. Aquela palavra não me deixava. Ou então era a própria caneta que me segurava a mão e me obrigava a continuar a escrever, a escrever, a escrever e a escrever ainda. Não tinha nada para escrever, não tinha nada para dizer, mas o papel branco sujava-se com a tinta da maldita caneta que não deslargava. Fiz um esforço, olhei para o lado, para longe, esqueci-me que estava a escrever. Mas depois olhei sem querer, de relance, e vi que ainda escrevia. Como fazer para parar de escrever? Então lembrei-me: eu escrevi uma palavra e não consegui parar de escrever; então o melhor seria escrever outra vez a palavra para deixar de continuar a escrever! E escrevi-a: caneta.

Escrito em Lisboa, a 9 de Julho de MMVIII


Com um pedaço de plasticina molda-se um mundo, ou dois, ou três; ou nada ou tudo; ou se vê o que está por dentro, ou se mostra o que não existe, ou nos perdemos na cor mesclada que rola na mão que molda. E os sonhos aparecem, mesmo sem o serem, mesmo que queiram que sejam só sonhos, quando são muito mais que isso... Até que acaba a plasticina, se enrola numa bola e recomeça um novo mundo.

Escrito em Lisboa, a 14 de Julho de MMVIII

terça-feira, 15 de julho de 2008

Arturo Benedetti-Michelangeli toca Domenico Scarlatti

Sonata in si minore K30/L499

A perfeição, se ela existe...

Um conto...

sem título

Quando pus o CD a tocar nem pensei no equilíbrio precário em que se encontrava a pequena aparelhagem, assente em duas pilhas de revistas velhas, quais colunas dóricas, cada uma com um bom metro de altura (supostamente as duas teriam a mesma altura). O CD era de Bruckner, a sinfonia número cinco.

Não pensei mesmo que a aparelhagem se poderia ressentir daquela música, mas ressentia-se... À medida que se esforçava para me dar a leitura fria do CD, aquecia a pouco e pouco, o mostrador ficando cada vez mais brilhante enquanto mostrava (nunca percebi bem porquê) o tempo a passar, qual relógio de tempo limitado.

No segundo andamento da sinfonia, a aparelhagem dir-se-ia que suava. Eu suava de certeza, sentado incomodamente no sofá macio, incomodado pela força da música. Pensava em mim e em todas as sensações que aquela música me fazia sentir. Esquecia-me de pensar nos livros e nos móveis e em tudo o que, ali na sala, também era obrigado a sentir aquela música por minha causa. Na verdade não pensava — só sentia.

E quando a música se aproximava de um ponto alto e eu me agarrava ao sofá e contraía os músculos e tentava segurar o coração para que não me saltasse do peito, não percebi que a aparelhagem também se queria agarrar a qualquer coisa e aguentar o impacto da onda de sensações.

No final do grande clímax, mesmo nos seus últimos segundos, a aparelhagem não aguentou mais, resvalou até ao chão, o pedestal de revistas desmanchada, escorrendo como uma cascata de papel, ajudada por uma lufada de ar vinda da janela e que aparece sempre que a Natureza é obrigada a mostrar o seu mais íntimo.

A aparelhagem ficou inerte, caída, a luz do mostrador apagado, a porta das cassetes aberta como a boca aberta de um cadáver, enquanto revistas continuavam a chover-lhe em cima como flores atiradas para cima de um caixão... Ela não aguentara, não aguentava mais, nunca aguentaria mais fosse o que fosse. Bruckner tem destas coisas...

Escrito em Abrantes, a 8 de Setembro de MMVI

domingo, 13 de julho de 2008

Um conto curtíssimo...

sem título

Aconteceu-me uma vez, percebi que estava a ir para o lado errado e olhei em redor para conseguir ver uma placa de sinalização. Nenhuma à vista.

Fui mais adiante.

Lá estavam elas, em colmeia, as placas de sinalização. "Ora bem, vamos lá ver", pensei eu. Ler uma placa não é assim tão fácil como se podia pensar! A de cima dizia "PARA ALI" e a de baixo "PARA AQUI"... Enfim, não me cativaram e andei mais um bocado.

Sentia que me estava a enterrar cada vez mais, mas afinal havia mais pessoas por ali... Pensei em perguntar direcções mas não consegui.

Fui mais adiante outra vez à espera de tropeçar noutra amálgama de placas de sinalização. Lá estavam mais algumas: "PROIBIDO FUMAR", "PROIBIDO COMER", "PROIBIDO BEBER"...

Voltei para trás, corri... Se tivesse andado mais haveria placas com certeza a dizer "PROIBIDO RESPIRAR", "PROIBIDO SONHAR", "PROIBIDO VIVER"...

Escrito em Lisboa, a 7 de Julho de MMVIII

terça-feira, 10 de junho de 2008

Colégios Universitários em Coimbra (again)

1527-1834  Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra
????-????   Colégio de Santa Cruz *
1535-1566   Colégio de São Miguel
1535-1566   Colégio de Todos-os-Santos
15??-1???   Colégio de São João Baptista *
15??-1???   Colégio de Santo Agostinho *
1552-1834   Colégio Novo
1537-hoje  Universidade de Coimbra
1539-1834   Colégio de São Tomás
1540-1834   Colégio de Nossa Senhora do Carmo
1540-1834   Colégio de São Pedro **
1542-1759   Colégio das Onze Mil Virgens ou de Jesus
1543-1834   Colégio de Nossa Senhora da Graça
1545-1834   Colégio de São Bernardo ou do Espírito Santo
1545-1566   Colégio de São Domingos
1548-1834   Colégio de São João Evangelista ou dos Lóios
1548-1759   Colégio das Artes
1549-1834   Colégio de São Jerónimo
1550-1834   Colégio de São Paulo Apóstolo **
1550-1834   Colégio de São Boaventura ou dos Pimentas
1552-1834   Colégio da Santíssima Trindade
1555-1834   Colégio de São Bento
1566-1834   Colégio de Nossa Senhora da Conceição ou de Cristo
1572-1834   Colégio dos Terceiros ou dos Borras
1602-1834   Colégio de Santo António da Pedreira
1603-1834   Colégio de São José dos Marianos
1615-1834   Colégio dos Militares
1616-1834   Colégio de São Boaventura
1707-1834   Colégio de Santo António da Estrela
1755-1834   Colégio de Santa Rita ou dos Grilos
1779-1834   Colégio de São Paulo Eremita

* still uncertain of existence
** graduate colleges

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dramaturgos and Playwrights Portugueses

Again, uma lista incompleta...

fl. 1193 Bonamis e Acompaniado (Arremedilho)

1465-1537 Gil Vicente (35 peças)
1481-1558 Francisco de Sá de Miranda (3)
1516-1569 Diogo de Teive (3)
1517-1580 Luís Vaz de Camões (3)
1528-1569 António Ferreira (n)

1705-1739 António José da Silva, "o Judeu" (10)
1765-1805 Manuel Maria Barbosa du Bocage (1)
1799-1854 João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (21)

1810-1868 António Joaquim da Silva Abranches (n)
1810-1877 Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (2)
1815-1898 Joaquim da Costa Cascais (9)
1839-1871 Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho) (n)
1852-1908 Dom João Gonçalves Zarco da Câmara (12)
1866-1923 Adolfo Rodrigues da Costa Portela (5)
1871-1953 Francisco Xavier Cândido Guerreiro (n)
1876-1962 Júlio Dantas (11)
1880-1946 Alfredo Ferreira Cortês (6)
1890-1916 Mário de Sá-Carneiro (2)
1893-1970 José Sobral de Almada Negreiros (1)
1895-1967 Virgínia Vitorino (n)
1897-1959 António Tomás Botto (1)
1898-1983 Eduardo Chianca de Garcia (n)
1899-1965 José Campos de Figueiredo (1)
1900-1994 Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro (2)

1901-1969 José Régio (José Maria dos Reis Pereira) (5)
1906-1997 António Gedeão (Rómulo Vasco da Gama de Carvalho) (2)
1907-1995 Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha) (5)
1911-1969 António Alves Redol (2)
1917-1996 Romeu Correia (13)
1919-2004 Sophia de Mello Breyner Andresen (2)
1922-hoje José de Sousa Saramago (5)
1922-hoje Agustina Bessa-Luís (5)
1923-1993 Natália de Oliveira Correia (6)
1924-1980 Bernardo Santareno (António Martinho do Rosário) (14)
1926-1993 Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro (9)
1926-2007 João Osório de Castro (6)
1931-2007 António Joaquim Magalhães Cabral (7)
1938-2007 Fiama Hasse Pais Brandão (4)
1941-hoje Mário Cláudio (Rui Manuel Pinto Barbot Costa) (4)
1949-hoje Rui Ferreira de Sousa (n)
1954-hoje Luísa Costa Gomes (7)
1965-hoje Possidónio Cachapa (1)
1972-hoje Miguel Castro Caldas (6)
1974-hoje José Luís Peixoto (3)
1976-hoje José Maria Vieira Mendes (13)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sete anos de pastor...

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luiz Vaz de Camoens